Rios de lágrimas: transporte fluvial na Amazônia continua fazendo vítimas fatais

SINISTROS – O naufrágio do “Cap. Ribeiro” é uma triste repetição de outros acidentes igualmente graves. Esses acidentes estão em espiral crescente devido ao aumento no número de embarcações navegando nos rios amazônicos
Reportagem: Emanoel Reis

Cerca de trinta passageiros, dos mais de quarenta que viajavam no barco “Capitão Ribeiro”, teriam morrido no naufrágio ocorrido no rio Xingu, entre os municípios de Porto de Moz e Senador José Porfírio, no Pará. A estimativa é da Capitania dos Portos do Amapá, que participa das buscas e resgate das vítimas. Conforme as investigações iniciais, a embarcação, que tinha escala nos municípios paraenses de Monte Alegre, Prainha e Vitória do Xingu, navegava com excesso de lotação e de carga, e estava irregular.
O naufrágio do barco “Capitão Ribeiro” novamente expõe uma estatística macabra construída em cima dos sucessivos acidentes que ocorrem nos rios amazônicos, e continuam enlutando milhares de famílias, apesar das campanhas e alertas disparados, principalmente, pela Capitania dos Portos. Ainda hoje, em Macapá, muitos lembram do naufrágio do barco “Reis I”, ocorrido às vésperas do Círio de 2013, durante a procissão fluvial em homenagem à Nossa Senhora de Nazaré. O acidente causou a morte de dezoito romeiros.
Mas, como prevenir ou evitar essa sequência de acidentes se os rios são os caminhos naturais na Amazônia? Servida por escassos 16 mil quilômetros de rodovias pavimentadas (muitas delas intransitáveis na época das chuvas) e ínfimos 450 quilômetros de ferrovias, a região possui metade do total de 48 mil quilômetros de vias navegáveis do país.
Se o transporte fluvial é, dessa forma, quase o único meio de atender aos deslocamentos de carga e da população, a precariedade das embarcações e a falta de instalações portuárias compatíveis, a frota obsoleta, a superlotação constante de carga e de passageiros e uma fiscalização despreparada e omissa fornecem os ingredientes das tragédias, que todos os anos ocorrem nos rios Amazonas, Madeira, Solimoes e afluentes menores.
Desde meados do século passado, quando o empresário Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, criou uma companhia de navegação no Amazonas, a iniciativa privada e mesmo os governos se desinteressaram de investir na formação de linhas regulares, fazendo proliferar um tipo de transporte que opera em bases semelhantes aos dos perueiros clandestinos nas grandes cidades.
A situação se agravou a partir dos anos 1970 e 1980, quando o garimpo, a rodovia Transamazônica (hoje engolida pela selva) e projetos como o Jari, que representavam a “integração” e o “Brasil grande” dos governos militares, trouxeram para a Amazônia uma leva de migrantes maranhenses, piauienses e cearenses, atraídos pela possibilidade de empregos. A população do estado do Amapá, por exemplo, cresceu 357% em 30 anos em função desses projetos e de outros, como a exploração de manganês na Serra do Navio.
Foi precisamente na rota pelo rio Amazonas, entre Macapá, capital do Amapá, e o enclave de 36 mil quilômetros quadrados do Projeto Jari, às 8 horas da noite de uma segunda-feira, 6 de janeiro de 1981, que o barco Novo Amapá naufragou com mais de 600 pessoas a bordo, quando sua capacidade não ultrapassava 150 passageiros.
Como se tratava de modestos trabalhadores braçais e não da elite endinheirada, como aquela que em 31 de dezembro de 1988 submergiu, em pleno réveillon na baía de Guanabara, junto com o Bateau Mouche, o episódio não chegou a causar comoção nacional, nem serviu de alerta para evitar tragédias futuras. Foram resgatados pouco mais de 300 corpos e outros 70 foram dados como desaparecidos, tornando impossível precisar o número total de vítimas fatais.

Reportagens sobre o naufrágio no rio Xingu:

(Leia Mais Em Cidade)

Anúncios

Piratas saqueiam R$ 100 milhões por ano na Amazônia

ÁREAS DE RISCO – Porto ilegal usado para travessia da fronteira Brasil-Bolívia, entre Guajará-mirim e Guayarámerín. Barco navegando no Rio Purus, em Boca do Acre (AM) — Fotos: Karla Mendes
Reportagem: Karla Mendes

A era dos piratas não acabou. Ela apenas mudou de rota: da costa brasileira foi para os rios da Amazônia. Em vez de olho tapado e espadas, capuz, metralhadoras e fuzis AR 15. Para comunicação, sistema de rádio VHF. A nova “caça ao tesouro” agora é por combustível, que representa 70% do prejuízo de R$100 milhões por ano para as empresas que fazem transporte de carga pelos rios da floresta amazônica.
Também chamados de “ratos d’água”, os piratas atuam sempre em grupos. Eles ficam de tocaia e, usando rádios, articulam o ataque. O alvo predileto são embarcações que transportam combustível e eletrônicos da Zona Franca de Manaus.
Com barcos pequenos e rápidos, os piratas cercam as embarcações, amarram uma corda e sobem na balsa, encapuzados, com luvas pretas e armas pesadas, fazendo arruaça. A tripulação é presa na cabine e os piratas tomam o comando. Eles levam a carga roubada para um barco maior, ancorado próximo às balsas. Em quase todas as ocorrências há também roubo de combustível dos tanques das embarcações. Muitas vezes, os piratas levam ainda todos os pertences da tripulação. (Leia Mais Em Cidade)

Amapá tem recorde de queimadas, mas governo Waldez diz que Inpe confunde zinco com fogo

 Fumaça das queimadas encobre o Arquipélago do Bailique no Amapá. A rodovia BR 156 no Amapá sob fumaça de queimadas. Fumaça poluiu o meio ambiente no Amapá (Fotos: Rubens Gomes/GTA/OELA - Hervé Théry/USP - Diogo Barbosa)

DEVASTAÇÃO AMBIENTAL – Fumaça das queimadas encobre o Arquipélago do Bailique. A rodovia BR 156 no Amapá sob fumaça de queimadas. Fumaça poluiu o meio ambiente no Amapá (Fotos: Rubens Gomes/GTA/OELA – Hervé Théry/USP – Diogo Barbosa)
Reportagem: Fábio Pontes

Dos estados que compõem a Amazônia Legal, o Amapá é considerado o que mais conserva suas florestas pois registra as menores taxas de desmatamento. Mas nos últimos três anos o uso do fogo nas áreas agrícolas tem provocado números recordes de queimadas descontroladas no período da estação seca, que vai de julho a dezembro. [Foi isso que aconteceu ano passado em vários regiões do Estado, mas, somente agora todo o drama vivido pelas populações afetadas tornou-se público. O governo estadual ainda tentou amenizar, lançando mão da velha estratégia de embaralhar as informações para confundir o leitor. Contudo, outra vez fracassou.]
[Acompanhe agora essas histórias.] De 1º. a janeiro a 21 de dezembro o número de focos foi 2.654 contra 2.653 do ano passado, o maior desde que o Programa Queimadas Monitoramento por Satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entrou em atividade, em 1998.
Mas se compararmos os dados de 1º. a 21 de dezembro deste ano com o mesmo período de 2015, temos um recorde de 491 focos de queimadas contra 269, um aumento de 82,6%. Dezembro é o mês em que geralmente há a redução dos focos de queimadas nesta parte da Amazônia Oriental.
Já no mês de novembro foram detectados 1.161 focos contra 1.300 do ano passado. Os municípios mais atingidos pela fumaça foram Macapá, Mazagão e Oiapoque. Confira os dados aqui.
O coordenador do Programa Queimadas Monitoramento por Satélites do Inpe, Alberto Setzer, disse que o aumento das queimadas no Amapá é decorrência de ações indevidas. “É uma situação que acontece em quase todas as regiões do país neste período. É o uso de fogo que vai contra toda a legislação federal, estadual e municipal. As pessoas fazem isso impunemente”, disse o pesquisador.
O gráfico do monitoramento do Inpe consultado pela reportagem indica que nos anos anteriores os focos de queimadas foram menores no Amapá: 975, em 2013, e 1.490, em 2014.
Segundo Setzer, é possível que as condições ambientais no Amapá melhorem a partir de janeiro, com a redução dos focos de queimadas. Mas ele alerta que, em 2017, tudo pode se repetir.
Já o secretário de Meio Ambiente do Amapá, Marcelo Creão, contestou os dados sobre queimadas do Inpe em entrevista à reportagem.
O secretário do Meio Ambiente do Amapá disse que há “falha” ao se registrar vários pontos de queimadas, quando se trata de apenas um. “Os focos de calor no Amapá sobem muito por conta da Reserva Biológica do Lago Piratuba. Todo ano essa unidade possui um regime de queimadas descontrolada e acaba aparecendo diversos focos de calor, quando, na verdade, é só um dentro da área. Isso faz com que se aumentem os focos no estado”, diz Creão.
O coordenador do monitoramento de queimadas do Inpe, Alberto Setzer, rebateu o secretário Marcelo Creão. Ele negou a informação de que telhas de zinco em elevadas temperaturas possam ser captadas como focos de calor.
O coordenador do Programa Queimadas Monitoramente por Satélites explicou que “a única detecção questionável que temos atualmente é de fontes de calor fixas como siderúrgicas e ocasionais como incêndios industriais ou residenciais, pois o sensor VIIRS do novo satélite NPP é mais sensível que os satélites anteriores. De qualquer forma, não é o que ocorre no Amapá.”
A Reserva Biológica do Lago Piratuba citada pelo secretário Marcelo Creão é administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), ligado ao Ministério do Meio Ambiente. A reserva está localizada no extremo leste do Amapá e tem uma área de 392,4 mil hectares predominantemente do bioma Amazônia. A unidade tem sido uma das mais impactadas pelo fogo nos últimos anos, isso mesmo com as dificuldades de acesso e isolamento.
No total, segundo o ICMBio, o estado do Amapá tem uma área protegida de 10,2 milhões de hectares distribuídas em 19 Unidades de Conservação e cinco Terras Indígenas homologadas, o que representa 72% do território sob proteção formal.
A última taxa de desmatamento no Amapá divulgada pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) do Inpe, para o período de 2014 a 2015, caiu 19%: de 31 quilômetros quadrados para 25 quilômetros quadrados.
(Leia Mais Em Ecologia)

Conflitos no campo deixam 59 mortos e violência é a maior em 13 anos

EXECUÇÃO - O trabalhador rural Valdiro foi assassinado a tiros e mutilado em 23 de janeiro de 2016 após participar de uma reunião com assentados de uma área em Rondônia
EXECUÇÃO – O trabalhador rural Valdiro foi assassinado a tiros e mutilado em 23 de janeiro de 2016 após participar de uma reunião com assentados de uma área em Rondônia

Em 2016, os conflitos agrários causaram a morte de 59 pessoas em todo o País, conforme dados preliminares divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), ligada à Igreja católica. O índice é o mais alto desde 2003, quando 71 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo. Em 2015, haviam sido 50 assassinatos, 14 a mais que no ano anterior. O número de 2016 está sujeito à revisão e o levantamento completo será divulgado em abril.
O Estado de Roraima ocupa o topo da lista dos mais violentos, vindo em seguida Maranhão e Pará. Entre os casos destacados pela CPT está o assassinato da militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Nilce de Souza Magalhães, em Porto Velho (RO), em janeiro de 2016. Ela desapareceu no dia 7, mas seu corpo foi achado em julho, amarrado a pedras, no fundo do lago da Hidrelétrica de Jirau.
Em abril, o líder rural Ivanildo Francisco da Silva, do PT, foi morto com um tiro na cabeça, à noite, no assentamento Padre João Maria, em Mogeiro (PB). A filha dele, de um ano de idade, foi poupada pelos criminosos e permaneceu ao lado do corpo até ser encontrada, na manhã seguinte.

DOCUMENTÁRIO – PARTE 1

DOCUMENTÁRIO – PARTE 2

Violência em manifestações é fato complexo, causa indignação e pede reflexão

Por: Marco Aurélio Nogueira

Há coisas que não casam com democracia e não podem ser toleradas, nem sequer de leve. Uma delas é a violência em protestos e manifestações.
As cenas dos confrontos entre manifestantes e policiais vêm provocando horror e preocupação.
Muitos têm reagido com indignação contra os excessos da repressão, empreendida por policiais armados, com viseiras, escudos, gás lacrimogênio, cassetetes e cães. Fizeram muito bem. O que se viu desonra a democracia e as lutas sociais. Os mais engajados responsabilizaram diretamente os governos (estadual e federal) pela truculência da PM em todo o Brasil.
É uma espécie de lei universal: as pessoas querem falar de seus problemas e protestar, e os governos não querem ouvi-las e nem querem que sejam ouvidas. Daí para o excesso, o arbítrio e a violência é um passo, que a cada dia parece ser dado com maior rapidez. Incomodado, o poder age e busca desqualificar os que o desafiam. Tanto faz se são de esquerda ou direita, progressistas ou conservadores. Os manifestantes sobem o tom, vocalizam demandas que quase nunca podem ser atendidas. Provocadores surgem de todos os cantos e de ambas as partes. Heróis e vítimas também.
Cenário perfeito para confrontos improdutivos e cenas de horror.

PROGRAMA DEDO DE PROSA

(Leia Mais Em Política)

Os pecados das hidrelétricas na Amazônia

ADVERTÊNCIA - É proibido aproximar-se a menos de 2,8 quilômetros da represa, limite imposto diante dos riscos
ADVERTÊNCIA – É proibido aproximar-se a menos de 2,8 quilômetros da represa, limite imposto diante dos riscos

“Antes eu pescava 200 quilos por semana, agora consigo 40 quando tenho sorte”, queixou-se Raimundo Neves culpando as duas centrais hidrelétricas construídas no rio Madeira, uma acima e outra abaixo de Jaci Paraná, o povoado onde vive, no Estado brasileiro de Roraima.
“A uma tonelada só chegam os que pescam ao pé da represa de Jirau”, acrescentou Neves. É que os peixes tentam subir o rio, mas são bloqueados pelo paredão da represa e se concentram ali “dando voltas”, à mercê de pescadores ilegais, explicou à IPS. Os barcos pesqueiros invadem a área proibida por razões de segurança, para evitar o controle.
É proibido aproximar-se a menos de 2,8 quilômetros da represa, limite imposto pela Marinha diante dos riscos de turbulências provocadas pela operação do vertedouro e das turbinas, explicou a concessionária da hidrelétrica de Jirau, a empresa Energia Sustentável do Brasil (ESBR).
A mudança de vida de pescadores como Neves ilustra o pecado original das hidrelétricas: mudar a natureza do rio, interrompendo seu fluxo para gerar energia. No caso de Jirau e Santo Antônio, a outra central, foi represado o rio Madeira, o afluente mais caudaloso do rio Amazonas, que recebe águas da pendente oriental da Cordilheira dos Antes e de grandes bacias da Bolívia e do Peru.
Essas usinas, perto de Porto Velho, capital de Rondônia, inauguraram uma nova geração de grandes hidrelétricas no Brasil, com novas tecnologias e uma legislação acumulada durante as últimas três décadas, destinada a reduzir danos ambientais e sociais e a compensar a população afetada.
Aproveitando o forte caudal – superior à pequena queda do rio, de aproximada 20 metros em cada caso – foram usadas pela primeira vez as horizontais turbinas bulbo em grande escala, 50 em cada uma, com capacidade total de 6.900 megawatts (MW). Dessa forma limitou-se a superfície conjunta das duas represas a 710 quilômetros quadrados, pouco mais do que a do rio nas cheias e uma das menores proporções de área inundada por energia gerada, segundo as concessionárias das centrais.
Mas isso não impediu as críticas por deslocamento forçado de comunidades ribeirinhas tradicionais, desmatamento e submersão de florestas, danos à reprodução dos peixes e caos social pela criminalidade, prostituição e falência de serviços públicos diante da chegada de milhares de pessoas atraídas pelos empregos nas obras. O Movimento de Afetados por Represas (MAB) e um crescente número de pesquisadores condenam os impactos que consideram subestimados nos dados das empresas que construíram e têm a concessão das hidrelétricas por 35 anos. (Leia Mais Em Ecologia)