Comunidades isoladas do Amapá sobrevivem sem nenhum apoio do governo

DISTÂNCIA - A pequena vila de São José fica encravada entre a mata densa e as águas escuras do Rio Jari
DISTÂNCIA – A pequena vila de São José fica encravada entre a mata densa e as águas escuras do Rio Jari

Em tempos de Internet, quando a informação circula em tempo real, a tecnologia diminui a distância entre as pessoas, a globalização faz o mundo caminhar para se transformar em uma grande aldeia cultural, mesmo com a correria dos centros urbanos, o Amapá ainda guarda recantos que parecem ter parado no tempo. São comunidades que vivem no isolamento, físico e social, onde o poder público parece nunca ter chegado. Esta é a realidade encontrada nas comunidades de São José e Santo Antônio da Cachoeira, no município de Laranjal do Jari, e na de Tapereira, em Vitória do Jari.
Para chegar às comunidades de São José e Santo Antônio da Cachoeira só descendo o rio Jari, navegando de voadeira por aproximadamente 45 minutos. Na vila de São José, vivem cerca de 13 famílias – mais de 150 pessoas – acomodadas em casebres de madeira. Energia elétrica só uma ou duas horas por dia, graças a um pequeno gerador adquirido pela própria comunidade, que também se une para comprar o óleo diesel.

PRECOCES - No vilarejo de São José, é grande o número de mães muito jovens
PRECOCES – No vilarejo de São José, é grande o número de mães muito jovens

São José foi diretamente afetada pelas obras da barragem na Cachoeira de Santo Antônio, na construção da hidrelétrica. Na chegada, as crianças se assustam com a presença de estranhos, mas logo perdem a timidez quando os adultos começam a conversar.
Benedito Ferreira Dutra, 56 anos, é um dos moradores mais antigos. Ele conta que a mãe, Raimunda Pinto Dutra, faleceu com mais de cem anos de idade e chegou à região há mais de cinquenta anos. Sobre o acesso à saúde, ele diz que até aqui, apenas a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) esteve no lugarejo por duas vezes, mas apenas coletando informações. “Até aqui nada de concreto. Quando alguém adoece gravemente é uma verdadeira peleja para conseguir levar para o [Laranjal do] Jari”, relata. “Também temos que ir à Laranjal de barco para fazer feira e comprar outras mercadorias. Aqui, a gente vive de pesca e agricultura, mas agora não temos nem isso. São dias difíceis”, lamenta.
A escassez de peixe e caça e as dificuldades para desenvolver a agricultura empurram os moradores para trabalhar e cumprir extensas jornadas de trabalho na empresa responsável pela obra de barragem da cachoeira. Um morador relata que chega a trabalhar 12 horas por dia, seis dias por semana, para ganhar um salário mínimo. “Fazer o quê? Precisamos do dinheiro pra sobreviver”, desabafa.
Outro desafio é a educação. A maior escolaridade encontrada foi o ensino fundamental completo. Depois, é preciso ir para a sede de Laranjal para continuar, mas é difícil se manter lá, como conta Geovani, de 23 anos, que deixou a comunidade para continuar os estudos e formar-se em Magistério. “Consegui me formar com muita dificuldade”, relata ele nesse depoimento emocionante. Assista.

GEOVANI – MORADOR DO CAJARI

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