OPINIÃO

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EDITORIAL II

Mais tempo com dificuldades

Depois de preocupantes idas e vindas provocadas por divergências entre as áreas: econômica e política, o governo federal conseguiu afastar o risco imediato de um apagão fiscal. Ainda assim, a revisão das metas para este ano e o próximo deixou evidente que, mantidas as previsões, o desequilíbrio nas contas públicas vai persistir por um período bem superior ao imaginado. Preocupa particularmente que a extensão dessa instabilidade além do tempo ocorra mesmo com o anunciado aumento de impostos e um pretendido corte de vantagens de servidores civis do Executivo, com potencial para agravar ainda mais as desigualdades salariais entre os poderes.
Pelas novas estimativas, a diferença entre receitas e despesas, surgida no governo anterior e aprofundada no atual, vai se estender até o segundo ano de gestão do próximo presidente da República. O que o governo fez agora não foi apenas elevar a meta de rombo nas contas, que já era elevada demais, para R$ 159 bilhões, em 2017 e 2018. O ano de 2020, aguardado como aquele em que o país sairia finalmente do vermelho, já não deve apresentar mais um superávit encarado como modesto, mas sugestivo do fim de um ciclo de contas no negativo, e sim déficit.
Uma crise fiscal de duração superior à estimada inicialmente reforça a necessidade de o país motivar seus políticos a definirem logo medidas de efeitos a mais longo prazo. Entre as providências emergenciais, inclui-se a reforma previdenciária — que segue sendo fundamental para o equilíbrio das contas públicas, embora as perspectivas de aprovação se mostrem cada vez mais remotas.
A questão é que, como demonstraram durante a revisão das metas fiscais e vêm reafirmando agora na discussão sobre a reforma política, os parlamentares passam a ideia de viver num mundo cada vez mais à parte. Enquanto a penúria do setor público se amplia de forma acelerada com a carência de receitas, políticos de diferentes partidos hesitam em cortar gastos e fecham os olhos à necessidade de correções imediatas em deformações do setor público.
O atual governo assumiu com o compromisso de colocar as finanças do setor público em ordem, mas segue distante de ver essa intenção transformada em realidade até o final do próximo ano. A responsabilidade ficará com seu sucessor, que precisará de um plano consistente e de apoio político para implantar reformas estruturais inadiáveis.

PERISCÓPIO 

VAIADOS
Ainda repercute em Macapá os vídeos sobre a manifestação de desagrado recentemente realizada na área de embarque do Aeroporto Internacional de Brasília (o JK) contra os deputados federais Roberto Góes (PDT), Vinicius Gurgel (PR), Marcos Reategui (PSC) e Cabuçu (PMDB), e contra o secretário de Estado da Saúde, Gastão Calandrini. As imagens mostram populares vaiando os parlamentares amapaenses e o auxiliar de Waldez Góes. O único a esboçar alguma reação foi Gurgel que, entre risadas contrafeitas, bateu palmas e ensaiou uma dança muito esquisita. Os demais, mantiveram-se sentados e constrangidos.

INVESTIGADA
Suspeita da prática dos crimes de lesão corporal e ameaça contra Noel dos Santos Almeida, a deputada federal Jozi Araújo, do PODE-AP, já começou a ser investigada pelo Supremo Tribunal Federal. Segundo especialistas, no caso de comprovação dos ilícitos, a parlamentar poderá perder o mandato. Conforme a acusação, sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, Almeida emprestou a Jozi R$ 35 mil durante a campanha eleitoral de 2014. Três cheques foram entregues a ele em garantia. Em março do ano seguinte, ao tentar descontá-los, os cheques estavam sem fundos. Ele diz ter cobrado a deputada, sem êxito, em pelo menos duas ocasiões. Em uma delas, afirma Almeida em depoimento, além de ser torturado a mando da deputada, ainda ouviu a seguinte frase: “Seus dias estão contados”.

RECEITUÁRIOS DA PMM
Ainda hoje, muitos se perguntam que fim levou os 50 mil blocos de receituários, com cem folhas cada, produzidos entre 2015 e 2016 em atendimento a encomenda da Secretaria Municipal de Saúde de Macapá. Pedido dessa monta assombrou pela quantidade de receituários: cinco milhões. Quase 11 receituários para cada um dos mais de 465 mil habitantes de Macapá, segundo o IBGE. O impresso custou uma fábula aos combalidos cofres municipais e até agora ninguém sabe o destino dele.

LEITOS DO CABUÇU
Muita gente querendo saber onde estão os quase 500 leitos hospitalares anunciados pelo deputado federal Cabuçu, durante propaganda eleitoral veiculada recentemente nas emissoras de TV de Macapá. O peemedebista ocupou o horário nobre para fazer proselitismo político, tentando manobrar a opinião pública para garantir a si, e ao seu grupo político, a simpatia da população divulgando ação parlamentar de caráter duvidoso. Faltou ao deputado nomear direitinho o destino dos já “afamados” leitos hospitalares.

APAE NO BINGO
O AMAPÁ CAP, que propagandeia aos quatro cantos do Estado que parte da fortuna arrecadada com a venda semanal das cartelas de bingo é repassada para a APAE-Macapá, não consegue explicar porque a escola da instituição, que atende centenas de crianças e adolescentes especiais, fechou as portas por falta de dinheiro. Aliás, nem o AMAPÁ CAP, tampouco a direção da APAE, conseguem esclarecer as dúvidas sobre o uso do logo da APAE nas cartelas comercializadas sobre as calçadas públicas da capital com o satírico slogan: “fazendo famílias felizes”. Sem dúvida, um acinte sem tamanho. Uma maldade descomunal contra quem depende da caridade alheia para sobreviver dignamente.

FUSÃO PSB E DEM
Com a possibilidade cada vez mais iminente de aprovação da Reforma Política no Congresso Nacional, restringindo as possibilidades de coligações, os partidos já começam a se articular no sentido de agregar legendas. Uma das negociações mais avançadas envolve lideranças de DEM e PSB. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e a deputada federal Tereza Cristina (PSB-MS) reuniram-se com o ministro de Minas e Energia, Fernando Bezerra Coelho Filho (PSB-PE), para formatar as bases do acordo. A estratégia é criar uma super-legenda abrindo, assim, uma janela partidária para que os parlamentares possam deixar as legendas originais sem risco de problemas com a Justiça Eleitoral.

ARTIGO I

Lamparina de popa

emanoelreis

Emanoel Reis – Jornalista

O lamentável assassinato do publicitário Andrey Smith, 28 anos, ocorrido em frente à Escola Estadual Modelo Guanabara, Macapá, exemplifica a falência da segurança e do sistema de saúde pública no Estado do Amapá, agravada pela ineficiência do governo Waldez Góes em promover as mudanças indispensáveis ao bem-estar da população. Um assaltante executou Andrey a facadas, ao lado da Catedral de São José, no fim da última missa dominical. Morreu diante de dezenas de pessoas assombradas e assustadas, cujas orações a Deus, feitas minutos antes, durante a bênção final, só  pediam paz e prosperidade para o sofrido povo amapaense.
Uma dessas testemunhas, Rafaela Call, faz um relato dramático do latrocínio (roubo seguido de morte). Ela disse que, após descer as escadarias do templo católico, ouviu rumores e viu pessoas seguindo apressadas em direção à Escola Guanabara. Naquele instante, também acompanhou a multidão até onde Andrey encontrava-se, caído e ensanguentado, mas, ainda vivo. Segundo afirma, apesar das várias ligações telefônicas em quase 30 minutos de espera, nenhuma ambulância apareceu para socorrer o rapaz, que morreu, acredita ela, por falta de atendimento médico imediato.
Recentemente, o Hospital Geral do Amapá ficou três dias sem realizar um único procedimento cirúrgico porque faltaram material e remédio para atendimento dos pacientes. Os problemas se avolumam desde a portaria, com funcionários mau remunerados e mal-humorados ignorando os mais elementares preceitos de civilidade, agravando, ainda mais, o drama dos pobres amapaenses. Centenas de pessoas, a maior parte delas de baixa renda, sofrem nas enfermarias sem saber quando serão operadas.
Enquanto isso, o ensandecido governador pedetista afronta o povo veiculando nas emissoras de televisão do Estado peças de propaganda enaltecendo benfeitorias que somente ele e seus apaniguados conseguem exergar. Para essa gente, o Amapá está às mil maravilhas. Saúde pública funciona. Segurança com viaturas novas e helicóptero. Rodovias e estradas vicinais pavimentadas. Economia aquecida. O desemprego em queda livre. Este é o Amapá de faz-de-conta construído pela propaganda milionária do governo Waldez Góes para ludibriar os incautos e subverter a verdade.
Triste o povo refém de um governo anacrônico, perdulário e ineficiente. Infelizmente, em termos de segurança e saúde pública, o governo Waldez Góes, em sua terceira e desastrada versão, só conseguiu ser muito pior do que seus funestos precedentes. Inclusive, pior do que seus governos anteriores (2003-2006/2007-2010). Diante desse cenário de débâcle, Waldez tende a encerrar sua existência política como uma quase apagada, tediosa e inútil lamparina de popa.

O mesmo jogo de interesses

Desde sua posse, em janeiro de 2015, o governador Waldez Góes (PDT) melhorou a segurança, aqueceu a economia, fez o dinheiro circular, botou nos eixos a saúde pública, implementou a educação, gerou emprego e renda, impulsionou o empreendedorismo em todos os setores do Estado. Estão de queixo caído, não é mesmo?! Seria muito bom se isso fosse verdade. Infelizmente, é tudo caô. Contudo, para boa parte dos jornalistas e radialistas que pontificam nos veículos de Comunicação do Amapá, Waldez Góes está operando milagres assombrosos ao “transformar o Amapá em um Estado próspero e com a melhor qualidade de vida do Brasil”.
Quem ouve alguns programas matinais nas emissoras de rádio, ou se (pré-) dispõe a ler os jornais diários circulantes em Macapá, tem a impressão de estar ouvindo ou lendo um conto de Hans Christian Andersen (1805-1875) às avessas. Porque ou ficará bastante irritado, em especial aqueles dotados de algum bom-senso, ou simplesmente dará boas gargalhadas da empáfia exibida pelos sabujos que proliferam aos borbotões, lépidos e fagueiros. Nos últimos anos, o puxa-saquismo no Amapá tem alcançado níveis tão deploráveis que mesmo François La Rochefoucauld, cuja sentença “a bajulação é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana”, precisaria rever seus conceitos sobre este terrível mal.
Na verdade, no exercício de seu terceiro mandato como governador do Amapá, Waldez Góes ainda não realizou nenhuma grande obra individual que marcasse, em definitivo, sua trajetória no comando do Estado. Com certeza, seus fiéis escudeiros haverão de apontar esta ou aquela ponte, nominar algumas escolas, apontar investimentos na agricultura familiar. Apenas retórica. Lamentavelmente, pouquíssimas ações foram realmente iniciadas e concluídas pelo pedetista. Nenhuma de grande relevância para a promoção do bem-estar da população amapaense.
Impressionante é que o tempo passa, o tempo voa, e essas pessoas continuam cultuando o caradurismo como princípio elementar de sobrevivência. Nas circunstâncias descritas, pode-se afirmar sem medo de cometer equívocos, que a assertiva de Salomão, suposto autor do Eclesiastes, está corretíssima: “(…) vaidade das vaidades, nada é novo debaixo do sol”. A mais cristalina verdade. O que vem acontecendo hoje no Amapá é um repeteco, bastante mal-ajambrado, do ocorrido nos dois mandatos anteriores de Waldez Góes (2003-2006/2007-2010), quando, supostamente “menos experiente”, o pedetista governou em meio à escândalos político-financeiros e sequentes operações da Polícia Federal.
Com Waldez Góes ocupando o principal gabinete do Palácio do Setentrião, fica evidenciado o exacerbamento da subserviência para obtenção ou manutenção de pequenas ou grandes vantagens pecuniárias. É a cara dos governos dele. E é óbvio que Waldez joga o jogo conforme os interesses pleiteados. A ele é mais vantajoso manter este status quo vislumbrando 2018 para, com apoio dos favorecidos de hoje, apostar numa hipotética reeleição e, assim, garantir longevidade no poder. E sem parte da Imprensa submissa, este projeto de poder está seriamente comprometido.

O desabafo do ministro

Nessas efervescentes semanas, no auge da crise política e econômica em andamento no País, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mendes de Farias Mello, fez um desabafo contundente em entrevista à Imprensa. Segundo o ministro, os últimos e graves acontecimentos comprovam uma verdade inquestionável: “Estamos vivendo tempos estranhos”. A frase reveladora, e a expressão de desânimo do ministro, deixaram entrever futuro nada animador para o Brasil, especialmente no aspecto político.
Isso, mesmo. Na noite de sábado, 20 de maio, os dois maiores corruptos da política nacional, Michel Temer e Luís Inácio Lula da Silva, ocuparam generosos espaços na televisão aberta para, cada um a seu modo, arengar sobre suas respectivas “inocências” e enaltecer suas supostas “honestidades”. Os eleitores brasileiros sensatos sabem, muito bem, que Temer e Lula jamais podem ser considerados “inocentes” ou “honestos” diante da montanha de provas coletadas nas diversas fases da Operação Lava Jato.
Suas Excrecências (Ops! Excelências) não podem, nem devem, mais exercer um cargo tão importante quanto o de Presidente da República do Brasil. Temer deve ser afastado. E Lula jamais pode ocupar novamente o cargo que, durante anos, ele maculou com sua conduta altamente criminosa.
No caso de Michel Temer, os acontecimentos passados e presentes apontam para dois desfechos: impeachment ou renúncia. Já Lula, numa demonstração de extremado caradurismo, aparaceu na TV com pinta de pré-candidato. Embora existam contra ele provas concretas (ainda não reveladas pelo STF) do cometimento de graves delitos — durante e após o exercício do sagrado cargo de Presidente da República —, é bem capaz que logre êxito nesse empreitada altamente perigosa para o País.
Acontece que o povo sofre de três doenças crônicas. As três grandes síndromes que há décadas converte o brasileiro em um “(…) ser excessivamente bonzinho”. São elas: a síndrome de Gérson (querer levar vantagem em tudo); a síndrome de Macunaíma (o brasileiro adora um herói sem caráter); e a síndrome de Zé Carioca (a malandragem do jeitinho).
Realmente, estamos vivendo “tempos muito estranhos”. Em 2015, eu gravei um vídeo com mensagem de fim de ano alertando os amigos sobre esses “tempos estranhos”. Por isso, o desabafo do ministro não surpreendeu-me. Deve ter assombrado os incautos e os néscios. Infelizmente, estes são maioria e podem reconduzir o chefe petista ao supremo comando da Nação. Vigiai e orai, amigos.

Os inusitados da vida

“Há dias que eu não sei o que me passa/Eu abro o meu Neruda e apago o sol” porque alguns fatos, aparentemente triviais, acabam mexendo com o inconsciente muito mais do que outros, de aparente relevância. Somente numa manhã, registrei algumas sensações e acontecimentos singulares. Primeiro, foi o americano movendo o braço com a força do pensamento. Mas, isso não chamou a minha atenção. O que me fez pensar foi a história do acidente que o deixou tetraplégico: o cara pedalava uma bicicleta e colidiu na traseira de um caminhão dos Correios. Lembrei de um amigo, no bairro da Marambaia (Belém/PA), que ficou tetraplégico ao cair de costas sobre uma pedra após ser atingido por um potente soco durante uma briga na frente da discoteca “Shock Disco Club” (acho que essa é a grafia correta). A “Shock” ficava em frente ao Clube dos 2 mil (atual Shppping Castanheira), ali, no começo da BR-316 (aceito correções). Minutos atrás, no cruzamento da avenida Raimundo Álvares da Costa com a rua General Rondon, uma ciclista, pedalando sentido avenida FAB, quase vai para a Terra dos Pés Juntos ao colidir com um automóvel. Advertida pelo motorista sobre o erro cometido, fechou a cara e esbravejou: “Não tem contramão pra bicicleta, não. Entendeu?!” Quanta ignorância!! Mas, ignorância mesmo foi cometida contra mim por um recepcionista do Super Fácil, um gordo suarento, cabelos curtos, vestindo uma camisa verde-abacate. Arrancava pedaços de unhas a dentadas. “Qual é o assunto?”, perguntou, sem interromper o indigesto antepasto. “Renovação de CNH”, respondi. E com uma voz que mais parecia o grunhido de um barrão, retrucou: “Toma. Providencia esses documentos” E atirou sobre o balcão um pedaço de papel ensebado. Olhei para o volumoso servidor e pensei: “Por isso que é gordo” No retorno, já no cruzamento da avenida Ernestino Borges com a rua Leopoldo Machado, a motorista de um automóvel, uma loura “chanel”, de boca grande, cruzou o perigoso trecho falando ao celular como se estivesse no salão, conversando abobrinhas com a amiguinha. Quase atropela uma estudante do Pró Concurso Podium. Depois de freada brusca, fez cara de quem transou e não gozou.

O controvertido

O redator do texto reproduzido por Waldez Góes nas peças veiculadas na noite de sexta-feira, 24 de março, pela “TV oficial do governo estadual”, cometeu vários equívocos graves. Primeiro, quando Waldez afirma que Brasília está mandando menos dinheiro para o Amapá ele coloca em xeque todo o trabalho da bancada federal do Estado (senadores, deputados e deputadas federais) e, entrelinhas, induz o telespectador a pensar em inoperância, inutilidade e inapetência sobre a atuação de nossos parlamentares. Segundo, Waldez é contraditório (o que não é nenhuma novidade) ao afirmar que “apesar da incapacidade” da bancada federal na obtenção de recursos, “o Amapá está crescendo” (carambolas, só se for igual rabo de cavalo). Mas, para coroar a enfiada de absurdos, Waldez encerra o arrazoado com uma frase, no mínimo, controversa: “um futuro melhor continua sendo o sonho de todos nós”. Ora, minhas bolas, se Brasília está mandando menos dinheiro para o Amapá porque – segundo o próprio Waldez – a bancada federal é inoperante, então como sonhar com um futuro melhor diante desse cenário de tantas incertezas? Ora, dá um tempo Waldez!!!

A revolução reversa

Uma das chamadas de capa do Correio Braziliense, edição de domingo, 05 de fevereiro, motivou a manifestação deste livre pensar. Eis a dita cuja: – Lula: ‘Que facínoras tenham a humildade de pedir desculpas’. Em seu discurso, ao lado do caixão da esposa, Lula responsabilizou a Operação Lava Jato pela morte dela. Tão rápido, assim? Nem esperou carpir a defunta e já lançou a estratégia ainda no velório de dona Marisa Letícia (quanta obviedade). O que pretende Lula, afinal? Comover o povo, passando-se por vítima de uma trama, transformando Marisa em mártir de uma “revolução reversa”?
Tenho acompanhado aqui, sem me opor, as manifestações enfurecidas de militantes e simpatizantes do lulo-petismo. Algumas, de tão raivosas e ensandecidas, deveriam ser deletadas de imediato. Mas, como não sou censor de ninguém, defendo o seguinte princípio: que cada cachorro passe a língua em sua própria caceta.
Concordei quando criticaram, com exacerbada ferocidade, as postagens que maculavam a imagem da ex-primeira-dama, atribuindo a ela papel preponderante nos crimes cometidos por proeminentes do Partido dos Trabalhadores, desde o Mensalão ao Petrolão. Essa possibilidade é extremamente remota. Contudo, venhamos e convenhamos, de boba dona Marisa não tinha nada. Era uma mulher muito inteligente, acompanhou o marido em momentos decisivos e conhecia com profundidade cada membro do staff lulista.
Por isso, repito aqui o que disse antes: o único inocente de toda essa história sórdida é o povo brasileiro. Não acredito na inocência de Lula, nem na inocência de Dilma, tampouco na inocência dos poderosos políticos petistas que comandaram os destinos desta pobre pátria mão tão distraída a partir de 2003.
No meu entendimento, todos, inclusive Lula e Dilma, são culpados pelos graves crimes (malversação, prevaricação, peculato, concussão, formação de quadrilha, etc…) que cometeram ou permitiram que outros cometessem em seus governos. Infelizmente, quase todos os políticos, de quase todos os partidos, participaram ou participam da roubalheira endêmica que transformou o Brasil no paraíso mundial dos corruptos.
Lula tem todo o direito de fazer o que quiser com a memória de sua esposa. Menos usá-la para embasar sofismos políticos mal-ajambrados com o propósito de macular honras e minar a credibilidade de uma operação policial que tem descortinado para um boquiaberto povo brasileiro o que os bandidos políticos (de qualquer partido) fazem às escondidas, nos subterrâneos do poder, com o meu, o seu, o nosso dinheiro público: viram reles ladrões.

Pede pra sair, Kaká Barbosa

Realmente, estamos vivendo dias estranhos, tempos de prevalência da razão cínica. Esta conclusão desanimadora foi extraída de uma entrevista concedida pelo deputado estadual Kaká Barbosa (PT do B), logo após a posse dele na presidência da Assembleia Legislativa do Estado do Amapá. Barbosa é investigado pelo Ministério Público Estadual por suposto envolvimento em esquemas de fraudes e desvio de dinheiro público surrupiado dos combalidos cofres do empobrecido Amapá.
Mesmo assim, por força de liminar, Kaká Barbosa assumiu o comando do legislativo estadual e, em entrevista, anunciou enfaticamente que um de seus projetos é “resgatar a imagem da Assembleia Legislativa do Amapá”. A assertiva foi de assombrar. Como pode um deputado estadual, com o histórico e a trajetória de Kaká Barbosa, afirmar com tanta empáfia que pretende “resgatar a imagem” da Assembleia Legislativa se o próprio deputado está na mira do MP suspeito de malversação?
O comportamento controverso de Barbosa remeteu os bons observadores de plantão a uma famosa passagem bíblica em que Jesus repreende os hipócritas e recomenda a eles para que primeiro tirem o cisco dos próprios olhos para que, somente após essa salutar e providencial medida, pudessem retirar o cisco dos olhos das outras pessoas. Ou seja, se verdadeiramente Kaká Barbosa quer recuperar a boa imagem da Assembleia Legislativa do Amapá, tantas vezes maculada por maus deputados e deputadas, que siga o conselho de Cristo. Comece tirando o cisco do próprio olho. Isso mesmo: que reconheça-se indigno da função pública e desista do mandato.
Será que Kaká Barbosa seria capaz de se dar em holocausto por essa boa causa?

“Normalidade” milionária

Recentemente, o secretário de Planejamento da Assembleia Legislativa do Amapá, Keka Cantuária, disse, em entrevista a uma emissora de TV, que considerava “normal” o governo dispôr de R$ 12 milhões para a Secretaria de Estado da Comunicação (Secom) já que a própria AL, que tem “rádio, TV e portais” reserva R$ 7 milhões de seu orçamento (este ano estimado em quase R$ 162 milhões) para manutenção de seu sistema de comunicação.
Alguns certamente dirão que para a ALAP investir R$ 7 milhões em Comunicação ainda é “muito pouco” se comparado com outras Assembleias Legislativas, a exemplo da cearense, que aprovou, no dia 21 de dezembro passado, recursos de R$ 58,7 milhões para o setor. Ou mesmo com a Assembleia Legislativa do vizinho Estado do Pará que dispôs R$ 65 milhões para divulgação do parlamento estadual.
Mas Ceará e Pará são Estados fornecedores de matéria-prima para a indústria mundial. O primeiro, está entre os maiores produtores de petróleo e gás; o segundo, entre os maiores produtores de minério do mundo. Não existem nem parâmetros para comparações entre os três Estados. Um deles está com Índice de Desenvolvimento Humano saindo do amarelo para entrar no vermelho. Logo, carente dos serviços mais elementares nas áreas da saúde, educação e segurança pública. Entre outras tantas.
Apesar das crônicas deficiências sociais e econômicas que afligem a população amapaense há pelo menos 15 anos, as três esferas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário) continuam priorizando a manutenção dos respectivos status quo. Ou seja, em nenhum momento foram corajosos (e humanos) para anunciar a redução das benesses funcionais ou provenientes de cargos comissionados e abrir mão de parte dos salários fabulosos para aumentar os investimentos em saúde, educação e segurança dos mais carentes.
Para o ex-deputado pedetista Keka Cantuária, linha de frente do grupo político de Waldez Góes, a Assembleia Legislativa de um Estado pobre, com produção mínima de matéria-prima e participação ínfima no PIB nacional, gastar R$ 12 milhões em Comunicação em nível estadual e R$ 7 milhões na Comunicação da ALAP é “normal”. Muito “normal”.

ARTIGO II

Corrupção: buraco sem limite?

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Lúcio Flávio Pinto – Jornalista

A revista Época considerou Aldemir Bendine o 32º brasileiro mais influente em 2009. Ele acabara de assumir a presidência do Banco do Brasil, onde trabalhava há 31 anos. O presidente Lula (no cargo havia seis anos) lhe deu a missão de recuperar a mais antiga instituição financeira do país. Na época, ainda o maior banco brasileiro (perdeu a posição a seguir para o Itaú).
Bendine se saiu tão bem que, quatro anos depois, o portal iG o elevou para a 11ª posição dentre os mais poderosos. Já a revista Istoé Dinheiro lhe deu o título de empreendedor do ano nas finanças nacionais. Dois anos depois, a presidente Dilma Rousseff o designou para a maior empresa do Brasil, a Petrobrás.
Na época, ele teria que fechar o balanço do segundo semestre de 2014, que a PriceWaterhouse se recusara a avalizar sem a inclusão do prejuízo de 6,2 bilhões de reais causado pela corrupção dentro da companhia, que resultara no início da Operação Lava-Jato, em março de 2014. Bendine fechou as contas, com o maior prejuízo da história, de R$ 21 bilhões.
Fez um emocionado e emocionante discurso saudando a nova fase, que voltava a dar dignidade à empresa e aos seus funcionários. A fase negra passara, assegurou ele, do alto dos seus 50 anos e 37 vida pública como técnico, formado em administração pela PUC do Rio.
Teria continuado à frente da Petrobrás se a presidente Dilma Rousseff não tivesse sido derrubada pelo processo de impeachment. Saiu da Petrobrás quando Michel Temer assumiu a presidência da república. Ainda assim, Bendine podia ter se aposentado com uma biografia brilhante e digna.
Ao invés disso, ontem ele foi preso pela Polícia Federal. Ficará em prisão temporário por cinco dias, por ordem do juiz Sérgio Moro, no 42º capítulo da Lava-Jato. Uma versão inteiramente oposta à da história oficial de Bendine circulava pela força-tarefa da LJ havia mais de dois anos.
A história se baseava nos depoimentos de Marcelo Odebrecht e de um importante executivo da sua empresa, Fernando Reis. Em delação premiada, eles admitiram que pagaram propina a Bendine, depois de tentarem resistir a investidas que ele vinha fazendo para receber dinheiro ilícito.
Primeiro, se oferecendo para facilitar o refinanciamento de dívida de subsidiária da empreiteira. Depois, no golpe mortal, ameaçando prejudicar a empresa junto à Petrobrás, com quem ela mantinha alguns dos seus maiores contratos.
Bendine começou a receber o pagamento parcelado (de 15 em 15 dias) dos três milhões que a Odebrecht finalmente aceitou lhe fazer um mês depois de assumir a presidência da estatal do petróleo e antes da cena armada para demarcar a volta da Petrobrás a um padrão de decência. Nessa época, o nome dele já estava na agenda das investigações. Era certo que a polícia chegaria a ele.
Chegou ontem pelo receio de que ele fugisse para o exterior, aproveitando-se da condição de filho de italianos (como outro integrante do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato). Bendine estava com passagem marcada para Portugal hoje.
Será que um cidadão com a trajetória do ex-presidente de duas instituições tão poderosas como a Petrobrás e o Banco do Brasil, que decide sobre centenas de milhões ou mesmo bilhões de reais, é capaz de se sujar por fração desse volume de dinheiro e pôr a perder o conceito (mesmo que falso, mas com aceitação pública) criado ao longo de quase quatro décadas de vida?
Impressionante e assustadora se tornou a corrupção no Brasil. Espantosa, se a versão que levou Bendine à cadeia for mesmo a verdadeira. Uma corrupção cujo fundo não tem dim. Quanto mais se cava, mais fundo surge. Nesse ritmo, até onde irá o Brasil para identificá-la e colocá-la sob um padrão de dignidade autêntico, não a simulação de Bendine & Cia?

ARTIGO III

Que falta que Betinho nos faz

leonardoboffLeonardo Boff – Teólogo e Escritor

No dia 9 de agosto ocorreram várias celebrações pelos 20 anos da morte do sociólogo e ativista social Herbert de Souza, vulgo, Betinho. Uma delas foi feita na UFRJ/Coppe na Ilha do Fundão conjuntamente com a Coep (Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida). Presente estava a companheira de vida, Maria Nakano, além de muitos professores e alunos. No Jardim da Cidadania foi decerrada uma placa de homenagem e se plantou um duplo pé de Manacá, árvore da preferência de Betinho. Houve várias falas. Uma coube a mim, resumida neste artigo.
Há mortos que recordamos com saudade mas há também mortos que celebramos com júbilo. Estes não estão ausentes, são apenas invisíveis. É o caso do Betinho. Em suas próprias palavras, sua vida foi uma sucessão infinita de sortes: hemofílico, sobreviveu à tuberculose e por fim se confrontou corajosamente com a Aids. Militou na esquerda católica contra a ditadura militar, viveu no exílio no Chile, no Canadá e no México. Regressou em 1997 recebido por uma multidão, reconhecido como o irmão do Henfil, genial cartunista. Almir Blanc e João Bosco imortalizaram o Betinho com a canção sempre cantada “Esperança Equilibrista” sobre “a volta do irmão do Henfil”.
Betinho foi um homem de grandes sonhos e de não menores realizações: a fundação da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, a Coep em colaboração com o engenheiro de Furnas André Spitz, com o Coppe e o Coep ajudou a formar o Comitê de Entidades Públicas no Combate à Fome, Comitês da Cidadania pelo Brasil afora, o Natal sem Fome e a ABIA para o estudo da Aids entre outras. Entre 1993-2005 a Ação da Cidadania distribuiu 30.351 toneladas de alimentos, beneficiando cerca de 3 milhões de famílias.
Sua prioridade absoluta, verdadeira obsessão humanitária, era o combate à fome. Costumava responder aos que o criticavam de certo assistencialismo que “a fome tem pressa”, não permite esperar a grande revolução. Com razão dizia Gandhi que a fome é “a forma de violência mais assassina que existe”. Isso Betinho queria evitar a todo custo. Dar de comer nunca pode ser um gesto apenas assistencialista, mas de um humanismo em grau zero. Juntos repetíamos com frequência: “o pão que tenho em minhas mãos é material; mas o pão que entrego ao faminto é espiritual, pois vai carregado de amor, de compaixão e de humanidade e salva a vida”.
Ao regressar ao país, optou pela sociedade civil e não pelos partidos e pela participação no Estado. Na sociedade civil via a presença de potencial de solidariedade e de criatividade que poderia ser mobilizado em favor das grandes causas nacionais: cobrar ética na política, reconstruir a democracia pela base, participativa e popular, a urgência da reforma agrária em terras do campo e da cidade, o combate à fome, o incentivo à educação na linha de Paulo Freire, a introdução, por primeiro, da internet no Brasil.
Betinho era um indignado contra a anti-realidade brasileira dos milhões de marginalizados, castigados com a fome e as doenças da fome. Mas não era um resignado. Logo lançava projetos para pô-los em prática, sempre com um sentido de trabalho coletivo e solidário.
Se vivesse hoje com a desordem social provocada pelo infame golpe parlamentar, jurídico e mediático, atrás do qual se escondem as classes oligárquicas, que Darcy Ribeiro considerava as mais insensíveis e reacionárias do mundo, o que vem sendo repetido por Jessé Souza, Betinho estaria seguramente na rua mobilizando o povo, os movimentos, os que ainda acreditam no Brasil, para defender a nossa frágil democracia e salvar os direitos sonegados aos trabalhadores e aos futuros aposentados, defender as terras indígenas e impedir a venda a estrangeiros de terras nacionais.
Os escândalos da corrupção milionária atingindo a maioria dos partidos e as grandes empresas o levaria seguramente a retomar com vigor o tema sobre o qual tanto se debatia: a ética na política e a transparência em todas as coisas. Que falta nos faz o Betinho, órfãos de lideranças confiáveis. O ódio que atravessa nosso tecido social seria incompreensível a ele que pregava o amor aos mais invisíveis aos quais entregou a pouca vida que tinha.
Se alguém quer saber o que é espírito, deve olhar para aquele corpo mirrado e alquebrado que, no entanto, irradiava vida, coragem, esperança e sentido de humanidade para com todos. Era espírito puro na sua expressão melhor de inteligência, criatividade, sonho, compaixão.
Deixou-nos o desafio de “recriar o Brasil e de refundar a nação” a partir do povo cuja solidariedade e alegria de viver admirava e se deixava tomar. Repetia: sem sonho e sem esperança não há vida nem futuro. Betinho é uma figura de que o Brasil e a humanidade podem se orgulhar. Ele era e é um Justo entre as nações, em especial, entre os pobres. Sua inspiração nos fará sair, enriquecidos da atual crise.

ARTIGO IV

Revoada na floresta tucana

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Gaudêncio Torquato – Jornalista e professor titular da USP

Os tucanos, apontados como os bichos que mais gostam de pousar em cima dos muros, vivem momentos críticos nesse ciclo de turbulências por que passa o país. O partido da social-democracia brasileira, o PSDB, está rachado. A fissura se acentuou por ocasião da votação na Câmara sobre a denúncia feita pelo Procurador Geral da República, encaminhada ao STF, envolvendo o presidente da República. A Câmara acabou rejeitando por 263 votos a autorização pedida pela alta Corte para investigar o presidente, com a bancada tucana dando 22 votos a favor de Temer contra 21.
Um spot publicitário, veiculado esta semana, avisa que o partido, no programa partidário a ser veiculado dia 17 próximo, vai “admitir erros” cometidos no passado. O racha se alarga, eis que parcela dos tucanos não admite a confissão pública que o presidente interino da sigla, senador Tasso Jereissati, endossa. O partido se aproxima da Torre de Babel e uma profusão de vozes e barulhos impacta a unidade partidária, ameaçando a necessária integração de forças, fator absolutamente indispensável para que o PSDB seja forte protagonista no pleito presidencial de 2018.
A crise vivida pelo partido não é coisa recente. Já faz um bom tempo que os tucanos enxergam sua identidade coberta de fumaça, após consideráveis perdas de massa doutrinária. Por ocasião de sua fundação, o PSDB apresentou ao país um denso documento, com a descrição da social-democracia que queria implantar. Ali estavam os fundamentos do Estado do Bem Estar Social (Welfare State), com pontuações agudas sobre o papel do Estado na economia, acumulação de capital e distribuição igualitária de ganhos para a sociedade, crescimento econômico, geração de empregos, ordem social, liberdades democráticas etc. Apontava sua distinção de partidos liberais, a partir da preocupação com o bem-estar coletivo, e a meta de combate à pobreza e à exclusão social.
Os fundadores do partido em 1988 (Mário Covas, Franco Montoro, Fernando Henrique, José Serra, entre muitos), inspiravam-se na modelagem de forte tradição democrata que se podia ver na Alemanha, Suécia, França, Inglaterra, Holanda e Espanha. Mais adiante, o país elegeu o sociólogo Fernando Henrique, o schollar do tucanato, elevado ao cargo em virtude do bem-sucedido Plano Real, peça fundamental na arquitetura socioeconômica que resgatou os deteriorados eixos de nossa economia. Mas a social- democracia acabou se transformando em gigantesca encruzilhada em que se encontraram grandes e médios partidos do país: PMDB, PFL/DEM, PT, depois PSB, PDT, PTB e os entes criados nos laboratórios da desideologização, esses que se aglomeram hoje no espaço que se designa de centrão.
O PT, principalmente, saiu da ponta esquerda do arco ideológico para se aproximar do centro, avizinhando-se do PSDB e do próprio PMDB. A descaracterização das siglas jogou-as todas no painel da pasteurização ideológica, sobrando a elas apenas refrãos e slogans, como aquele do PT criando o apartheid social (“Nós e Eles”). Ante a fragmentação doutrinário-ideológica, é possível compreender a crise que hoje afeta o PSDB. Indivíduos e alas a que pertencem tornaram-se mais importantes que a substância programática. Caciques deram e dão o tom dos cantos. Com o desaparecimento de tucanos de boa origem (Covas, Montoro, Teotônio Vilela, Beto Richa), sobrou Fernando Henrique como o ícone e maestro da orquestra. Hoje lhe faltam vontade e tempo para dedicação intensa ao partido.
No comando do tucanato, apareceram Tasso e Aécio, cada qual representando mais espaços geográficos (Sudeste, Nordeste) do que nichos ideológicos. O partido se esgarçou. Tornou-se um ente igual aos outros, cheio de grupos e posições. Esta é sua atual identidade. Há, por exemplo, uma parcela que defende a retirada dos tucanos do governo Temer e outra que defende sua permanência. Lembre-se que a parceria entre PMDB e PSDB, construída para dar salvaguarda ao governo Temer, foi construída sobre um conjunto de ações e reformas aprovadas por ambos. Ou seja, o atual governo realiza o programa definido por tucanos e peemedebistas. Não haveria razão, portanto, para o PSDB abandonar o navio no meio da travessia. Quem defende a saída o faz por interesses eleitoreiros. Receiam não ganhar votos no pleito de 2018 por conta da impopularidade do presidente.
Cabeças-pretas, jovens deputados, contra cabeças-brancas, parlamentares mais velhos: eis o que virou a social-democracia do tucanato. Ou, em outros termos, pecadores no confessionário contra outros que não admitem pecados. O chefão tucano, Jereissati, quer pedir perdão à sociedade por ter seu PSDB cometido erros, sob a crença de que o reconhecimento público de pecados acabará jorrando votos nas urnas tucanas. Mas há uma turma que não admite ter feito infração. O que a querela poderá causar? Formidável divisão, cujos efeitos recairão sobre o protagonismo partidário. E que tucano poderá ter as asas quebradas? Geraldo Alckmin. O governador de São Paulo praticou um erro crasso: combinar com o líder Ricardo Tripoli o voto contra Michel Temer na Câmara; e, segundo se viu, ainda sugeriu a saída dos tucanos do Ministério.
Quem ganha com essa balbúrdia? O prefeito de São Paulo, João Doria. É o único que simboliza avanços, modernidade, inovação. Trata-se de um perfil que possui condições para adentrar as portas da eleição presidencial de 2018 e ser bem-sucedido. Faz boa administração, é trabalhador, domina bem a expressão, tem imensa capacidade de deslocamento, articula-se bem e poderá ser tanto o candidato do PSDB quanto do PMDB. Ou de outro. As portas de muitos partidos se abrem para ele. João é leal a Alckmin. Claro, até onde a lealdade esbarrar no pragmatismo. Se as circunstâncias políticas e sociais lhe forem favoráveis, ele irá à luta, quer dizer, se o cavalo passar encilhado na frente, não pode deixar de montar. Cavalo encilhado não passa duas vezes no mesmo lugar.
Mais: João Doria lapida sua identidade anti-Lula. Uma alavanca poderosa. Mesmo que Luiz Inácio não seja candidato.

ARTIGO V

Mercado manda, governo obedece, eleitores choram

marcusiononiMarcus Ianoni – Cientista Político

Como nunca antes na história do regime democrático derivado da Constituição de 1988, o divórcio entre representantes e representados esteve na potência máxima observada na conjuntura atual. O presidente Temer, não eleito, investido no poder institucional por meio altamente duvidoso e coalizado a uma base governista de um Congresso Nacional (Câmara dos Deputados à frente) altamente rejeitado pela opinião pública, aprova medidas ilegítimas e imorais, a mais recente tendo sido a recusa em autorizar o processo do chefe do Executivo Federal pelo STF, por crime de corrupção passiva, conforme denúncia da PGR.
Mas isso é apenas uma parte aparente da questão de fundo: o divórcio, na verdade, é abençoado não pelo papa ou pela CNBB, que têm tido posições progressistas sobre a política brasileira, e sim pelo grande capital, eufemisticamente chamado de mercado, para ocultar as diferenças de poder econômico entre os seus agentes e o mecanismo de acumulação que motiva sua existência. E não se trata meramente do grande capital nacional, mas, principalmente, do globalizado, o internacional. O mercado tão glorificado pela coalizão governista comporta-se como um verdadeiro dragão da maldade, não se importando nem com a corrupção e nem com a impopularidade e ilegitimidade de Temer. Na verdade, os grandes investidores usam e abusam do divórcio entre o governo e a nação, promovem-no, alimentam-no, para nutrirem-se das contrarreformas, como que cobrando, em troca da vista grossa em relação à corrupção, que as políticas de austeridade e desregulamentação nas áreas fiscal, econômica (desnacionalização produtiva, liberação da venda de terras para estrangeiros etc), trabalhista e previdenciária sejam consolidadas o quanto antes.
Em setembro de 2016, em reunião com investidores em Nova York, Temer afirmou que Dilma, na verdade, caiu por ter se recusado a apoiar as propostas ultraliberais formuladas no programa do PMDB denominado Uma Ponte para o Futuro, tornado público pela Fundação Ulysses Guimarães em outubro de 2015. Desde o golpe parlamentar contra Dilma Roussef, toda a preocupação do governo Temer e de seus apoiadores no Congresso Nacional tem sido sinalizar para os agentes do grande capital que as reformas por eles demandadas estão sendo implementadas pela coalizão governista e que isso resultará tanto na estabilidade política como no retorno dos investimentos necessários à recuperação da atividade econômica, encalhada em uma recessão já trienal, com 14 milhões de desempregados. Em maio último, Rodrigo Maia afirmou, diante de empresários internacionais reunidos no Fórum de Investimentos Brasil 2017, que a agenda da Câmara dos Deputados é a do mercado financeiro.
Esse discurso foi sendo ameaçado com a crise aberta pela revelação do conteúdo das gravações envolvendo o empresário Joesley Batista e o presidente Temer. Agora, com a vitória do governo na Câmara dos Deputados, à custa de muita compra de votos e da deterioração ainda maior da imagem pública do sistema político como um todo e das forças partidárias que sustentam o chefe do Executivo Federal, Henrique Meirelles, o ministro pró-mercado financeiro, volta a falar em estabilidade política e econômica. No entanto, apesar da queda da taxa Selic, os juros reais continuam altíssimos, inibindo os investimentos; a inflação caiu devido à recessão, mas a taxa de investimento (público e privado) foi para o abismo, de modo que não há o que comemorar. Por outro lado, o fracasso da política fiscal obriga a equipe econômica a rever as metas nessa área, inclusive devido aos gastos utilizados para lograr a vitória de Pirro na Câmara, embora o principal problema seja a baixa arrecadação, devido ao colapso do produto e da renda nacional.
Enquanto os representantes governistas (embora Temer não se inclua exatamente nessa categoria) curvam-se perante o grande capital que financia suas campanhas ou ao qual eles próprios pertencem, seja ideologicamente ou por serem também empresários e membros das oligarquias em seus estados, os eleitores, sobretudo a imensa maioria de pobres, assalariados e excluídos são lançados à selvageria feroz do mercado e da ausência de uma esfera pública defensora da cidadania, uma vez que o reino do Estado mínimo alça-se, como nunca, ao poder político, para livrar-se, nesse momento de crise internacional e nacional, das conquistas sociais que os governos petistas vinham implementando, mesmo que com limitações e insuficiências. Essas conquistam tinham custos fiscais e salariais. O mercado apoiou a deposição de Dilma para se livrar desses custos e instituir o Estado mínimo neoliberal. Apesar de tudo, de 2003 a 2014, a trajetória do Brasil era progressista. Já a lamentável opção pela deposição presidencial e pelas políticas ultraliberais enfiaram o país nas trevas da desesperança e do salve-se quem puder. E o pior é que a alternativa de rir para não chorar está totalmente descartada. De um lado, estão a democracia, o eleitorado, a moralidade, a justiça social, a nação, o desenvolvimento; de outro, o mercado, Temer e sua coalizão de pseudo-representantes do povo. A pátria do capital requer que o presidencialismo de coalizão seja um presidencialismo de colisão com o bem-estar dos cidadãos. Esse divórcio é estruturalmente instável.

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