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População de baixa renda é tratada como sub-raça na Guiana Francesa

A população da Guiana Francesa, território ultramarino da União Europeia espremido entre o Brasil e o oceano Atlântico, se organiza para lutar pela independência

Acompanhem os depoimentos de Ninsey Kramer e Jean Georges Maïas:

Depoimento de Ninsey Kramer
Faço parte da delegação do MDES (Mouvement pour la Décolonisation et l’Emancipation Sociale, sigla em francês para Movimento para a Decolonização e Emancipação Social), um partido político pela independência e autonomia de nosso território, a Guyane.
Nesse momento vivemos uma crise social. Se nós buscarmos entender os problemas da Guyane hoje, vemos sem dificuldade que tudo está relacionado a nossa total dependência com relação à França. Claro que sabemos que a independência não resolverá todos os problemas, mas o plano de fundo de todas as questões sociais e políticas na Guyane é esse, a colonização. Como vimos falando ao longo do Fórum, somos o último país ainda colonizado na América do Sul.
Junto a eles, houve uma revolta contra a proposta de venda de um hospital público para uma entidade privada, enquanto temos um sistema de saúde totalmente ineficiente. Quando as pessoas foram às ruas começaram a se dar conta que viviam os mesmos tipos de problemas. Além disso, a situação com a saúde se repete com a educação, uma enorme falta de escolas e colégios.
A França diz: “Sim, trata-se um departamento francês, como todos os outros”. Lá eles dizem, o que mesmo? [Fala em tom algo jocoso e com desdém, como se tivesse mesmo esquecido] Liberdade, Igualdade, Fraternidade? Tudo isso não existe na Guyane. Não podemos dizer isso se não existem escolas para as crianças. Enquanto país, a França reconhece apenas um povo. O que não faz sentido na Guyane, pois temos que reconhecer os povos autóctones, e também os Bushinengués [descendentes de pessoas escravizadas que se revoltaram contra os colonizadores e fugiram para a floresta. Quilombolas em português]. Esses povos não são reconhecidos pela França.
Como devolver a Terra que lhes foi roubada? Não se reconhece nem mesmo a colonização. Hoje 90% do território guianês pertence ao Estado Francês. Assim, não podemos gerir o nosso próprio território. Para construir uma escola, por exemplo, temos que pedir a autorização de Paris. Tudo o que nós queremos fazer tem que passar por Paris.
Também tudo o que diz respeito à produção alimentícia passa pela França. Mesmo aquilo que é produzido em países vizinhos como o Brasil e o Suriname. Estão ao nosso lado. Somos vizinhos. Mas todas as frutas, carnes, verduras, tudo é enviado primeiramente a Paris e depois volta para a Guyane. Parece uma aberração, mas é exatamente o que vivemos no dia a dia.
Devido a essas situações que estamos em uma luta por autonomia, para nos autogerir. E claro, como a França é um país igualitário [aqui seu tom irônico fica evidente], obviamente nós pagamos os mesmos impostos que os cidadãos franceses. Outro problema é que a República Francesa não leva em conta os clandestinos que vivem no território da Guyane. Oficialmente temos 250 mil pessoas, mas na realidade há muito mais, e não temos meios para acolher os imigrantes.
Diz-se que a França é um país que respeita os direitos humanos, que todas as crianças, ainda que ilegais, que estejam em território francês tem direito à escola… mas aqui não temos escolas suficientes nem mesmo para os cidadãos reconhecidos. Temos gente que imigra dos lugares mais distintos: Brasil, Suriname, Haiti, Guyana [a ex-colônia britânica], São Domingo… muitos lugares diferentes.
Trata-se de um projeto canadense. Vão utilizar arsênico, para poder juntar ouro. O que piora ainda mais a situação dos rios nessa região, já crítica por conta dos garimpeiros ilegais que contaminam os rios com mercúrio. Temos inúmeros casos de populações indígenas que estão sendo envenenadas com mercúrio, tanto na água que tomam como no peixe que comem. Esse projeto é praticamente um assunto tabu. Nunca se discute ele de maneira aberta na França, e entretanto trata-se de uma das maiores minas de ouro do mundo.

ATIVISTA – Jean Georges Maïas, técnico de informática. Membro da delegação do MDES (Foto: Fábio Zucker)

Depoimento de Jean Georges Maïas
Como estamos ”na França”, existem algumas ajudas do Estado para parte da população. E como as pessoas sabem que na Guyane tem educação e escola asseguradas pelo Estado, ainda que insuficientes, emigram para isso. Mas essa população não é oficialmente contada. Para vir do Brasil, por exemplo, basta cruzar um rio. De modo que tudo o que é feito na Guyane é levando em conta números que não condizem com a realidade. Então, quando se decide pela construção de hospitais e escolas com base nos números oficiais, estes já estão obsoletos em relação à realidade. Tudo o que é feito na Guyane já é obsoleto. Nós estamos sempre tentando superar os atrasos. Não existe projeção, nem planejamento… estamos sempre tentando superar um certo atraso…
As leis que são votadas na França são imediatamente aplicadas na Guyane, sem nem se debater a sua aplicabilidade. São leis parisienses que são diretamente aplicadas sobre território amazônico. Por conta dos tratados de livre circulação de pessoas, gente de toda e Europa pode vir trabalhar na Guyane. Um italiano, um francês, um alemão, um romeno…
Durante os protestos, os motoristas de caminhão se revoltaram e fecharam todos os cruzamentos da cidade. Os portos também foram fechados. Muita gente ficou preocupada, porque achava que não teríamos mais comida… Mas o ponto é que vivemos uma situação fora do normal. Tomemos como exemplo os pratos guyaneses mais tradicionais, todos levam feijão vermelho. E eles são produzidos na região francesa da Bretanha. Nossa economia é, então, baseada em importar tudo… nós não produzimos absolutamente nada. Assim, se bloqueamos o porto, tudo é bloqueado. Esta é uma forma de mostrar a necessidade absoluta de autonomia de nosso território. Temos a possibilidade de criar muitas coisas na Guyane, de produzir nossos próprios alimentos.
Hoje, os interesses sobre a floresta são interesses que vem de fora. O MDES se desenvolve majoritariamente na costa. Mas mesmo na Amazônia, tivemos povos que se juntaram aos bloqueios, e barraram a circulação de barcos nos rios com as suas canoas…
Se no litoral nós temos problemas, no interior, dentro da floresta, a situação é ainda pior, já que o modelo francês aplicado em nada condiz com a realidade dos povos que ali vivem.
Quando na França falam em ”Educação para Todos”, o que está por trás é um projeto de desenraizamento das pessoas. Indígenas que não falam francês, quando vão à escola, e são obrigados a ir à escola, devem aprender uma língua que não é a sua, fazer cálculos matemáticos com trens e com frutas como maçãs e uvas que não existem em seus territórios… Isso tudo cria frustrações, e problemas incomensuráveis.
Resulta que das imposições de leis francesas em um território que pouco partilha uma realidade com a de Paris temos um altíssimo índice de suicídios em populações indígenas.
Eles vão às escolas no litoral, aprendem sobre a realidade francesa que em nada lhes diz respeito, e quando voltam as suas aldeias e comunidades se estabelecem relações conflituosas… que resultam também em problemas de ordem psíquica.
Para mim, o resumo da situação da Guyane é a tentativa de se impor um modelo de fora, que em nada se aproxima da realidade por nós vivida [neste momento penso em como a situação da Guyane é ao mesmo tempo excepcional, e um caso mais radical, extremo, de situações que ocorrem por todo o território amazônico, com a imposição de modelos de fora que servem a outros interesses, diversos dos das populações que ali vivem].
O Estado Francês não reconhece as populações indígenas e quilombolas; reconhece apenas um povo, o francês. Aprendemos que os nossos ancestrais são os gauleses. Uma criança na Guyane conhece melhor a geografia e os rios da França que os de seu território. Ele conhecerá a história de toda a Europa, e nada da América do Sul. A escola perde o seu sentido.

Morre, aos 70 anos, o trovador alucinado

Ícone, lenda, cantor, artista plástico e compositor, o cearense Antônio Carlos Belchior morreu na madrugada de domingo, 30, aos 70 anos, em Santa Cruz do Sul
GRANDE ARTISTA – Além de tornar-se um dos maiores representantes da Música Popular Brasileira, Belchior deixa uma vasta obra em várias vertentes das artes

“Eu decidi de repente e de um dia para o outro fui embora, sem documentos da escola e sem dinheiro. As coisas foram bastante complicadas e difíceis porque além de não conhecer ninguém, eu tava com o orgulho do pobre: ‘Se é pra vencer, vou vencer de qualquer jeito'”, contou o compositor, em janeiro de 2004. À época da viagem, além da faculdade e do programa de televisão, ele era professor em escolas de Fortaleza. Belchior foi um dos cearenses a embarcar para o circuito “Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo”. Junto dele estavam Fausto Nilo, Teti, Rodger Rogério. Todos amigos e parceiros de música.
“Ele fez quatro anos de Medicina e disse para mim que não era aquilo que queria. O papai pediu muito para ele terminar, pois faltava só um ano. Ele disse que não, que iria viver de música”, conta Nilson Belchior, irmão do cantor. Por poucos dias, o compositor ficou hospedado com um tio. Depois, fez morada na casas de amigos, apartamentos em Copacabana, circuitos culturais. Da capital carioca, seguiu para São Paulo. Lá, firmou residência e sucesso. Casou e teve filhos.

A infância em Sobral
Belchior teve uma infância de menino livre, que roubava ata no quintal do vizinho, louco que era pela fruta. O pai era comerciante – “um bodegueiro”, como disse em janeiro de 2004 – e cada irmão tinha que se virar. “Então, eu fazia máscaras de Carnaval, pegava galinhas, pombas…”, revelou. É o terceiro filho do casal Dolores Gomes Fontenelle Fernandes e Otávio Belchior Fernandes. “Eu passei minha infância em Sobral e posso dizer que minha vida lá foi a base pra tudo. Foi lá que eu vi a arte das igrejas, os mestres, as bandas de músicas. Todas essas coisas que foram significativas na minha infância, durante o período dos meus estudos, que foi a coisa mais importante que aconteceu”, disse Belchior.
À época, o menino já demonstrava tendência para as letras, as artes e a filosofia. Era apaixonado por livros, por bibliotecas e por todo tipo de leitura — lembra Nilson Belchior, irmão do cantor. Advogado aposentado, Nilson lembra que o garoto “se destacava das outras pessoas pelo intelecto apurado”. Ainda adolescente, substituía os professores de matemática, história e português. Gostava dos autores clássicos, da literatura erudita, dos idiomas estrangeiros. Tinha especial interesse por latim. Mais tarde, a inteligência rendeu vaga no Liceu do Ceará, no Seminário de Guaramiranga e o primeiro lugar no vestibular de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Foi no Liceu que Belchior conheceu Fausto Nilo, que ele definia como “meu parceiro e grande compositor brasileiro”. Naquele tempo, nenhum dos dois pensava na música como carreira. O jovem Fausto, hoje um renomado arquiteto, gostava de desenhar. Já Belchior continuava com leituras afiadas sobre temas humanos. Juntos, eles caminhavam pela rua Liberato Barroso, até o Centro, para ir ao cinema. “No primeiro científico, ele não apareceu. Não se matriculou. E desapareceu”, lembra Fausto Nilo.
O arquiteto terminou os estudos da escola sem a presença do companheiro de caminhadas. Em 1962 ou 1963, na rua Major Facundo, escutou uma voz: “Fausto, como vai?”. Era Belchior, com roupas de frade. “Ele me deu muitos conselhos de como conduzir minha vida. Fiquei desorientado. Era meu amigo com aquela compenetração. Fiquei parado. Ele foi andando no rumo da Duque de Caxias e eu fiquei olhando muito tempo. Até que ele desapareceu”, recorda Fausto.

Bom de papo
Belchior era um sedutor, diz a cantora Amelinha. “Com sua voz rouca, sua conversa afiada, agradável, divertida, e com seus abraços carinhosos. Um sedutor com jeito de índio, meio santo e meio profano, acho que pelo fato de ter estudado filosofia com os frades e estudado Medicina, mais o talento pessoal. Ele tinha uma facilidade de criar e recriar histórias. A mesma história ele contava de formas diferentes. As mulheres se derretiam e os homens ficavam fascinados com sua performance elegante”, aponta a intérprete que gravou uma música do amigo no disco Janelas do Brasil (2011).
Por trás do mito há um intelectual que traduz do grego para o inglês, lê Dante Alighieri, é fluente em língua latina e se apaixonou pela sonoridade dos Beatles. Por trás do mito há um homem de conhecimentos teológicos e fluente em latim. Tota Batista, amigo e ex-sócio de Belchior, lembra do bem-querer do compositor pela terra natal, Sobral, para onde o acompanhou em várias ocasiões. “Ele contava histórias com medo de eu dormir na direção. Às vezes, pegava o violão, botava os pés no painel do carro e tocava Fagner, Ednardo, Bob Dylan”, conta Tota.

Como você conheceu o Belchior?
Amelinha – Foi por volta de janeiro de 1971, já morando em São Paulo. Mas tive que voltar em dezembro a Fortaleza, pois meu pai havia falecido em dezembro. E digo isso porque, 15 dias depois, Ricardo Bezerra, que tinha sua família muito amiga da família do meu pai, me convidou para fazer um programa de televisão na TV Ceará. Então, fui conhecendo todos os cantores e compositores cearenses nos dias que se sucederam. No bar do Anísio, bar do Gerbô, ao lado da TV, nas rodas dos culturais. Agora, precisamente o dia (que conheci o Belchior) acho que é melhor perguntar a ele que tem uma memória espetacular e até me disse um dia um macete: “Amelinha, procura não esquecer muito as coisas ruins, pois você acaba esquecendo os detalhes das boas neste processo de se livrar de más lembranças”. Questões da mente. E acho que ele tem toda razão e faz sentido.

Como era esse Belchior que você conheceu ainda iniciando uma carreira na TV, em Fortaleza?
Amelinha – Cheio de charme, já seduzindo as platéias bem menores, ou seja, pessoas que ia conhecendo, com sua voz rouca, sua conversa afiada, agradável, divertida, e abraços carinhosos. Um sedutor com jeito de um índio, meio santo, meio profano. Acho que, pelo fato de ter estudado filosofia com os frades e estudado medicina, mais o talento pessoal. Ele tinha uma facilidade de criar e recriar histórias. A mesma história ele contava de formas diferentes. Aqui já estou falando também de São Paulo, quando havia os saraus na casa dos bacanas, dos mecenas, dos produtores, etc. As mulheres se derretiam e os homens ficavam fascinados com sua performance elegante. Distinta, como diria o matuto. E ele sempre soube ouvir e dar atenção às pessoas.

Como foi a gravação do disco Pessoal do Ceará, de 2002, que reuniu você, o Belchior e o Ednardo?
Amelinha – Fui convidada por eles. Nesta época, eu morava num sítio em Niterói (Rio de Janeiro), em Pendotiba, tipo um rural dentro do urbano. E convidei Ednardo para um almoço na minha casa que eu mesma preparei. Lá era um lugar muito agradável em que eu recebia muitos amigos da música, literatura e jornalistas. O propósito era conversarmos sobre o repertório. Na verdade, é um disco autoral onde uma cantora, amiga e da turma boa, é convidada. Antes estive na casa do Ednardo pra ver os termos do contrato. Achei super legal, muito significativo e verdadeiro por tudo que já tínhamos vivido juntos. As músicas foram escolhidas e definidas por eles. E, pra mim, foi uma alegria participar. A produção é de Robertinho de Recife.

Como foi esse encontro de amigos no estúdio?
Amelinha – Foi muito prazeroso pegar os tons com Robertinho e definir a parte onde cada um entrava quando era trio, quando era dupla e quando era solo – no caso, quais músicas cada qual cantaria sozinho. Foi tudo bem tranquilo. Bel estava num humor maravilhoso, demonstrando uma maturidade bonita e segura. Ednardo sempre falando coisas bem (do movimento literário) Padaria Espiritual. E Robertinho feito um mago desenhando e estruturando a edificação do projeto, brilhantemente e pacientemente. Ele fez com muito amor.

Na capa desse álbum vocês estão dividindo uma mesa, o que remete aos tempos de boemia. Onde elas foram feitas?
Amelinha – As fotos de capa e para divulgação foram feitas numa produtora em Laranjeiras e ficaram chocantes de boas. Foi uma tarde maravilhosa.

E por que esse projeto não seguiu com shows e novas edições?
Amelinha – No momento da divulgação é que foi abortado o plano de vôo por parte da gravadora. Me parece que por discordâncias entre Ednardo e a gravadora. Nunca entendi muito bem . Mas penso que houve alguma precipitação por parte do Ednardo. Ao meu ver, é preciso muito jogo de cintura nessas horas e o mais importante é não deixar a peteca cair. Suprimir egos e por aí vai. A diretora de imprensa me ligou no hotel em São Paulo me comunicando que iriam parar com a divulgação, o que foi uma pena. Mesmo assim, é um projeto lindíssimo e penso que pode ser reeditado a qualquer momento o que é bem melhor agora do que depois. É um projeto campeão e que vendeu tudo que tinha, todo o estoque. E tanto saia como venderá muito mais, tenho certeza disso. às vezes acontecem coisas que, na verdade, são derivadas da adrenalina do processo . Principalmente num projeto de tal importância como este. Portanto, o que vale mesmo é o essencial. É maximizar o positivo.

O que você acha do disco Alucinação, que está completando 40 anos?
Amelinha – Nossa, maravilhoso! Há algumas semanas, falando na FM Universitária, pela comemoração de seus 40 anos, pedi, como ouvinte, pra que tocassem Alucinação. Como faz tempo que não ouço, nem vou poder detalhar mais. Mas seria desnecessário.

O Belchior faz parte de um trio de compositores que marcou a música cearense a partir dos anos 1970. Como você compara o papel de cada um deles como músico, pessoa.
Amelinha – Eles se completam. São titãs.

Com exceção do coletivo Pessoal do Ceará, por que você só foi gravar Belchior no disco Janelas do Brasil?
Amelinha – Sabe que eu também me pergunto isso? Mas, além da minha ressente gravação no Janelas do Brasil, pretendo gravar mais. Inclusive vai ser uma que ele me sugeriu que gravasse.

O que você pensa sobre esse desaparecimento do Belchior?
Amelinha – Ainda não cheguei a uma conclusão nas minhas conjecturas.

Qual foi a última vez que você esteve com ele?
Amelinha – Num show em Juazeiro do Norte e acho que depois em 2007, num show que iríamos fazer em Belo Horizonte. Eu e minha banda, ele e sua banda e Renato Teixeira e sua banda. Mas o produtor local fugiu com o dinheiro. Foi um Deus nos acuda!

Como foi a história de você ter encontrado um carro do Belchior?
Amelinha – Fui a Recife, por volta de 2010, fazer um show numa casa chamada Manhattan e o dono da casa fez questão de ir me buscar no aeroporto pessoalmente. Então, saímos conversando pra o estacionamento e eu olhei assim para o lado direito e, entre muitos carros, tinha uma Mercedes bege toda empoeirada com coisas escritas nos vidros, no carro total, até na capota. E, de longe, falei “parece o carro do Bel”, pois eu já havia andado com ele em São Paulo. Aí o meu amigo disse: “É o carro do Belchior”. Fiquei emocionada. Me aproximei e tinha escrito, entre outras coisas, “Volta Bel”. Pra você ver a força do cara.

Do que mais você sente falta no Belchior? Acredita que ele volta a retomar a carreira?
Amelinha – Dele mesmo, de saber que ele está por perto, com aquele cachimbo, suas pinturas, sua presença marcante e amiga. Penso que ele volta. Quero que ele volte. Torço para ele voltar e, quando isso acontecer, vai ser mega!

A trajetória
O ano de 1976 foi decisivo na carreira de Antonio Carlos Belchior. Então com 29 anos e morando em São Paulo, ele já trazia na bagagem os compactos Na Hora do Almoço e Sorry, Baby, além do primeiro álbum, chamado Belchior, de 1974. Na curta trajetória artística, o compositor tinha ainda no currículo a vitória no Festival Universitário da Canção Popular (1971), da TV Tupi, com a música Na hora do Almoço. Belchior, contudo, ainda não havia sido, de fato, projetado no País.
Foi Elis Regina quem mudou os rumos do jovem artista, ao incluir Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais no repertório do LP Falso Brilhante, lançado no começo de 1976. As músicas explodiram no País e, em maio daquele ano, também estavam no segundo LP de Belchior, o antológico Alucinação. O disco reverbera até hoje, 40 anos após sua concepção.
Além de Elis, o Alucinação foi realizado graças ao então produtor da gravadora Philips, Marco Mazzola, que acreditou naquele cearense de voz anasalada e suas letras intrigantes. “Eu já produzia a Elis, tinha uma ligação muito grande com ela. Um dia, ela me mostrou algumas músicas do Belchior e eu falei que o cara era muito bom”, conta Mazzola.
O produtor, então, entrou em contato com Belchior, mandou passagens para que ele fosse ao Rio de Janeiro, e o restante é história. Por acreditar no material que tinha em mãos, Mazzola enfrentou os colegas de gravadora, que, a princípio, torceram o nariz para as músicas do sobralense. “Na minha cabeça, ele era um Bob Dylan brasileiro”. Em pouco tempo se veria que Mazzola havia acertado na aposta.
O guitarrista Rick Ferreira, que gravou com o letrista e cantor no disco Alucinação, é sintético: “Belchior compõe um estilo de música que foi minha formação de folk e rock. As letras têm muita semelhança com o Bob Dylan, trazendo o humor e as letras quilométricas”, disse. Do contato entre os músicos, surgiu, ainda, a composição chamada Meu Nome é Cem, na década de 1980. “A obra do Belchior é imortal. Tem muita gente, hoje, descobrindo as músicas dele, porque ele é um dos maiores e vai atravessar gerações”, constata.

Muito além do Alucinação
Belchior era conhecido por ser um compositor de poucas parcerias e isto fica muito claro no disco Alucinação, em que todas as 11 faixas foram feitas apenas por ele. Esse caminho quase solitário de composição se traduz em uma obra impregnada da personalidade do autor, que escreveu sobre suas memórias, seus sentimentos e suas impressões de mundo.
Pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), com tese e dissertação sobre a obra de Belchior, Josy Teixeira ressalta uma vastidão de referências que o poeta imprimiu em suas composições, como conflitos geracionais e ideológicos (Como nossos pais), a relação entre o regional e o nacional no Brasil, as questões migratórias entre o campo e a cidade (Monólogo das Grandezas do Brasil) e o papel do jovem e do povo brasileiro num cenário mais amplo da América Latina.
“Para além dos temas políticos, encontramos outros mais filosóficos (Divina comédia humana) e que envolvem a relação do homem com a religião (Coração selvagem, Conheço o meu lugar) e com a ciência (Fotografia 3×4)”, analisa.
Arquiteto e letrista, Fausto Nilo acredita que no grupo de compositores surgido na geração deles, Belchior foi o melhor letrista. “Ele era uma pessoa intelectualmente densa e, também, muito pragmática, no sentido interessante, o de entender a realidade. Eu acho que, como letrista, ele era um pouco cínico. Eu também sou”.

Curiosidades
> A gravação do Alucinação foram feitas em apenas três dias. Apenas um rapaz latino-americano foi o primeiro single, antes do lançamento do disco.
> O nome do álbum seria Apenas um rapaz latino-americano, mas Belchior e Mazzola viram que tinha muito a mais a ver botar o nome Alucinação.
> O fundo azul da capa do disco é parte de uma pintura que Belchior havia feito. Aldo Luiz foi o diretor de arte, Nilo de Paula ficou com o layout e Januário Garcia fez as fotos.

Compositor solitário
Oficialmente, a estreia profissional de Belchior se deu em 1971, com o lançamento do compacto Na Hora do Almoço, dividido com os intérpretes Jorge Telles e Jorge Neri. Nos 45 anos seguintes, sua discografia se dividiu entre alguns poucos discos de inéditas, projetos especiais – um trabalho revisionista dividido com Ednardo e Amelinha, e outro onde atuou somente como intérprete – e um caminhão de regravações e coletâneas. Se comparada à de contemporâneos, essa obra é curta e contou com a presença de poucos parceiros (são menos de 20 na discografia oficial e mais alguns espalhados em discos alheios). Não à toa, boa parte dessa obra é escrita em primeira pessoa.
No entanto, se foram poucos os parceiros de composição, foram muitos os companheiros de estúdios e palco. Ricardo Bacelar conheceu Belchior no fim da década de 1980, quando se apresentaram juntos no Pirata. Em meados da década seguinte, o pianista trabalhava em São Paulo e foi chamado pelo produtor Guti Carvalho para fazer a coordenação musical e assumir os teclados do disco Vício Elegante, álbum de intérprete do autor de Como Nossos Pais. “Ele estava se regravando muito e queria um disco de músicas inéditas. Mas, como não tinha nada interessante, ele gestou o disco experimentando com piano e voz. Cantava uma e cantava outra, desenhando o repertório pelos autores”, explica Bacelar que assinou com Belchior a faixa que dá nome ao disco. “Essa música a gente fez em 10 minutos, no estúdio. Ele já tinha a letra esboçada”, lembra.
Com uma sonoridade que puxa para um pop contemporâneo, Vício Elegante trouxe releituras bem particulares para O Tolo (Roberto/ Erasmo), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Charme do mundo (Marina/ Cícero) e outros. Mesmo se apropriando de canções de outros, Belchior precisou de pouco tempo para dar voz ao repertório. “Ele é muito preciso, muito afinado. Tem até vozes do disco que é a original, de tão bonita que ficou”, revela Bacelar acrescentando que Belchior gostou de cantar com o arranjo que misturava sons orgânicos com eletrônicos. “A voz do Bel não precisava ser atualizada, só a sonoridade”, explica.
O gaitista Jefferson Gonçalves também trabalhou com o sobralense, mas de uma forma diferente. Fã do compositor e do disco Alucinação, o carioca teve sua primeira experiência profissional quando foi chamado para fazer um solo de gaita no disco Um Concerto Bárbaro. Com voz e cordas gravadas ao vivo, a participação de Jefferson foi feita em estúdio. “O produtor me chamou pra gravar e queria um clima de ao vivo, algo mais próximo do que eles estavam fazendo ali. Então, eu fiz uns improvisos em cima da voz dele”, lembra o carioca que só foi conhecer o “parceiro” tempos depois, no Dragão do Mar. “Ele elogiou a gravação e ficamos conversando ali sobre música”.
Há um consenso entre os músicos ouvidos sobre a responsabilidade e cuidado profissional de Belchior. Pontualidade, disponibilidade, facilidade de ouvir e aceitar sugestões. No entanto, parte dessas qualidades foram se perdendo à medida que o rapaz latino-americano se aproximou da produtora cultural Edna Assunção de Araújo, que assinava Edna Prometheu. Eles se conheceram em São Paulo, quando ela dividiu com Belchior o desejo de realizar uma exposição em Fortaleza em homenagem ao artista plástico Aldemir Martins.
Antes de acompanhar Belchior num jogo de gato e rato envolvendo família, jornalistas e a Justiça Brasileira, Edna assumiu os papeis de namorada e assessora do compositor. E foi aí que começaram a surgir alguns problemas. Relação distante com os músicos, atrasos nos pagamentos e saídas furtivas depois dos shows passaram a ser comuns. O guitarrista Mimi Rocha esteve ao lado de Belchior em diversos shows. Mesmo informalmente, chegou a assumir a direção musical em algumas oportunidades. “Uma vez, fomos fazer um show na Taíba e foi maravilhoso. Depois, o prefeito de São Gonçalo até queria conhecer o Bel. A Edna chegou, mandou todo mundo pra vã e fomos pro hotel esperar o cachê. A banda levou o maior chá de cadeira e o prefeito também. No final, o Belchior não apareceu, ela veio com os cachês e pediu mais tempo para o prefeito, que acabou sem conhecer o Belchior”.
Artista plástico e ex-sócio, Tota Batista lamenta a forma como Belchior tratou a carreira nos últimos anos. Ele lembra saudoso de como o amigo era desapegado a certas formalidades. “Vi muitos artistas querendo gravar músicas dele e tinha aquele problema de encontrar. As pessoas me procuravam”, conta o amigo apontando que cansou de ver o compositor autorizando jovens artistas a gravarem suas músicas e chamando instrumentistas para improvisarem algo durante seus shows, sem ensaio nem nada. “Às vezes o cara ficava com vergonha, mas ele dizia que não tinha problema. Eu achava esse gesto muito humano”. E é essa imagem que Tota prefere guardar, a de um Belchior próximo de quem amava sua arte.

A Lírica do Trovador: Fotografia 3 x 4

Cursos livres são mais procurados do que os autorizados pelo MEC

Entre 2010 e 2011, o número de matrículas passou de 33% para 77% do total. Cursos livres são mais curtos e feitos para quem não faz questão do diploma
Reportagem: Renata Ribeiro
SEM DIPLOMA - Os cursos livres vão direto ao ponto, têm temas específicos e são mais curtos
SEM DIPLOMA – Os cursos livres vão direto ao ponto, têm temas específicos e são mais curtos

Os cursos de educação à distância que não precisam da certificação do Ministério da Educação e não dão diploma, os chamados cursos livres, estão sendo mais procurados do que os autorizados pelo MEC.
Thomas, atordoado pela descoberta da sexualidade, é o protagonista do primeiro roteiro da analista financeira Claudia Boff. O mais inusitado da história é a formação dela: contabilidade. Trabalha como analista financeira de uma empresa pública há mais de 20 anos. “Números, planilhas, gráficos, documentos, impostos, taxas, tributos”, diz Cláudia.
O curso de HQ mudou o roteiro das noites de Cláudia. Jantar, ver TV com a filha e, em vez de dormir, se dedicar a algo totalmente novo: um curso que ensina a escrever história em quadrinhos. “Acho que um contraponto com o que eu não posso criar na empresa, aí eu tenho que colocar em algum lugar essa vontade de criar aí eu busco esses cursos. Eu adorei”
A educação à distância está em alta no Brasil e uma pesquisa recente mostra que a procura por cursos livres cresce mais do que por cursos formais. Entre 2010 e 2011, o número de matrículas passou de 33% para 77% do total.
Cursos formais de graduação e pós-graduação são regulamentados pelo MEC. Ele define a grade curricular e exige avaliação presencial. Já os cursos livres vão direto ao ponto, têm temas específicos e são mais curtos. Feitos para quem não faz questão do diploma.
O presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância, Fredric Michael Litto, diz que a explosão dos cursos livres tem a ver com a realidade do mercado de trabalho. “Nenhum profissional, nenhum ramo de trabalho vai poder passar o ano sem fazer um curso de atualização e para não ter que trabalhar enquanto se faz essa atualização, você vai fazer o curso à distância”.
O cardápio de cursos livres vai de pesca a técnicas de odontologia. As aulas servem para quem ta começando a carreira, para quem quer treinar ou aperfeiçoar uma técnica, se atualizar, ou simplesmente aprender.
“Existem muito mais cursos livres hoje no mercado do que de graduação e pós-graduação e eu acho que existe interesse da população em cursos mais rápidos, que vão direto ao ponto”, fala o pró-reitor de educação à distância da Universidade Cruzeiro do Sul, Carlos Fernando Araújo.
“Consegui construir uma história em quadrinhos completa quadro a quadro detalhadamente. Eu penso em encontrar alguém que desenhe porque todo roteirista quer ver sua história desenhada”, conta Cláudia.

CURSO LIVRE DA USP SOBRE EMPIRISMO E PRAGMATISMO

Negro, marginal e rebelde: este é o perfil do próximo homenageado da Flip

Trata-se de Lima Barreto, um autor muito inventivo para o seu tempo, com uma trajetória de vida bastante acidentada
Reportagem: Rodrigo Casarin
LIMA BARRETO - Neto de escravos e filho de um tipógrafo, também atuou como jornalista em diversos jornais e revistas
LIMA BARRETO – Neto de escravos e filho de um tipógrafo, além de escritor, também atuou como jornalista em diversos jornais e revistas no Rio de Janeiro

A organização da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) confirmou o que todos já esperavam desde outubro, quando a jornalista Josélia Aguiar foi anunciada como a curadora da edição de 2017 do evento: Lima Barreto será mesmo seu próximo homenageado.
Em 2013, junto da tradutora Denise Bottmann, Josélia (veja aqui mais da entrevista que fiz com ela) encabeçou uma campanha para que o autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, “Numa e Ninfa”, “Vida e Morte de M. J. Gonzaga” e do famoso conto “O Homem que Sabia Javanês”, dentre outros, fosse o homenageado da edição de 2014 da Festa. No entanto, as mais de mil assinaturas que colheram em um abaixo-assinado não foram suficientes para comover a organização, que optou pelo nome de Millôr Fernandes.
Agora, enfim, chegou a vez de Lima Barreto. “É um autor que abre muitas possibilidades. É preciso reconhecer, em primeiro lugar, sua inventividade literária. Depois, em torno de sua vida e obra podemos discutir grandes temas, como o poder, o preconceito de cor, uma certa visão de Brasil, a imprensa, as trajetórias que estão à margem, as intersecções entre literatura e política, literatura e loucura, a cidade e seu habitante. Na história e crítica literária, Lima Barreto pode ser um divisor muito interessante, ainda mais se pensar que há toda uma linhagem que parece seguir sua trilha, como o Jorge Amado, e, inegavelmente, o João Antônio”, diz Josélia.
Segundo a curadora, o nome de Barreto também ajuda a colocar em pauta questões relacionadas ao Brasil e ao mundo de hoje. “Acho que é imensa [a importância da obra dele para o momento que vivemos]! Sobretudo diante do noticiário recente, quando a intolerância vai ocupando um espaço inimaginável para o nosso tempo. Retrocedemos, talvez. Existe outro ângulo para se ver as coisas. Nas redes sociais um ativismo muito bem-vindo para que haja mais visibilidade para autores negros e autoras mulheres. A diversidade é um foco grande na programação da Flip 2017”.

História com Jorge Amado
Desde que foi anunciada como substituta de Paulo Werneck, Josélia jamais negou que Lima Barreto era mesmo seu nome favorito. Ela passou a conhecer melhor a obra e a trajetória do escritor enquanto escrevia a biografia de Jorge Amado, grande fã de Barreto. Ao investigar as razões de toda aquela admiração, encontrou a história de um carioca negro, pobre e rebelde, que sofria muito com o preconceito e que conseguiu construir uma grande trabalho literário, marcado pelo pela escrita considerada simples para os padrões da época, por transpor para ficções muito dos figurões da sociedade em que vivia e por colocar em evidência tipos excluídos socialmente. Assumia que sua escrita visava incomodar e atacar os mais poderosos e pode ser encarado como um autor que fez “literatura marginal” muito antes do próprio termo existir.
“Quando comecei a pesquisar para a biografia do Jorge Amado, me dei conta do quanto ele admirava Lima Barreto na juventude. Amado fizera parte da Academia dos Rebeldes, uma geração de poetas, escritores e etnógrafos baianos que se diziam ‘modernos sem ser modernistas’. Essa Academia dos Rebeldes tinha como mentor um poeta satírico chamado Pinheiro Viegas, que vivera um tempo no Rio na turma do Lima Barreto. Então tive necessidade de ler mais Lima Barreto, que eu só conhecia da época de escola, como quase todo mundo. Descobri um autor muito inventivo para o seu tempo, com uma trajetória de vida bastante acidentada, visto sempre numa aba de ‘literatura social’ que parecia apequená-lo. Para além da biografia que desperta tanta curiosidade, é preciso reconhecer seu valor literário”, recorda.
Josélia também conta que, ao ser convidada para a curadoria, houve uma consonância com a organização para a escolha do autor homenageado. “A Flip gosta de surpreender. Desta vez, houve um entendimento de que a surpresa seria justamente confirmar o nome do Lima Barreto. Desde as primeiras conversas que tive com Mauro Munhoz [diretor da Casa Azul, que organiza o evento], mesmo antes de ser anunciada curadora, falei que era o autor que precisava imediatamente estar em evidência. A Flip sempre tem um conjunto de nomes possíveis para homenagear, então a boa coincidência é que chegou a hora do Lima Barreto justamente quando empresto o meu entusiasmo à programação”.

Sobre Lima Barreto
Neto de escravos e filho de um tipógrafo, Lima Barreto nasceu em 1881 e só teve uma boa formação porque a família era próxima de um ministro do Império. Atuando como jornalista, publicou textos de diversos gêneros em jornais e revistas. Em uma delas, a “Floreal”, da qual foi fundador e diretor, lançou os primeiros capítulos de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, história na qual trata do racismo e da exclusão social e que viraria livro em 1909. Dois anos depois, no “Jornal do Commercio”, publicou “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, seu romance mais famoso. Nele, um major extremamente nacionalista luta, dentre outras coisas, para que o tupi se torne a língua oficial do país. A versão em livro, contudo, só saiu em 1915, com o próprio autor bancando a edição.
Antes disso, por ser alcoólatra e depressivo, já tinha passado uma temporada internado em um hospício, para onde voltaria em algumas outras ocasiões ao longo da vida, o que lhe serviria de base para escrever diários e o romance “Cemitério dos Vivos”, que jamais chegou a concluir. Desprezado pelos seus colegas de escrita da época, tentou mais de uma vez entrar para a Academia Brasileira de Letras, mas sempre foi recusado. Muito de sua obra só chegou ao público depois de sua morte, em 1922, aos 41 anos. Pesquisadores como Francisco de Assis Barbosa que a partir da década de 40 começaram a resgatar muito do que Lima Barreto tinha escrito e perigava se perder para sempre, como o livro “Clara dos Anjos”, publicado em 1948.

A Cabanagem em Macapá, Mazagão e Santana

Por: Edgar Rodrigues – Jornalista e Historiador
MEMORIAL À CABANAGEM - O museu em homenagem aos revolucionários foi projetado pelo renomado arquiteto Oscar Niemayer
MEMORIAL À CABANAGEM – O museu em homenagem aos revolucionários foi projetado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer

Sobre a participação de Macapá, Mazagão e Santana no combate aos cabanos, vejamos o relato do geógrafo Antonio Carlos: 1
No período de expansão dos conflitos provocados pela Cabanagem na região, o espaço amapaense se configurava principalmente como palcos de resistência a esse movimento social, considerado como um dos mais notáveis de nossa história, já que foi a única insurreição em que as camadas populares conseguiram ocupar o poder durante um espaço razoável de tempo.
Macapá, Mazagão e Santana, por terem sido núcleos de povoamento feitos através de colonos deslocados das possessões territoriais portuguesas na Africa, apresentavam oligarquias locais com forte lealdade ao Estado conservador remanescente da Coroa portuguesa que havia se instalado no país após 1822, com o processo de Independencia.
Essas oligarquias, que constituíam uma minoria privilegiada, passaram a mobilizar seus recursos e capital para o fortalecimento da resistência aos cabanos, impondo a esse movimento duras baixas, já que o mesmo procurava destruir as bases da dominação política e econômica desta elite regional. Dessa maneira, Macapá e Mazagão passaram par a a história como burgos que combateram os cabanos despossuídos em defesa da legalidade das classes hegemônicas do Império.
Nesse período, os franceses tentaram tirar proveito da situação de conflito e instabilidade na região instalando uma fortificação em um dos lagos do município de Amapá, e a partir daí passaram a dar apoio ao movimento cabano. As ações francesas no Amapá provocaram reações da Capital (Rio de Janeiro), sendo que, como forma de retaliação, a população começou a evitar a compra de produtos originários da França. Diante de tais pressões, o governo Frances retirou suas tropas do Amapá em 1841, tendo os dois países concordado em transformá-lo numa região contestada, passando a ser administrado por um representante do governo brasileiro e outro do governo frances. A desorganização política e econômica da área do Contestado o tornou palco de movimentos separatistas. Um deles foi a fracassada tentativa de independência, quando foi transformado em Republica do Cunani (1885-1887) através de um movimento licerado por um aventureiro frances conhecido como Jules Gross. Este ultimo fato intensificou as pretensões francesas na área.
O desrespeito ao acordo de neutralização por parte dos franceses, principalmente com a descoberta de ouro em Calçoene, motivou sérios conflitos no final do século XIX, estremecendo as relações diplomáticas entre Brasil e França. 2

Notas históricas sobre a reação à Cabanagem:
15 de agosto de 1823 – Os vereadores de Macapá e Mazagão fazem o juramento, em obediência ao novo regime do governo imperial do Brasil, após a Independência. Ver documento.
01 de abril de 1824 – A Junta Provisória envia circular ao governo da vila de Macapá, fornecendo instruções que deverão ser observadas no combate aos cabanos nessa região. Ver documento.
15 de maio de 1824 – A Junta Provisória do Governo de Santarém envia instruções ao governador interino de Praça de Macapá, João Baptista da Silva, para serem observadas durante o combate aos cabanos em Macapá. Ver documento.
7 de janeiro de 1835 – Felix Antonio Clemente Malcher assume no Pará um governo revolucionário, e Bernardo Lobo de Sousa, presidente da Província, é assassinado. Começa o período cabano. Macapá e Mazagão rejeitam o novo governo. Alguns cabanos começam a se fixar no Amapá.
27 fevereiro de 1835 – O juiz de Direito e promotor público de Macapá decide apoiar a decisão da Câmara do Senado em resistir à Cabanagem que ocupou as cidades de Belém e Vigia.
19 de abril de 1835 – Reunidos, os vereadores de Macapá decidiram não aceitar a moeda de cobre criada pelos cabanos que governavam o Pará. Em vista disso, a guarnição da Fortaleza de Macapá não recebia seus saldos há sete meses. Preocupado, o capitão Joaquim Romão de Almeida levou o problema ao juiz de Direito Francisco Valente Barreto e ao promotor Estácio José Picanço. Ver 24 de abril de 1835.
22 de abril de 1835 – Uma comissão de cinco membros, escolhidos em sessão realizada nesse dia, apresenta à Câmara de Macapá o plano de defesa da vila contra os cabanos. O presidente da Província do Pará delega autoridade ao juiz de Direito Manoel Gonçalves Azevedo para presidir a comissão, que era composta por dois capitães (Joaquim Romão de Almeida e Francisco Valente Barreto), pelo promotor público Estácio José Picanço e mais outros dois, para organizarem o plano. A comissão consegue a nomeação do tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos com comandante militar de Macapá.
18 de maio de 1835 – Chega à vila de Macapá o tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos para comandar a Praça de Macapá. Ele passa a ter, a seu comando, um reforço de seis capitães, seis tenentes, seis alferes, um sargento-ajudante, um sargento-quartel-mestre, 103 sargentos, 205 cabos e 315 soldados.
27 de agosto de 1835 – Reúnem-se na Câmara de Macapá as autoridades civis, militares, eclesiásticas e a população em geral, para encontrarem estratégias de resistência aos cabanos que haviam conquistado Belém e Vigia.
05 de setembro de 1835 – O comandante militar de Macapá, Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, envia circular às autoridades e fazendeiros macapaenses, dando instruções sobre o combate aos cabanos que já pensavam em tomar Macapá. Ver documento.
20 de dezembro de 1835 – Os cabanos que se refugiaram em Ilha de Santana são expulsos.
01 de janeiro de 1836 – O capitão Fernando Rodrigues, comandante da 1ª Cia. da Guarda Nacional, escreve a Jorge Rodrigues, dando notícias sobre a resistência imperial por ocasião da Independência do Brasil em Macapá. Ver documento.
02 de janeiro de 1836 – O comandante militar de Macapá, Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, escreve ao governo provincial do Pará, relatando a oferta de várias embarcações de comerciantes de Macapá, para o combate aos cabanos. Ver documento.
12 de fevereiro de 1836 – Por ofício de nº 24, o comandante da Praça de Macapá, major Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, relata ao presidente da Província do Pará, Jorge Rodrigues, que os norte-americanos estavam dispostos a trocar armamento com gêneros alimentícios.
28 de fevereiro de 1836 – Sai de Macapá uma expedição chefiada por Raimundo Joaquim Pantoja para atacar os cabanos de Breves. Ver 07 de março de 1836.
7 de março de 1836 – Raimundo Joaquim Pantoja, partindo com o alferes Francisco Pereira de Brito e soldados da praça de Macapá, chega em Gurupá (no Pará), onde se encontram os cabanos. Ver 8 de março de 1836.
8 de março de 1836 – Combate na foz do rio Caju-Una, entre cabanos e tropas legalistas, participando soldados macapaenses.
13 de março de 1836 – O major Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos recebe novamente o macapaense e capitão da Guarda Nacional Raimundo Joaquim Pantoja, que solicita mantimentos e armamentos para o combate aos cabanos nas ilhas vizinhas. Monterozzo Acode, prestando-lhe auxílio e providenciando armamentos.
15 de março de 1836 – O comandante da Praça de Macapá, major Francisco Monterozzo, comunica ao presidente da Província do Pará, Jorge Rodrigues, a presença do capataz Manoel Pedro dos Anjos, tenente-coronel comandante dos cabanos, entre as forças que estavam alojadas no litoral da ilha de Marajó. Refere-se ainda à vitória conseguida pelo capitão Pantoja e seu ajudante Francisco Pereira de Brito, contra os rebeldes localizados em Curuçá e Caju-Una.
17 de março de 1836 – Chegam à vila de Macapá as autoridades de Santarém que acaba de cair em mãos dos revolucionários cabanos, entre elas o juiz de Direito da Comarca de Tapajós, Joaquim Francisco de Souza. (Vidal Picanço, Estácio, Informações sobre História do Amapá, Pág. 85).
23 de março de 1836 – O major Francisco Monterozzo comunica, em ofício, ao presidente da Província do Pará, marechal Jorge Rodrigues, que os cabanos haviam se apossado das cidades de Gurupá e Santarém, chegando aqui na então vila de Macapá, as principais autoridades desses dois municípios paraenses.
15 de abril de 1836 – Sai de Macapá uma expedição comandada pelo alferes Brito, destinada a desalojar os cabanos do arquipélago do Bailique. Ver 17 de abril e 29 de maio de 1836.
17 de abril de 1836 – Pelo ofício nº 34, o major Francisco Monterozzo informa ao general Jorge Rodrigues que no dia 15 o capitão Raimundo Joaquim Pantoja autorizou o alferes Brito, com três oficiais e 50 guardas de Portel, a saírem de Macapá para a ilha de Gurupá, em duas embarcações, para defenderem a vila de Portel, que se achava ameaçada pelos cabanos do Tapajós.
28 de abril de 1836 – O alferes Brito derrota os cabanos da região de Bailique.
24 de maio de 1836 – O comandante militar de Macapá, major Francisco de Siqueira Monterozzo, escreve ao comandante da Província do Pará, informando do envio de documentos considerados suspeitos, aos cabanos da região. Ver documento.
05 de dezembro de 1836 – Monterozzo escreve ao governador do Pará referindo-se a um episódio ocorrido em 20 de novembro do mesmo ano, em Ilha Vieirinha, perto de Macapá, onde sessenta soldados mataram 30 cabanos ali alojados, incendiando suas casas e apropriando-se de seus pertences. Ver documento.
9 de julho de 1839 – O comandante da Praça de Macapá, tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, é deposto do comando, sob suspeita de que ele favorecia aos cabanos. Ver 29 de julho de 1839.
29 de julho – O Visconde de Souza Franco, governador do Pará, escreve ao ministro da Guerra, conde Lajes, noticiando o conflito ocorrido em 8 de julho, em Macapá, que resultou na deposição do tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo, sob acusação de favorecer aos cabanos. Ver documento.
01 de março de 1840 – O governo da Província do Pará cria a Colônia Militar Pedro II, situada à margem direita do Araguary. A partir desta data finda o periodo cabano em Macapá.

Marketing Cultural: um negócio lucrativo

Por: Emanoel Reis

Os incentivos que os governos dão às empresas que investem na produção cultural vêm confirmar, entre nós, uma forte tendência internacional do mundo dos negócios: a crescente opção pelo marketing/comunicação cultural. A identidade que as manifestações culturais criam com seus públicos e, por extensão, com as empresas que a patrocinam, traz ótimos resultados em termos de promoção institucional, um retorno mais que compensador.
O marketing/comunicação cultural oferece a mais rica gama de opções, no universo simbólico, de valores que o empresário pode agregar à imagem de seu empreendimento ou à marca de seu produto. Afinal, quando nos referimos a cidadão, a palavra cultura passa a significar informação, formação, acúmulo de saberes, que podem ou não ser transmutados às gerações seguintes.
Contudo, quando nos referimos à cultura de um povo ou nação, esta simples palavra ganha outra dimensão e vem agregar os valores e costumes destas gerações, que respeitam suas regras de convivência, sejam eles cultos ou não. Por este motivo, patrocínios artísticos e culturais estão tomando espaços tradicionalmente ocupados por outras estratégias de promoção de imagem.
Os mecanismos atualmente disponíveis para dinamizar ações do marketing/comunicação cultural são mais eficazes – e abrangentes. Com eles é possível implementar projetos de longo alcance a curto e médio prazo sem prejuízos à essência do trabalho. E como nosso principal produto é a Amazônia, ou seja, a “Amazônia de todos nós”, a utilização deles é de primordial importância.
Quando falamos em cultura nos reportamos, evidentemente, a um componente essencial do desenvolvimento da Nação. Através dela, os grupos que formam a sociedade participam e contribuem para o bem coletivo. Junto com os fatores econômico e social, ela forma o tripé sobre o qual se apóia a cidadania de um povo.
São inúmeras as tendências culturais cuja aplicabilidade pode estimular o desenvolvimento com justiça social. Esta diversidade se dá não apenas pela extensão das áreas de manifestação artística e promoção cultural incentivada pelos governos (artes cênicas, plásticas e audiovisuais, música, literatura, patrimônio cultural etc.), como pela característica em si da obra, ou evento escolhido: se clássico, popular, moderno, de vanguarda, futurista etc.
É nesse contexto que entra o Amapá, funcionando como centro irradiador do processo de conscientização cultural da Amazônia. Parceiro das federações representantes do desenvolvimento econômico e coadjuvante na implementação do projeto macro que promove o bloco econômico para o crescimento nacional via cultura como negócio e instrumento formador das gerações vindouras.
A proposta de ação é viabilizar o Amapá no Meio do Mundo conceituando a cultura como ferramenta de transformação social. Este projeto será uma máquina geradora de signos, pensamentos e sons, impulsionados ideologicamente pelo vetor do desenvolvimento com justiça social. E por que o Amapá? Porque hoje é o Estado beneficiado com um programa único e nacionalmente integrado aos conceitos de responsabilidade social, com uma vasta biodiversidade.

Refugiado que chegou ao Brasil em porão de navio revive história em filme

Reportagem: Mariane Zendron
SOBREVIVENTE - Mounir Ismael chegou ao Brasil escondido no porão de um navio cargueiro
SOBREVIVENTE – Mounir Ismael chegou ao Brasil escondido no porão de um navio cargueiro. Dezesseis anos depois, esta aventura é contada em filme

Em um prédio ocupado por sem-teto no Centro de São Paulo, um professor de teatro pede um tema para os alunos. Mounir Ismael, 31 anos, levanta a mão: “Roda de avião”. O professor não entende e pede para ele explicar melhor: “Quando eu tinha 12 anos, tentei fugir da África na roda de um avião. Fui capturado, mas quatro anos depois consegui fugir no porão de um navio. Achava que estava indo para os Estados Unidos, mas desembarquei no Brasil”.
A história tão absurda quanto real está em “Era o Hotel Cambridge”, novo longa de Eliane Caffé (“Narradores de Javé”), exibido na Mostra de São Paulo. Essa é a única fala dele no filme, mas uma das participações mais marcantes. A diretora quis histórias reais para, a partir daí, criar um filme de ficção que retrata a convivência de refugiados e brasileiros onde antes funcionava o Hotel Cambridge.
Pouco antes da primeira exibição do longa na Mostra, Mounir contou que o episódio da roda de avião é só parte da sua história, que poderia ganhar um filme próprio. “Meu país vive em guerra desde a década de 1950. Desde criança eu ouvia armas, então virou meu som favorito. Eu era criança demais e não sabia do perigo. Carregava foguetes e armas para os rebeldes. Quando descobri que tinha um futuro pela frente, decidi fugir”.
A ideia de fugir na roda do avião surgiu quando Mounir vendia balas no aeroporto de Camarões. “Via aquelas crianças todas entrando nos aviões, quis fazer igual, mas quando consegui me esconder na roda, os seguranças me viram pela câmera”. Três anos depois, ele conseguiu um espaço entre sacas de acúçar no porão de um navio.
Ao desembarcar no porto de Santos, litoral de São Paulo, Mounir descobriu que estava na terra de Pelé. Não era os Estados Unidos, mas pareceu bom. “Estou aqui há 16 anos, mais tempo que vivi no meu país. Já me adaptei à cultura e gosto daqui”. Passou por ocupações, mas não ficou muito tempo em uma. O mesmo aconteceu com albergues. “Tinha que entrar às 18h e sair às 6h mesmo que estivesse chovendo muito. Preferi viver na rua”.
Fez bicos de todo tipo – um deles era ajudar outros refugiados no português para a obtenção de documento -, até conseguir fazer cursos de atuação. “Eu sempre quis ser ator porque, para querer contar a minha história, tem que atuar”. Depois de participar da série “Destino SP”, da HBO, foi chamado para o filme de Caffé.

Liderança na luta por moradia
Além de Mounir, há outros poucos atores profissionais no filme, como José Dumont, Suely Franco e Paulo Américo. A maioria do elenco é formada por refugiados e brasileiros diretamente ligados à ocupação. “A primeira ideia era fazer um filme sobre os refugiados, mas a gente não queria um drama individual. Decidimos retratar o momento em que eles se encontram com os brasileiros e, com isso, vimos que muitos estavam em ocupações por falta de política publica”, disse Caffé, que logo passou a palavra aos atores. Ela deixa claro que prefere que eles falem. Afinal, o protagonismo na atuação e na luta é deles.
Um dos papéis de destaque ficou para Carmen Silva, que no filme e na vida real é uma das líderes de movimentos por moradia em São Paulo. Ela enfrenta não só as autoridades como ainda apazigua desentendimentos entre refugiados e sem-teto brasileiros. Em uma cena do filme, alguns brasileiros, encenando a vida real, dizem que os refugiados estão tomando seus espaços. “Há o trabalho de fazê-los entender que somos todos refugiados, mesmo no nosso país, já que não temos direito à moradia”, diz Carmen.
A união da equipe do filme com o movimento começou no filme, mas não se encerrou nele. “Chegamos lá para fazer um filme, mas fomos criando um vínculo que nos aproximou do movimento”. Uma das medidas foi chamar alunos de arquitetura da Escola da Cidade para reformar as áreas comuns da ocupação, que serviram tanto para o filme como agora para o dia a dia dos moradores.
E o trabalho nesses espaços continua com ações como amenizar o choque cultural entre brasileiros e a conscientização entre os refugiados para que não usem a ocupação como passagem, mas para que fiquem e lutem por moradia permanente ao lado dos sem-teto. “A gente vê que há muito trabalho a fazer, por isso a gente não sai de lá”, disse a diretora.

Estas poesias fazem parte do meu próximo livro. Leia e opine.

Por: Emanoel Reis

O “sanduba” encantado

Vou contar esse história
passada no Bar do Abreu,
paragem obrigatória
do barão ao plebeu;
foi numa noite de glória
quando isso aconteceu.

Especial com a freguesia
José Ronaldo capricha,
servindo com cortesia
filhote ou salsicha,
seja noite ou seja dia
não deixa cair a ficha.

Cliente contumaz
do balcão afamado,
João Roberto vivaz
chega quase calado,
senta sempre atrás,
fica lá sossegado.

Numa noite no bar,
salão quase vazio,
João Roberto por lá,
alheio ao falario,
bebia bem devagar
num copo alto, esguio.

Sentindo a fome apertar
José Ronaldo caminha,
sem muito apressar,
em direção à cozinha,
com seu jeito familiar
encomenda o que tinha.

A cozinheira boazuda
segura bem o careca,
mete a faca porruda.
o pãozinho disseca,
põe ovo, cebola miúda,
um pedaço de bisteca.

Após aprontar o lambisco
o entregou ao patrão,
que vendo o petisco,
babou de satisfação,
lançou olhar de corisco,
como se fosse um glutão.

João Roberto ao lado
cobiçou o lanchão,
olhando de atravessado
tramou infame armação,
deixar o Zé Ronaldo
sem aquela refeição.

João esperou paciente
Zé Ronaldo vacilar,
agindo bem diferente
o plano passou a bolar,
com astúcia inclemente
enganou o dono do bar.

Quando Zé Ronaldo
voltou, viu o prato vazio,
quis entornar o caldo
contra aquele desvario,
logo pensou no saldo,
preferiu manter o brio.

Um “inquérito” foi aberto
para apurar o malfeito,
assim, saber bem correto
tudo sobre o suspeito,
um certo João Roberto
o nome do tal sujeito.

No começo ele negou
a autoria do ato vil,
mas logo confessou,
alegou crise senil,
disse que surrupiou,
pediu desculpa e saiu.

O caso ficou famoso
dentro e fora do Abreu,
para o Zé foi cabuloso
perder o que era seu.
Mas ainda tem curioso
e gente que não esqueceu.

O sanduíche do bar
ganhou nome completo,
passou a se chamar
o “sanduba do Roberto”,
bom de degustar,
com precinho esperto.

Para “comer o Roberto”,
ensina esta resenha,
cola atrás, fica esperto,
não precisa usar senha,
estando ele sempre aberto,
é só você mandar lenha.

Flerte

Em busca da cura para o tédio,
vi no trivial cotidiano o remédio
para desejos antes esquecidos,
sentimentos antigos, mal contidos,
surgiram de repente, em profusão.
Tentando entender essa emoção,
parei de expor meu inverso,
este mundo tão controverso
de amores presos na memória,
personagens de uma história
há muito parte do passado,
até agora pouco lembrado.
Então, por que essa sensação
ressurge, assim, sem explicação?
Por que relembrar a silhueta
toda sexy naquela malha preta?
Aquela rainha, deusa romanita,
com seu ar de dama erudita,
me fez tropeçar na calçada,
deixou minh’alma abalada.
Mulher translúcida, insinuante,
com belo sorriso cativante,
exibia nos degraus da praça
feminilidade, sedução e graça.
Balançou minhas estruturas,
me fez esquecer as agruras
de um dia assaz conturbado.
Sei: foi só flerte dissimulado,
encontro casual, somente,
nada além disso, infelizmente.

Amor partido

Ainda lembro como foi nosso
último encontro antes do fim:
Simplesmente constrangedor!
Te entreguei de mãos beijadas
sem lutar por nosso amor.

Você, de braços cruzados,
olhava incrédula aquela
repentina resignação.
E em silêncio, questionava:
“Por que esta decisão?”

Talvez, você não saiba:
foi melhor para nós três
evitar tamanha disputa.
Pelo clima beligerante,
a morte espreitava, oculta.

O confronto parecia inevitável.
Alguém sucumbiria à bala
ou a golpes de punhal traído;
e não haveria vencedores
naquele caso de amor partido.

Magmática

Vejo fogo em teus olhos
de mulher carente;
labaredas infernais
brotam das cavidades.

Teus olhos consomem
carne viva em profusão,
duas bolas vulcânicas
em violenta erupção.

Ensandecida, geme baixinho,
morde os lábios vermelhos,
remexe os quadris largos
no tamborete quadrado.

Teus olhos magmáticos
são dois incendiários,
piromaníacos fantásticos,
devoradores insaciáveis
de homens solitários.

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OBRIGADO POR PARTICIPAR DESTE TRABALHO.