OPINIÃO

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EDITORIAL II

Custo da política

O setor público brasileiro enfrenta dificuldades para cumprir a meta fiscal deste ano, com previsão de um megadeficit de R$ 159 bilhões, mas na política os gastos continuam correndo soltos. O Congresso acaba de concluir a aprovação de projeto instituindo um fundo eleitoral de no mínimo R$ 1,7 bilhão bancado com dinheiro público, incluindo recursos das chamadas emendas de bancada, que agora só depende da sanção do presidente Michel Temer. O próprio presidente, preocupado em se livrar no Legislativo da segunda denúncia da qual é alvo por parte da Procuradoria-Geral da República, recebeu dezenas de parlamentares num único dia para negociar apoio — também com dinheiro público. Cada um apresentou a sua demanda, todas com impacto financeiro direto no caixa do Tesouro, mesmo quando são contemplados interesses das comunidades que representam.
O simples fato de que o chamado fundão deve ser bancado com dinheiro das emendas amplia ainda mais uma deformação inaceitável na política, que é a possibilidade de os parlamentares fazerem demagogia com dinheiro público. E, o que é mais grave ainda, na maioria das vezes, essas verbas são liberadas de acordo com os interesses de quem está no poder em agradar a um ou outro parlamentar, mantendo seu apoio.
Menos mal que, junto com o uso de recursos oficiais para partidos, aos quais serão acrescidos cerca de R$ 1 bilhão do atual fundo partidário, o Congresso aprovou também algumas medidas que tendem a reduzir o excessivo número de legendas em atuação no país. Em consequência, devem diminuir também os custos das campanhas políticas, hoje exorbitantes. Entre as mudanças, estão o fim das coligações, a partir de 2020, e a imposição de uma chamada cláusula de barreira, válida já para as eleições de 2018, que passará a exigir um percentual mínimo de votos válidos nacionais para justificar a existência de um partido. Mas é preciso mais.
Um país sem recursos suficientes para financiar adequadamente áreas essenciais não pode continuar desperdiçando dinheiro público com marqueteiros. E isso sem que tenham sido vedadas integralmente as brechas para artifícios como o uso de valores associados à corrupção. Políticos e gestores públicos precisam se adequar à realidade financeira do país, buscando formas mais diretas e menos onerosas de se comunicar com os eleitores.

PERISCÓPIO 

OUTORGAS
O Senado Federal renovou as outorgas das emissoras de rádio e televisão da Assembleia Legislativa do Amapá, uma solenidade simples na presidência da casa nesta manhã, foi feito a entrega oficial em moldura especial com a publicação no diário oficial da união. O projeto de implantação das emissoras no Amapá iniciaram em 2012 e foram coordenadas pelo jornalista Elpídio Amanajas à pedido do então presidente do senado José Sarney. Atualmente os veículos de comunicação transmitem ao vivo as sessões plenárias da Alap e programas educativos. Para o presidente do parlamento deputado Kaká Barbosa as emissoras representam um grande avanço para interação com a sociedade e transparência. Durante o ato solene da entrega além do presidente da casa estavam as deputadas Edna Auzier e Roseli Matos. A Tv Assembleia em Macapá pode ser sintonizada em sinal aberto no canal 57,2 e a rádio no prefixo 93,9 Fm.

ÁREAS DE RISCO
Por causa da insegurança, muita gente deixou de usar os espaços ao redor da Fortaleza de São José de Macapá para passeios ou prática de exercícios. Conhecida como Parque do Forte, a praça atrai pela beleza, além de oferecer equipamentos para os adeptos das várias modalidades esportivas. Mas, a ausência ou presença ínfima da Segurança Pública no local tem facilitado, sobremodo, as ações sequentes da bandidagem (leia-se assaltantes, assediadores e trambiqueiros de todo tipo). Outra ameaça para os desportistas amadores localiza-se na Praça Isaac Zagury, a 100 metros da antiga residência oficial do governo do Estado. Viciados e traficantes montaram uma “cracolândia” sob os vãos de uma pequena arquibancada. Quem segue pela avenida Coriolano Jucá, ao lado da sede da OAB-AP, atravessa a rua Binga Uchôa, e desce a escadaria até a pista de caminhada da “Isaac Zagury”, estará arriscando a vida se, por acaso, defrontar-se com um dos drogados que circulam livre e impunemente.

BEIÇUDO
Advogado cara dura, metido a pastor evangélico, defensor de notórios malversadores amapaenses, pediu emprestado R$ 90 mil de um pequeno empresário e vem se esquivando, de forma vil e canalha, de pagar o que deve ao credor. De tanto cobrar o salafrário, o empresário, hoje falido, precisou recorrer à sua irmã, que também é advogada (mas, ao contrário do colega dela, sabe honrar o nobre ofício), para mover uma ação processual no Juizado de Pequenas Causas contra o advogado infrator. Comportamentos controversos, revelando mau-caratismo extremado e desvio de personalidade, deveriam ser raríssimas exceções nas fileiras da OAB. Infelizmente, esses maus exemplos parecem bastante comum. Paga o que deves, “beiçudo diplomado”!

JOGO ELEITORAL
Os partidos só fazem convenções no ano que vem, e as regras para as eleições de 2018 ainda estão indefinidas, mas os times já estão em campo para o jogo eleitoral, embora sem definir seus jogadores. Na instância federal, o impasse não se prende exclusivamente à falta de legislação, mas às investigações da Lava Jato. Alguns postulantes dependem do rumo das ações em curso na Justiça para definir o seu futuro.

JOGO ELEITORAL II
O mesmo raciocínio pode ser levado para os Estados. No Amapá, o governador Waldez Góes (PDT) tem projeto de reeleição em pauta, enquanto seus adversários se dividem sobre o que fazer. O PSB prepara-se para alçar vôo estratosférico. O senador João Alberto Capiberibe, que por duas vezes governou o Estado (1995-1998/1999-2002), em 2018 novamente pode entrar na disputa pelo cargo.

LEITOS DO CABUÇU
Muita gente querendo saber onde estão os quase 500 leitos hospitalares anunciados pelo deputado federal Cabuçu, durante propaganda eleitoral veiculada recentemente nas emissoras de TV de Macapá. O peemedebista ocupou o horário nobre para fazer proselitismo político, tentando manobrar a opinião pública para garantir a si, e ao seu grupo político, a simpatia da população divulgando ação parlamentar de caráter duvidoso. Faltou ao deputado nomear direitinho o destino dos já “afamados” leitos hospitalares.

ARTIGO I

Bandido bom [não] é bandido morto…

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Emanoel Reis – Jornalista

O crescente número de suspeitos mortos em confrontos com a Polícia Militar do Amapá chamou a atenção da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil e colocou em dúvida os métodos utilizados pelos agentes no combate à criminalidade no Estado. Para a comissão, a grande maioria das mortes era desnecessária e em muitas há indícios de execução, convenientemente nominadas de “reação à ordem de prisão”.
A denúncia é grave, e ganhou repercussão extramuros, chegando ao conhecimento dos coordenadores da ONG norte-americana Human Rights Watch (HRW) para o Brasil, cuja atuação em favor dos direitos humanos é reconhecida em todo o mundo.
As preocupações da entidade sobre o Brasil estão no capítulo dedicado ao país do seu Relatório Mundial 2017. Neste documento, ganha destaque os “abusos cometidos pela polícia, incluindo execuções extrajudiciais” que “contribuem para um ciclo de violência em áreas de alta criminalidade”.
Culpar os policiais é muito fácil. Contudo, a OAB Amapá talvez tenha sido a primeira a descortinar em público o que há muito tempo o público vem comentando entredentes nos corredores, salões de beleza e botequins. De fato, o número de suspeitos perseguidos e mortos pela PM vem aumentando assustadoramente. E a justificativa é a mesma: o “meliante estava armado e reagiu”. Surpreendente é que essa desculpa virou mantra na boca dos policiais militares sem que a imprensa amapaense se predisponha a realizar um trabalho mais aprofundado sobre o assunto.
Nos anos 1980, o delegado de Polícia José Guilherme Godinho, o Sivuca, ex-integrante da guarda pessoal de Getúlio Vargas, lançou-se candidato a deputado estadual no Rio de Janeiro com o slogan: “Bandido bom é bandido morto!”. Fez um sucesso estrondoso e ajudou a elegê-lo com expressiva votação. Mas, segundo pesquisadores como Antonio José Pêcego, mestre em Direito pela UNAERP e especialista em Ciências Penais pela UNIDERP/REDE LFG, Sivuca foi um dos fundadores da Escuderia Le Cocq, simbolizada por uma caveira com dois ossos da tíbia cruzados por baixo, com a sigla E.M., depois conhecida como “Esquadrão da Morte”. Ou seja, Sivuca era um temido “matador de gente”.
Diante de tantas mortes “inexplicadas”, recentemente ocorridas em refregas com a PM, a manifestação da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil ganha tonalidades sombrias e suscita a pergunta que não quer calar: Essas mortes eram, realmente, necessárias?

A grande revolução

Nas últimas semanas, tenho acompanhado, agora não mais surpreso (porque minha surpresa, de tanto ser surpreendida, já cansou de surpreender-se), o desmoronamento do que ainda restava de meus sonhos juvenis: de um Brasil realmente próspero e justo. As delações proliferam, e com elas o desfilar dos canalhas (e seus bem pagos advogados) pontificados na negação das negações, nos semblantes compungidos, nos olhares falsamente suplicantes, nos gestos fingidamente submissos. Tudo para encantar e enganar os incautos.
Todos, direita, esquerda ou centro. Vermelhos, azuis ou amarelos. Todos, mesmo os inseridos nas “exceções à parte”, são culpados. Todos, delatores e delatados, os supostamente inocentes, que juram probidade inquestionável, que arrotam honestidade, locupletaram-se. Uns menos, porque comedidos em suas pequenas safadezas, outros mais, vorazes em roubar, derramar sangue de quem é fraco, inocente.
Provoca asco os gestuais do ex-todo-poderoso ministro petista Antônio Palocci, transbordante em salamaleques diante do juiz federal, enquanto dedura seus ex-bons companheiros de negociatas, roubalheiras, maracutaias. Provoca ojeriza as declarações do advogado de Lula (aquele que prometia acabar com a corrupção no Brasil), desdobrando-se em explicar o inexplicável por meio de suas habilidades enquanto notório sofista. Causa nojo as manobras sub-reptícias, a fala mansa do biltre, o olhar convicto do patife, o semblante de aparente confiança em si mesmo de um dos mais perigosos políticos brasileiros que, por meio de artimanhas e vilanias, tomou de assalto a presidência da República. O senhor Michel Temer é um escárnio. Um acinte. Herança maldita de Lula e Dilma.
Envergonha a mim, e creio que também a vocês, acompanhar, no Congresso Nacional, o esforço concentrado de centenas de maus brasileiros em garantir para si e seus pares a manutenção das benesses (mordomias e vantagens) sustentadas pelo nosso suado dinheiro, arrancado de nós à força de fórceps, através dos muitos impostos escorchantes aprovados por estes mesmos maus brasileiros, temporariamente ocupantes do Senado e da Câmara dos Deputados.
Aliás, antro, covil, trincheira da súcia. É assim que o mundo enxerga o nosso Congresso Nacional. Para vergonha dos bons brasileiros. Chega de dormir em berço esplêndido. Precisamos fazer algo. Precisamos voltar a ocupar as ruas. Precisamos, sim, fazer a grande REVOLUÇÃO.

Verdades inventadas

Mesmo em tempos de comunicação instantânea, acessível a qualquer cidadão deste País, os partidários da “velha mídia” no Amapá teimam em lançar mão de práticas abjetas para tentar manipular a opinião pública, noticiando informação deturpada e de duplo sentido, contrariando os princípios mais elementares do verdadeiro Jornalismo. Durante todo a quinta-feira, 17 de agosto, o que se viu e ouviu em larga escala na capital amapaense foi a notícia enviesada de que o Superior Tribunal de Justiça havia absolvido o governador Waldez Góes (PDT) “de todas as acusações” que pesam contra ele, provenientes da Operação Mãos Limpas, deflagrada em 10 de setembro de 2010.
O tom das notícias veiculadas no mass-media amapaense sobre esta suposta decisão do STJ demonstrou, outra vez, o quanto o tilintar das 30 moedas ainda encanta — e coopta — os donos das empresas de comunicação em atividade no Amapá. Por elas (as tais moedas), são capazes de atirar às favas os escrúpulos (como já fizeram antes) e encampar a meia-verdade fornecida pelo Palácio do Setentrião e convertê-la em verdade absoluta para entregá-la mastigada à voracidade dos incautos. O mesmíssimo e perverso instrumento criado pelo doutor Paul Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler.
A manobra controversa para escamotear os fatos gerados pelo Superior Tribunal de Justiça fracassou. Por dois motivos. Primeiro, diferente dos tempos em que Waldez exerceu seus dois mandatos no governo do Estado (2003-2006/2007-2010), hoje a informação circula na Internet com impressionante velocidade, e está disponível para todo mundo — literalmente. Segundo, os mais recentes avanços tecnológicos estão sepultando a “velha mídia”, e, atualmente, mesmo aumentando as tiragens dos jornais de papel para agradar o manda-chuva de plantão, ou promovendo o uso maciço das emissoras de rádio, as mídias sociais (twitter, facebook, instagram, Google+, sites, portais e blogs) têm o poder avassalador de desmontar qualquer mentira.
Portanto, não adianta inventar verdades para ludibriar a opinião pública, ou disseminar falsas informações para desqualificar o trabalho que vem sendo realizado por este blog. Este veículo de comunicação online não defende nenhum grupo político, tampouco é contra o governador Waldez Góes. Este blog é contra qualquer governo que descumpra seus deveres e pratique todo tipo de vilania para prejudicar a população carente do Amapá.

Lamparina de popa

O lamentável assassinato do publicitário Andrey Smith, 28 anos, ocorrido em frente à Escola Estadual Modelo Guanabara, Macapá, exemplifica a falência da segurança e do sistema de saúde pública no Estado do Amapá, agravada pela ineficiência do governo Waldez Góes em promover as mudanças indispensáveis ao bem-estar da população. Um assaltante executou Andrey a facadas, ao lado da Catedral de São José, no fim da última missa dominical. Morreu diante de dezenas de pessoas assombradas e assustadas, cujas orações a Deus, feitas minutos antes, durante a bênção final, só  pediam paz e prosperidade para o sofrido povo amapaense.
Uma dessas testemunhas, Rafaela Call, faz um relato dramático do latrocínio (roubo seguido de morte). Ela disse que, após descer as escadarias do templo católico, ouviu rumores e viu pessoas seguindo apressadas em direção à Escola Guanabara. Naquele instante, também acompanhou a multidão até onde Andrey encontrava-se, caído e ensanguentado, mas, ainda vivo. Segundo afirma, apesar das várias ligações telefônicas em quase 30 minutos de espera, nenhuma ambulância apareceu para socorrer o rapaz, que morreu, acredita ela, por falta de atendimento médico imediato.
Recentemente, o Hospital Geral do Amapá ficou três dias sem realizar um único procedimento cirúrgico porque faltaram material e remédio para atendimento dos pacientes. Os problemas se avolumam desde a portaria, com funcionários mau remunerados e mal-humorados ignorando os mais elementares preceitos de civilidade, agravando, ainda mais, o drama dos pobres amapaenses. Centenas de pessoas, a maior parte delas de baixa renda, sofrem nas enfermarias sem saber quando serão operadas.
Enquanto isso, o ensandecido governador pedetista afronta o povo veiculando nas emissoras de televisão do Estado peças de propaganda enaltecendo benfeitorias que somente ele e seus apaniguados conseguem exergar. Para essa gente, o Amapá está às mil maravilhas. Saúde pública funciona. Segurança com viaturas novas e helicóptero. Rodovias e estradas vicinais pavimentadas. Economia aquecida. O desemprego em queda livre. Este é o Amapá de faz-de-conta construído pela propaganda milionária do governo Waldez Góes para ludibriar os incautos e subverter a verdade.
Triste o povo refém de um governo anacrônico, perdulário e ineficiente. Infelizmente, em termos de segurança e saúde pública, o governo Waldez Góes, em sua terceira e desastrada versão, só conseguiu ser muito pior do que seus funestos precedentes. Inclusive, pior do que seus governos anteriores (2003-2006/2007-2010). Diante desse cenário de débâcle, Waldez tende a encerrar sua existência política como uma quase apagada, tediosa e inútil lamparina de popa.

O desabafo do ministro

Nessas efervescentes semanas, no auge da crise política e econômica em andamento no País, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mendes de Farias Mello, fez um desabafo contundente em entrevista à Imprensa. Segundo o ministro, os últimos e graves acontecimentos comprovam uma verdade inquestionável: “Estamos vivendo tempos estranhos”. A frase reveladora, e a expressão de desânimo do ministro, deixaram entrever futuro nada animador para o Brasil, especialmente no aspecto político.
Isso, mesmo. Na noite de sábado, 20 de maio, os dois maiores corruptos da política nacional, Michel Temer e Luís Inácio Lula da Silva, ocuparam generosos espaços na televisão aberta para, cada um a seu modo, arengar sobre suas respectivas “inocências” e enaltecer suas supostas “honestidades”. Os eleitores brasileiros sensatos sabem, muito bem, que Temer e Lula jamais podem ser considerados “inocentes” ou “honestos” diante da montanha de provas coletadas nas diversas fases da Operação Lava Jato.
Suas Excrecências (Ops! Excelências) não podem, nem devem, mais exercer um cargo tão importante quanto o de Presidente da República do Brasil. Temer deve ser afastado. E Lula jamais pode ocupar novamente o cargo que, durante anos, ele maculou com sua conduta altamente criminosa.
No caso de Michel Temer, os acontecimentos passados e presentes apontam para dois desfechos: impeachment ou renúncia. Já Lula, numa demonstração de extremado caradurismo, aparaceu na TV com pinta de pré-candidato. Embora existam contra ele provas concretas (ainda não reveladas pelo STF) do cometimento de graves delitos — durante e após o exercício do sagrado cargo de Presidente da República —, é bem capaz que logre êxito nesse empreitada altamente perigosa para o País.
Acontece que o povo sofre de três doenças crônicas. As três grandes síndromes que há décadas converte o brasileiro em um “(…) ser excessivamente bonzinho”. São elas: a síndrome de Gérson (querer levar vantagem em tudo); a síndrome de Macunaíma (o brasileiro adora um herói sem caráter); e a síndrome de Zé Carioca (a malandragem do jeitinho).
Realmente, estamos vivendo “tempos muito estranhos”. Em 2015, eu gravei um vídeo com mensagem de fim de ano alertando os amigos sobre esses “tempos estranhos”. Por isso, o desabafo do ministro não surpreendeu-me. Deve ter assombrado os incautos e os néscios. Infelizmente, estes são maioria e podem reconduzir o chefe petista ao supremo comando da Nação. Vigiai e orai, amigos.

Os inusitados da vida

“Há dias que eu não sei o que me passa/Eu abro o meu Neruda e apago o sol” porque alguns fatos, aparentemente triviais, acabam mexendo com o inconsciente muito mais do que outros, de aparente relevância. Somente numa manhã, registrei algumas sensações e acontecimentos singulares. Primeiro, foi o americano movendo o braço com a força do pensamento. Mas, isso não chamou a minha atenção. O que me fez pensar foi a história do acidente que o deixou tetraplégico: o cara pedalava uma bicicleta e colidiu na traseira de um caminhão dos Correios. Lembrei de um amigo, no bairro da Marambaia (Belém/PA), que ficou tetraplégico ao cair de costas sobre uma pedra após ser atingido por um potente soco durante uma briga na frente da discoteca “Shock Disco Club” (acho que essa é a grafia correta). A “Shock” ficava em frente ao Clube dos 2 mil (atual Shppping Castanheira), ali, no começo da BR-316 (aceito correções). Minutos atrás, no cruzamento da avenida Raimundo Álvares da Costa com a rua General Rondon, uma ciclista, pedalando sentido avenida FAB, quase vai para a Terra dos Pés Juntos ao colidir com um automóvel. Advertida pelo motorista sobre o erro cometido, fechou a cara e esbravejou: “Não tem contramão pra bicicleta, não. Entendeu?!” Quanta ignorância!! Mas, ignorância mesmo foi cometida contra mim por um recepcionista do Super Fácil, um gordo suarento, cabelos curtos, vestindo uma camisa verde-abacate. Arrancava pedaços de unhas a dentadas. “Qual é o assunto?”, perguntou, sem interromper o indigesto antepasto. “Renovação de CNH”, respondi. E com uma voz que mais parecia o grunhido de um barrão, retrucou: “Toma. Providencia esses documentos” E atirou sobre o balcão um pedaço de papel ensebado. Olhei para o volumoso servidor e pensei: “Por isso que é gordo” No retorno, já no cruzamento da avenida Ernestino Borges com a rua Leopoldo Machado, a motorista de um automóvel, uma loura “chanel”, de boca grande, cruzou o perigoso trecho falando ao celular como se estivesse no salão, conversando abobrinhas com a amiguinha. Quase atropela uma estudante do Pró Concurso Podium. Depois de freada brusca, fez cara de quem transou e não gozou.

O controvertido

O redator do texto reproduzido por Waldez Góes nas peças veiculadas na noite de sexta-feira, 24 de março, pela “TV oficial do governo estadual”, cometeu vários equívocos graves. Primeiro, quando Waldez afirma que Brasília está mandando menos dinheiro para o Amapá ele coloca em xeque todo o trabalho da bancada federal do Estado (senadores, deputados e deputadas federais) e, entrelinhas, induz o telespectador a pensar em inoperância, inutilidade e inapetência sobre a atuação de nossos parlamentares. Segundo, Waldez é contraditório (o que não é nenhuma novidade) ao afirmar que “apesar da incapacidade” da bancada federal na obtenção de recursos, “o Amapá está crescendo” (carambolas, só se for igual rabo de cavalo). Mas, para coroar a enfiada de absurdos, Waldez encerra o arrazoado com uma frase, no mínimo, controversa: “um futuro melhor continua sendo o sonho de todos nós”. Ora, minhas bolas, se Brasília está mandando menos dinheiro para o Amapá porque – segundo o próprio Waldez – a bancada federal é inoperante, então como sonhar com um futuro melhor diante desse cenário de tantas incertezas? Ora, dá um tempo Waldez!!!

A revolução reversa

Uma das chamadas de capa do Correio Braziliense, edição de domingo, 05 de fevereiro, motivou a manifestação deste livre pensar. Eis a dita cuja: – Lula: ‘Que facínoras tenham a humildade de pedir desculpas’. Em seu discurso, ao lado do caixão da esposa, Lula responsabilizou a Operação Lava Jato pela morte dela. Tão rápido, assim? Nem esperou carpir a defunta e já lançou a estratégia ainda no velório de dona Marisa Letícia (quanta obviedade). O que pretende Lula, afinal? Comover o povo, passando-se por vítima de uma trama, transformando Marisa em mártir de uma “revolução reversa”?
Tenho acompanhado aqui, sem me opor, as manifestações enfurecidas de militantes e simpatizantes do lulo-petismo. Algumas, de tão raivosas e ensandecidas, deveriam ser deletadas de imediato. Mas, como não sou censor de ninguém, defendo o seguinte princípio: que cada cachorro passe a língua em sua própria caceta.
Concordei quando criticaram, com exacerbada ferocidade, as postagens que maculavam a imagem da ex-primeira-dama, atribuindo a ela papel preponderante nos crimes cometidos por proeminentes do Partido dos Trabalhadores, desde o Mensalão ao Petrolão. Essa possibilidade é extremamente remota. Contudo, venhamos e convenhamos, de boba dona Marisa não tinha nada. Era uma mulher muito inteligente, acompanhou o marido em momentos decisivos e conhecia com profundidade cada membro do staff lulista.
Por isso, repito aqui o que disse antes: o único inocente de toda essa história sórdida é o povo brasileiro. Não acredito na inocência de Lula, nem na inocência de Dilma, tampouco na inocência dos poderosos políticos petistas que comandaram os destinos desta pobre pátria mão tão distraída a partir de 2003.
No meu entendimento, todos, inclusive Lula e Dilma, são culpados pelos graves crimes (malversação, prevaricação, peculato, concussão, formação de quadrilha, etc…) que cometeram ou permitiram que outros cometessem em seus governos. Infelizmente, quase todos os políticos, de quase todos os partidos, participaram ou participam da roubalheira endêmica que transformou o Brasil no paraíso mundial dos corruptos.
Lula tem todo o direito de fazer o que quiser com a memória de sua esposa. Menos usá-la para embasar sofismos políticos mal-ajambrados com o propósito de macular honras e minar a credibilidade de uma operação policial que tem descortinado para um boquiaberto povo brasileiro o que os bandidos políticos (de qualquer partido) fazem às escondidas, nos subterrâneos do poder, com o meu, o seu, o nosso dinheiro público: viram reles ladrões.

Pede pra sair, Kaká Barbosa

Realmente, estamos vivendo dias estranhos, tempos de prevalência da razão cínica. Esta conclusão desanimadora foi extraída de uma entrevista concedida pelo deputado estadual Kaká Barbosa (PT do B), logo após a posse dele na presidência da Assembleia Legislativa do Estado do Amapá. Barbosa é investigado pelo Ministério Público Estadual por suposto envolvimento em esquemas de fraudes e desvio de dinheiro público surrupiado dos combalidos cofres do empobrecido Amapá.
Mesmo assim, por força de liminar, Kaká Barbosa assumiu o comando do legislativo estadual e, em entrevista, anunciou enfaticamente que um de seus projetos é “resgatar a imagem da Assembleia Legislativa do Amapá”. A assertiva foi de assombrar. Como pode um deputado estadual, com o histórico e a trajetória de Kaká Barbosa, afirmar com tanta empáfia que pretende “resgatar a imagem” da Assembleia Legislativa se o próprio deputado está na mira do MP suspeito de malversação?
O comportamento controverso de Barbosa remeteu os bons observadores de plantão a uma famosa passagem bíblica em que Jesus repreende os hipócritas e recomenda a eles para que primeiro tirem o cisco dos próprios olhos para que, somente após essa salutar e providencial medida, pudessem retirar o cisco dos olhos das outras pessoas. Ou seja, se verdadeiramente Kaká Barbosa quer recuperar a boa imagem da Assembleia Legislativa do Amapá, tantas vezes maculada por maus deputados e deputadas, que siga o conselho de Cristo. Comece tirando o cisco do próprio olho. Isso mesmo: que reconheça-se indigno da função pública e desista do mandato.
Será que Kaká Barbosa seria capaz de se dar em holocausto por essa boa causa?

“Normalidade” milionária

Recentemente, o secretário de Planejamento da Assembleia Legislativa do Amapá, Keka Cantuária, disse, em entrevista a uma emissora de TV, que considerava “normal” o governo dispôr de R$ 12 milhões para a Secretaria de Estado da Comunicação (Secom) já que a própria AL, que tem “rádio, TV e portais” reserva R$ 7 milhões de seu orçamento (este ano estimado em quase R$ 162 milhões) para manutenção de seu sistema de comunicação.
Alguns certamente dirão que para a ALAP investir R$ 7 milhões em Comunicação ainda é “muito pouco” se comparado com outras Assembleias Legislativas, a exemplo da cearense, que aprovou, no dia 21 de dezembro passado, recursos de R$ 58,7 milhões para o setor. Ou mesmo com a Assembleia Legislativa do vizinho Estado do Pará que dispôs R$ 65 milhões para divulgação do parlamento estadual.
Mas Ceará e Pará são Estados fornecedores de matéria-prima para a indústria mundial. O primeiro, está entre os maiores produtores de petróleo e gás; o segundo, entre os maiores produtores de minério do mundo. Não existem nem parâmetros para comparações entre os três Estados. Um deles está com Índice de Desenvolvimento Humano saindo do amarelo para entrar no vermelho. Logo, carente dos serviços mais elementares nas áreas da saúde, educação e segurança pública. Entre outras tantas.
Apesar das crônicas deficiências sociais e econômicas que afligem a população amapaense há pelo menos 15 anos, as três esferas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário) continuam priorizando a manutenção dos respectivos status quo. Ou seja, em nenhum momento foram corajosos (e humanos) para anunciar a redução das benesses funcionais ou provenientes de cargos comissionados e abrir mão de parte dos salários fabulosos para aumentar os investimentos em saúde, educação e segurança dos mais carentes.
Para o ex-deputado pedetista Keka Cantuária, linha de frente do grupo político de Waldez Góes, a Assembleia Legislativa de um Estado pobre, com produção mínima de matéria-prima e participação ínfima no PIB nacional, gastar R$ 12 milhões em Comunicação em nível estadual e R$ 7 milhões na Comunicação da ALAP é “normal”. Muito “normal”.

ARTIGO II

Delenda Amazônia

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Lúcio Flávio Pinto – Jornalista

Em 7 de janeiro de 1835 irrompeu uma revolta popular em Belém do Pará. A revolta de índios, negros e caboclos rompeu sangrentamente a dominação portuguesa na Amazônia, que se mantinha quase intacta na Amazônia, 13 anos depois da independência do Brasil.
Era tão monolítica que, para rompê-la, que o motim durou cinco anos e nele morreram 20% da população da província, que era então de 150 mil habitantes. Se acontecesse hoje, considerada apenas a população do Pará e do Amazonas, de pouco mais de 12 milhões de pessoas, teriam sido 2,4 milhões de mortos.
No entanto, o padre paulista Antonio Diogo Feijó, que comandava o Brasil em nome do imperador Pedro II, ainda menor, interpretou a insurreição como uma manobra dos portugueses para separar a província do Grão Pará e Rio Negro do restante do país.
Era este o projeto do último representante do iluminismo no já decadente império português, o marquês de Pombal, na segunda metade do século XVIII: o Brasil poderia romper as amarras com a metrópole, mas a Amazônia (que hoje ocupa dois terços do território brasileiro) continuaria a ser a joia lusitana na América. A aposta de futuro na sobrevivência do império.
Os governantes do Rio de Janeiro conheciam bem essa geopolítica, mas desconheciam os confins da nova nação no extremo norte. Enquanto eram muito frágeis com o Brasil, os elos da Amazônia com Lisboa continuavam fortes. Tão sólidos que a adesão da região à emancipação nacional foi uma farsa armada à última hora pelos comerciantes portugueses.
O novo império se deixou enganar por essa filiação artificial e voltou a ignorar a sua parte mais extensa e misteriosa, vista pela ótica da mitologia. A Amazônia era tarefa para um além.
Por isso, em negociação secreta e ilegal, Feijó autorizou a Inglaterra, maior potência mundial da época, a invadir militarmente o Pará e reprimir os revoltosos nativos. A mesma proposta foi apresentada aos representantes diplomáticos da França e – por incrível que pareça – de Portugal. Podiam utilizar uma tropa de até mil homens, cada país, e agir livremente, sob a proteção do silêncio do governo central.
O Brasil ia cuidar de reprimir a revolta dos farroupilhas do Rio Grande do Sul. Mesmo querendo realmente se libertar do Brasil, os gaúchos eram brancos, “mais iguais” do que os nortistas, nada mais do que bugres manipulados pelos colonizadores portugueses.
Felizmente, as nações estrangeiras foram mais prudentes e cautelosas. Preferiram ignorar a autorização de Feijó e se manter à distância. A Inglaterra chegou a mandar uma frota de guerra para observar a cena no local, a pretexto de cobrar satisfações pela destruição de um brigue comercial britânico pelos rebeldes.
O comandante Strong disse aos seus superiores que com 150 fuzileiros navais acabaria com a tropa dos cabanos, mas que era melhor não se meter na confusão. A Inglaterra percebeu que era mais rentável explorar a Amazônia através de um governo nacional do que repetir a experiência do vice-reinado na Índia, com um governo metropolitano.
Os ingleses acertaram. Foram eles que financiaram o início da exploração da borracha, beneficiando-se do pioneirismo, como fizeram no ciclo do ouro das Minas Gerais. O Banco do Brasil só se instalou na Amazônia um século depois de ser criado, no Rio, em 1808.
Com o recuo dos três países, o governo brasileiro recorreu a mercenários estrangeiros, comandados por Andrea, um marechal de origem portuguesa, nacionalizado para inglês ver. Morreu mais gente na “pacificação” do norte do que durante os combates da insurreição. Milhares morreram de inanição nos porões dos navios de guerra. Outros foram simplesmente executados.
O que se tornou uma das mais sangrentas tentativas de libertação de um povo colonizado em todos os tempos mal é referida nos manuais de história do Brasil. Contada como realmente aconteceu, ela enodoaria ainda mais a crônica dos acontecimentos e levaria a algumas conclusões nada edificantes para a retórica da unidade nacional.
A Amazônia foi e continua a ser a mais internacionalizada das regiões brasileiras. Foi também a que mais tardiamente se integrou ao território nacional. E quando o Brasil a anexou de vez, rasgando suas enormes florestas para a abertura das fontes mais poderosas de agressão, as estradas de rodagem, alegou que precisava integrá-la para que ela não acabasse nas mãos de estrangeiros, sob o lema da ditadura: “integrar para não entregar”.
A despeito desse discurso nacionalista e da doutrina de segurança nacional, a Amazônia se globalizou ainda mais e o Brasil continua a ignorar o que realmente é a Amazônia. Por isso, a transforma em sua imagem e semelhança, a de um povo que se expandiu destruindo a população nativa e o seu ambiente natural, um povo especializado em derrubar florestas, impondo o sinete do valor de troca sobre o valor de uso.
Internacionalizada, a Amazônia continuou a ser brasileira manu militari. Nacionalizada, entrou no circuito internacional do capital. Não há uma terceira via para a maior fronteira dos trópicos no planeta?

ARTIGO III

Ensino religioso ou ensino das religiões e iniciação à vida do espírito?

leonardoboffLeonardo Boff – Teólogo e Escritor

Corre no STF a discussão se nas escolas, pode ou não haver ensino religioso. O termo “ensino religioso” leva a equívocos pois contém uma conotação confessional. Num Estado laico como o brasileiro, que acolhe e respeita todas as religiões sem aderir a nenhuma delas, o correto seria dizer “ensino das religiões”. Pertence à cultura geral, que os estudantes tenham noções básicas das religiões praticadas na humanidade. Tal estudo possui o mesmo direito de cidadania que o da história universal ou das ciências e das artes. O termo correto seria, portanto, o “ensino das religiões”.
Entretanto, o mais importante seria iniciar os estudantes na espiritualidade como é entendida hoje pelos estudiosos. Não se trata de uma derivação da religião, o que pode ser, mas esta não possui o monopólio da espiritualidade. A espiritualidade é um dado antropológico de base como é a inteligência, a vontade e a libido.
O ser humano além de possuir uma exterioridade (corpo) e uma interioridade (psiqué), possui também uma profundidade (espírito). O espírito é aquele momento da consciência em que cada um se capta a si mesmo como parte de um todo e se pergunta pelo sentido da vida e de seu lugar no conjunto dos seres.
Talvez melhor que um filósofo, um escritor nos possa esclarecer o que seja o espírito e a vida do espírito. Antoine de Saint Exupéry, autor do Pequeno Príncipe, deixou uma carta póstuma de 1943 e somente publicada em 1956. Intitulava-se “Carta ao General X”. Ai escreveu:”Não há senão um problema, somente um: redescobrir que há uma vida do espírito que é ainda mais alta que a vida da inteligência, a única que pode satisfazer o ser humano”(Dare un senso a la vita, Macondo Libri 2015 p. 31)
Para ele, a vida do espírito ou a espiritualidade é feita de amor, de solidariedade, de compaixão, de companheirismo e de sentido poético da vida. Se esta vida do espírito fosse cultivada, não haveria o absurdo dos milhões de mortos na segunda guerra mundial. É o que mais faz falta hoje no mundo.Pelo fato de a vida do espírito vir coberta por um manto de cinzas de egoismo, indiferença, cinismo e ódio é que as sociedades se tornaram desumanas. Saint Exupéry chega a dizer:”temos necessidade de um deus”(p.36).
Esse Deus não vem de fora. Ele é aquela Energia ponderosa e amorosa que os cosmólogos chamam de Energia de Fundo do Universo, inominável e misteriosa da qual sairam todos os seres e são sustentados, a cada momento, por ela. E nós também. Cosmólogos como Brian Swimme e Freeman Dyson chamam de Abismo Alimentador de Tudo ou de Fonte Originária de todos os Seres. Deus deve ser pensado nesta linha.
É próprio da vida do espírito poder abrir-se a essa Realidade, deixar-se tomar por ela e entrar em diálogo com ela. O resultado é ter uma experiência de transcendência, sentindo-se mais sensível e humano.
Há uma base biológica para a vida do espírito. Neurocientistas, a partir dos anos 90 do século passado, constataram que sempre que o ser humano aborda temas ligados a um sentido profundo da vida e ao Sagrado. verifica-se uma grande aceleração dos neurônios dos lobos temporais. Chamaram a isso “o ponto Deus no cérebro”. Assim como temos órgãos exteriores como os olhos, os ouvidos e o tato, temos também um órgão interior, que é nossa vantagem evolutiva, pela qual captamos essa Realidade misteriosa que nos circunda e tudo sustenta.
Deter-se sobre esta Realidade e entrar em diálogo com ela, nos torna mais humanos, menos violentos e agressivos. Danah Zohar, física quântica e seu marido psiquiatra Ian Marshall, escreveram um convincente livro sobre o “ponto Deus no cérebro” denominando-o de “inteligência espiritual”(Record, Rio 2000). Assim somos dotados de três tipos de inteligência: a intelectual, a emocional e a espiritual. Cumpre articular as três para sermos mais plenamente humanos.
Estimo que as escolas além de fornecer um ensino das religiões, ganhariam enormemente se iniciassem os estudantes na vida do espírito. Quem estaria apto para orientar esta prática? Professores de psicologia, de pedagogia, de filosofia e de história. A aula poderia ser dividida em duas partes: nos primeiros vinte minutos pequenos grupos discutiriam um tópico de algum mestre do espírito de distintas procedências. Procurariam internalizar tais conteúdos. Nos outros vinte minutos seria colocar em comum o que refletiram e abrir um debate aberto.
Como alternativa, pode-se também reservar um tempo para cada estudante recolher-se, auscultar sua profundidade e ver o que daí sai: bons e maus sentimentos, conhecendo-se a si mesmo e propondo-se a fortalecer os bons e colocar os maus sob controle. Assim sentiria a vida do espírito, consciente e pessoal.
Temos como matar a fome de pão. Precisamos matar a fome de vida espiritual, que se nota por todos os lados. Ela “seria a única a satisfazer o ser humano”.

ARTIGO IV

Avulsos e a democracia representativa

“Se queres paz, prepara-te para a guerra”.

gaudenciotorquato

Gaudêncio Torquato – Jornalista e professor titular da USP

A Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, em parecer encaminhado ao STF, sustenta a possibilidade de candidaturas avulsas no país, tendo se apoiado no Pacto de São José da Costa Rica (Convenção Americana de Direitos Humanos), firmado em 1969, e ratificado pelo Brasil em 1992. Ali se diz que todos os cidadãos podem votar e ser eleitos e, por conseguinte, disputar em condições de igualdade funções públicas no seu país. Sob a égide dos direitos humanos, a tese é claramente plausível. Mas a questão deve ser analisada também sob a perspectiva da democracia, que tem nos partidos políticos um dos eixos centrais.
Na acepção do termo, partido é parte, e, como tal, corresponde à parcela do pensamento social. Portanto, o conjunto de partidos, em sua totalidade, representa os conjuntos sociais. E o candidato avulso? Se os escopos doutrinários inseridos no arco ideológico (da direita à esquerda) são repartidos entre os partidos, como ele, avulso, pode se apresentar? E a quem representará?
A possibilidade de uma candidatura avulsa pode ser entendida no contexto da crise que se abate sobre a democracia representativa, que ganhou força nas últimas décadas com a despolitização ou, ainda, a desideologização. Nas últimas três décadas, temos presenciado não apenas o declínio das ideologias, mas o arrefecimento dos partidos, particularmente os partidos de massa, que se desenvolveram sob o fluxo da industrialização e do fortalecimento da classe operária.

MECANISMOS CLÁSSICOS DA POLÍTICA
A sociedade industrial e a expansão econômica minaram os fundamentos da luta de classes, amortecendo a força dos mecanismos clássicos da política, entre eles, doutrinas, partidos e bases, e, mais do que isso, contribuindo para a formação de novas formas de representação, como movimentos, enfim, entidades organizadas. Os partidos políticos, perdendo identidade e não mais correspondendo às condições políticas, sociais e econômicas da atualidade, tornaram-se, na expressão do estudioso alemão Otto Kirchheimer, catch-all parties( partidos de agarra tudo). Grupos de pressão passaram a substituir partidos por novos polos de poder, enquanto a democracia representativa transferiu parcela de sua força para uma “democracia supletiva”, fenômeno constatado na França no final dos anos 60, por ocasião da IV Legislatura (época do primeiro ministro Chaban-Delmas).
Sob essa moldura, ao lado de fenômenos como o cidadanismo, os novos circuitos de representação, a micropolítica, emerge a tendência de personalização do poder, que se concretiza na vida de personagens que assumem a identidade de “salvadores da Pátria” ou de figuras ímpares do círculo de negócios. Ante o descalabro da política, e com a sociedade de costas para a esfera representativa, surgem aqui e ali quadros que concentram as atenções de grupos populacionais.
Emanoel Macron apareceu na cena eleitoral da Franca como candidato independente. Fundou o Movimento Em Frente nos moldes de uma start-up, mobilizando contingente imenso de militantes. Da mesma forma, Yuriko Koije, mesmo pertencendo ao Partido Liberal Democrático, apresentou-se como independente para se eleger governadora de Tóquio. Constata-se por todo planeta propensão das bases eleitorais em deixar o tradicional abrigo partidário, até em virtude da falta de compromissos de partidos e de promessas não cumpridas, e se abrigar na sombra de pessoas que expressem ideia de renovação, assepsia, esperança de melhoria de vida do povo.

QUESTÕES OPERACIONAIS
Candidatos avulsos representam mais um fator de desestabilização da já combalida democracia representativa. Ao não integrarem os corpos partidários, contribuirão para o esfacelamento e perda de poder das siglas. É inimaginável pensar em candidato sem doutrina, sem programa, sem lição de casa a apresentar ao eleitorado. Imaginemos, portanto, que levantarão bandeiras e assumirão compromissos. Se seu ideario for semelhante ao de partidos com tradição? Como se apresentarão ao eleitorado? Se o programa apresentado ganhar o entusiasmo de eleitores, estará neles o germe de uma agremiação, na medida em que o elo de integração de conjuntos sociais será o engajamento a ideias. Ninguém oferecerá seu voto a um candidato avulso apenas por sua estampa, seu sorriso ou maneira de falar. Esse tipo de voto até pode ser dado, principalmente por estratos periféricos. Mas não vingará no tempo.
Há outras questões de natureza operacional: como os avulsos entrarão na partilha de recursos partidários para as campanhas? De pronto, infere-se que as candidaturas avulsas serão acolhidas com mais fervor por figuras de maior calibragem financeira. Ricos, afamados ou perfis com alta exposição midiática liderarão o ranking de visibilidade, elemento fundamental nos pleitos. Mesmo que tenham a visibilidade controlada no período eleitoral, ganharão um bom recall (lembrança) decorrente de sua vida profissional, como, aliás, é o que ocorre hoje com esportistas, quadros da TV e do rádio etc.
Não há como garantir que os candidatos avulsos levarão para o universo da política denso grau de inovação. Que inovação? Inovação por se apresentarem como caras novas? Inovação por não se abrigarem em partidos? Inovar, renovar ou reformar significa alterar formas, métodos, processos, atitudes políticas. Para tanto, terão de preparar cuidadoso discurso. Se a proposta se apresentar inviável, por absurdos que contiver, será rejeitada pelo eleitor. Que está votando mais com a cabeça e menos com o coração. Não se pense que a racionalidade que se expande no sistema cognitivo do eleitorado se voltará apenas para a aparência ou desenhos costurados com a agulha do marketing. Ou porque são candidatos avulsos. E mais: os bolsões periféricos, principalmente os mais carentes, continuarão a dar um voto de gratidão, pela obra intermediada pelo político da região.
A presumida independência de candidatos avulsos pode ser um tiro n’água.

ARTIGO V

O direitismo bonapartista contra a democracia

marcusiononiMarcus Ianoni – Cientista Político

O grande capital governa, mas, contraditoriamente, não reina em paz, pois o rei (o regime representativo) está nu, exibindo continuadamente em público sua reprochável mácula, novamente exposta na segunda rodada de denúncias da PGR contra o presidente Temer, desta vez abrangendo também dois de seus ministros mais importantes, todos suspeitos de obstrução da justiça e organização criminosa.
Nesse mar de lama, emergem do bloco heterogêneo da direita que induziu à atual deformação regressiva do Estado Democrático de Direito novas manifestações de autoritarismo social, com respaldo dos políticos, e, na esfera institucional, expande-se o bonapartismo, alastrando-se, preocupantemente, do Judiciário e demais instituições de controle até nada mais nada menos que a esfera militar. Os autoritarismos social e bonapartista reforçam-se mutuamente, embora essa dinâmica ainda não tenha um curso decidido. A crise de legitimidade é o centro de gravidade do direitismo.
A deposição de Dilma, feito embalado na onda conservadora-neoliberal, não tem logrado nem recuperar a atividade econômica e nem garantir a estabilidade institucional, dada a desavença entre o Judiciário e os dois outros poderes supremos da República. Apesar de haver governabilidade, graças à aprovação da agenda política e legislativa do Palácio do Planalto sob o guarda-chuva do presidencialismo de coalizão, o sistema político carece de legitimidade. As maiores evidências disso são a rejeição ao presidente Temer, nesse caso praticamente unânime, e aos três principais partidos governistas: PMDB, PSDB e DEM, estes repelidos por nada menos que 75% dos entrevistados, conforme a mais recente sondagem de opinião, encomendada pelo próprio partido do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
A perseverança da instabilidade trouxe novamente à cena a direita social. No início de setembro, foi fechada, após protestos do MBL, a exposição do Santander Cultural, em Porto Alegre, dedicada a temas LGBT. Recentemente, ocorreu forte reação contrária a uma performance de nudez artística no MAM-SP. Tais fatos, entre outros (como a questão da “cura gay”) representam um avanço do conservadorismo e da intolerância da direita social e política no plano da cultura e do comportamento. O prefeito João Dória (PSDB-SP), por exemplo, acaba de publicar um vídeo criticando as duas referidas manifestações e defendendo a censura delas. Não por acaso, esse notório antipetista é virtual candidato à sucessão presidencial de 2018, agenda eleitoral que várias forças progressistas têm colocado em dúvida sobre se realmente será cumprida. Segundo a última pesquisa do Datafolha sobre para a corrida eleitoral que se avizinha, Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que também corre em raia da direita raivosa, aparece em segunda posição com 16% das preferências, 20 pontos atrás do arquitemido líder Lula.
Mas o direitismo não para por aí. Com a falência do Estado, que no Rio de Janeiro é paroxística, a política de segurança pela via das tropas federais do Exército ocupou territórios para combater o tráfico de drogas, ainda que em parceria com as polícias locais e em contexto do grande evento Rock in Rio. A paz dos moradores da Rocinha fica associada à presença dos tanques de guerra. A retirada dos militares trás de volta a sensação de insegurança à comunidade dos pobres e excluídos e de seus vizinhos privilegiados da zona sul carioca, como um virtual saldo político do autoritarismo em emersão lenta, gradual e segura.
Entrementes, os generais Hamilton Mourão e seu superior e comandante do Exército, Eduardo Villa Bôas, já admitiram entrar em ação para, nas palavras deles, evitar mais caos, saneando o problema da corrupção no sistema político, expressão de outra falência, a da liderança no sistema representativo democrático realmente existente. O bonapartismo militar surge como outro ingrediente autoritário da crise, como um salvacionismo em busca de apelo popular para restaurar a ordem. Não se esqueça que, nas manifestações de 2016, houve cenas de identificação mútua entre a direita das ruas e as polícias militares que fizeram a segurança dos protestos, nem que há saudosismo da ditadura entre uma minoria da opinião pública e que o apoio à democracia tem caído em toda a América Latina.
Ademais, como já apontado nessa coluna (e. g. 20 dez. 2016), o ativismo do sistema jurídico-policial (Operação Lava Jato, MPF, Polícia Federal, STF) abriu seu caminho de ação no processo político conjuntural um tanto quanto motivado pela vontade de passar o país a limpo e inaugurar uma nova etapa da história nacional. Até recentemente, esse ativismo era a principal manifestação do bonapartismo decorrente da crise de legitimidade que desequilibrou a balança de força entre os Três Poderes em benefício do Judiciário. Sua mais recente manifestação foi a inédita decisão da primeira turma do STF de afastar Aécio Neves (PSDB-MG) do cargo e o submeter a recolhimento noturno, o que causou inúmeras reações contrárias no Congresso Nacional, principalmente no Senado, e renovou a tensão entre, por um lado, o Legislativo e o Executivo e, por outro, o Judiciário. O nada exemplar senador mineiro é uma importante liderança governista. Ainda que não tenha havido cassação do mandato de Aécio, a prerrogativa para afastamento de cargo representativo cabe constitucionalmente ao Congresso, de modo que a tese do bonapartismo judiciário é plausível por mais esse fato.
A economia continua muito mal das pernas. O colapso do Estado brasileiro e a adesão à disciplina de mercado servem à penetração do capital internacional, os chamados “investidores”, por via indireta e direta e por políticas macroeconômicas e microeconômicas, como o teto de gastos pró-rentismo na política fiscal, a reforma trabalhista, o reforço à dependência nacional pelo estímulo ao investimento externo direito, a desnacionalização do pré-sal e, a depender apenas da vontade dos ultraliberais, da infraestrutura, facilitada pelos acordos de leniência prejudiciais às grandes empreiteiras, e não ao patrimônio de seus proprietários enquanto pessoas físicas e assim por diante.
Feitas as contas, temos uma crise econômica, política e institucional. Governabilidade, mas não legitimidade. Um presidente muito fraco perante a nação, mas servil ao poder econômico. Se, por um lado, ele se esforça para atender à demanda do mercado por previsibilidade, tem também havido muita incerteza na esfera política e institucional, que nutre a expansão do autoritarismo social e político, inclusive por sinais de contágio militar do ímpeto bonapartista até então presente no Judiciário. A democracia, golpeada e submetida às rédeas oligárquicas das elites políticas e do grande capital com a deposição de Dilma, prossegue com a saúde fragilizada.

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