Submundo das drogas em Macapá ganha tonalidades femininas

CONSTATAÇÃO - A participação de mulheres amapaenses no narcotráfico vem aumentando significativamente nos últimos anos
CONSTATAÇÃO – A participação de mulheres amapaenses no narcotráfico vem aumentando significativamente nos últimos anos
Reportagem: Emanoel Reis

Jovens, pobres, negras, com idade entre 16 e 30 anos. Este é o perfil de detentas, condenadas por tráfico de drogas, que cumprem pena no Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen). Esta constatação, avalizada pelo Tribunal de Justiça do Amapá (leia-se Vara de Execuções Penais), revela uma crescente tragédia familiar fomentada pelo narcotráfico em visível espiral crescente na região, motivado, especialmente, pela extensa área de fronteira do Amapá com o Estado do Pará, Guiana Francesa e Suriname. Essas mulheres, conforme informações obtidas junto à Justiça, ingressam no tráfico de drogas por necessidade de sobrevivência, mas, também, para satisfazer desejos de consumo, como comprar roupas de marca, frequentar salões de beleza, baladas ou bares da moda.
Levantamentos realizados em Macapá pelas polícias Civil e Militar igualmente revelam um dado estarrecedor: as mulheres criminosas estão mais violentas. Exemplo está na ala feminina do Iapen. Muitas apenadas também cumprem pena por roubo, mais conhecido como assalto, e, conforme depoimentos das vítimas, durante as ações criminosas foram mais agressivas do que os comparsas.
De acordo com o sargento PM Robson Costa, esse é o típico comportamento de autodefesa. Segundo afirma, elas estão mais preocupadas em se defender de outros traficantes e criminosos do que da polícia. “Algumas até admitem que podem mudar, mas provavelmente vão continuar no crime. Revelam desejo de mudança e justificam o envolvimento no tráfico pelo poder de consumo adquirido, algo como dar uma vida melhor para os filhos. Dizem que com o salário mínimo nunca vão poder ir a salões caros, no centro da cidade. Mas isso não justiça nenhuma prática criminosa”, comenta.
Apesar do contínuo desmonte das quadrilhas atuantes em bairros como Buritizal, Brasil Novo, Renascer e Perpétuo Socorro, o tráfico avança inexorável devido, comprovam as ações policiais, à participação feminina na compra e venda de entorpecentes. As ações deflagradas a partir de longas investigações ou por meio de denúncias anônimas, até conseguem desmobilizar esquemas criminosos montados em residências aparentemente insuspeitas, mas, seus efeitos efetivos ainda são pífios.
As prisões dos traficantes e o rompimento da corrente criminosa são insuficientes para conter a venda de entorpecentes na capital do Estado, impulsionada pelo crescente consumo promovido por jovens das classes média e alta. Sem descartar, porém, a afluência da juventude periférica, usuária maior de drogas acessíveis como o crack e o óxi, comprovadamente mais baratas, pesadas e letais.
A quantidade de novas “bocas” (pontos de venda de drogas) que surgem em profusão, suplanta as desativadas pelas operações policiais. Traficantes são presos, condenados e trancafiados nas celas do Iapen, mas, em poucos dias surgem outros em substituição aos anteriores, e cada vez mais audaciosos e violentos. “O trabalho policial apresenta bons resultados. Porém, os traficantes são em maior número”, assinala Robson Costa.

Família carente transforma residência em “boca”
Em Macapá, famílias de baixa renda, geralmente chefiadas por mulheres residentes em bairros periféricos, são cooptadas pelos traficantes para que as casas onde moram se transformem em “bocas”. O argumento é o mesmo: possibilidades de ganhos fáceis acima dos R$ 3 mil por mês, e consequente melhora no padrão de vida.
Foi o que aconteceu à dona de casa Maria Rodrigues de Lima, 51 anos, moradora do Buritizal, Zona Sul de Macapá. Antes de ser presa, ela ganhava a vida vendendo bugigangas na feira do bairro, ou fazendo pequenos biscates para os parentes e vizinhos. O que ganhava era insuficiente para sustentar a numerosa família. Por isso, enfrentava grandes dificuldades financeiras, inclusive, revelou em depoimento, chegou a passar fome.
O negócio das drogas surgiu por meio da filha dela, Elizângela Rodrigues de Lima, 28 anos. E tornou-se próspero porque contou com o apoio de outros membros da família, além de estabelecer um sistema de comercialização ininterrupto, com atendimento 24 horas.
O intenso movimento, contudo, incomodou os vizinhos. O entorno da casa virou área de altíssimo risco para os moradores, em especial para as jovens estudantes que precisavam passar pelo local depois das 22 horas. Vários foram os casos de tentativas de estupro cometidos por drogados ocorridos às proximidades da “boca” da ex-dona de casa.
Durante a operação policial dentro da casa de Maria Rodrigues, foram apreendidos notbooks e vários aparelhos eletroeletrônicos. Segundo hipótese apresentada pelos policiais após as buscas, possivelmente foram deixados por viciados em troca de droga.

Ex-estudante vira “rainha” do tráfico no Marabaixo III
O envolvimento no tráfico fez da estudante Daiane Saboia dos Santos, 19 anos, residente na rua 4 com a Avenida 15, Marabaixo III, Zona Oeste de Macapá, figura recorrente na longa lista de suspeitos diariamente caçados no Amapá pelas Polícias Civil e Militar. Presa com mais de 3,6 quilos de maconha, Daiane foi logo reconhecida pelos policiais do Batalhão de Rádio Patrulhamento Motorizado (BRPM). Conforme informaram, ela havia sido presa em outra operação.
O comércio de drogas gerenciado por Daiane contava com o “apoio operacional” de seu comparsa e amante Diego Maradona Tavares Campos, 20 anos, responsável pela aquisição e distribuição dos produtos entorpecentes. Para efetivar o trabalho de investigação feito pela inteligência da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Amapá (Sejusp) e Polícia Civil, os agentes contaram com denúncias de populares. “Quando chegamos na residência, deparamos imediatamente com os tabletes de drogas e para nossa surpresa encontramos debaixo da pia uma arma calibre 20”, assinalou o tenente BRPM Cecílio.
Além da maconha, a polícia também encontrou 180 gramas de cocaína prontas para consumo. “Cinco dias atrás, a minha equipe prendeu essa mesma moça com várias pedras de crack. Mas, apesar das provas, a Justiça a liberou e ela voltou a traficar”, revelou Cecílio

Narcotráfico também absorve “patricinhas” e famosas
As mulheres estão pontificando em todos os lugares, fato constatado pelos últimos levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Inclusive, passaram o ocupar cargos de comando no tráfico de drogas, não somente na compra e venda, mas, principalmente, em áreas estratégicas das quadrilhas internacionais. Elas trabalham também como chefes de “bondes” (comboio de traficantes, para roubar carros e cargas), gerentes de ponto de venda, chefes da endolação de drogas, olheiras, seguranças, e muitas trabalham em prol dos traficantes como cozinheiras, enfermeiras, entre outras atividades.
E nesse envolvimento não estão somente mulheres de baixa renda (oriundas das chamadas classes C e D). Recentemente, a “Associação Juízes pela Democracia” fez um alerta sobre a vulnerabilidade das mulheres ao recrutamento do tráfico de drogas. Cerca de 64% que são presas, foram condenadas por envolvimento com o tráfico de entorpecentes. Por uma série de características, uma delas é a questão da fidelidade à opressão e submissão ao homem, que está sendo muito mais usada pelo tráfico. Quase 80% das mulheres presas, guardam o mesmo perfil: jovens, bonitas e de classe média.
Exemplo é o caso da estudante Bibiana Roma Corrêa, filha de um coronel da Aeronáutica. A jovem de classe média integrou duas das maiores quadrilhas de assaltantes de residências do Rio de Janeiro. Tem tantas histórias para contar que pensa até em escrever um livro. Nele, poderá relatar, por exemplo, como foram as mais de dez vezes em que conseguiu “escapar” depois de ser presa ao lado do então namorado Pedro Machado Lomba Neto, o Pedro Dom, morto em confronto com a polícia. Bibiana cumpre pena em regime fechado.
Nos últimos anos, o número de mulheres recrutadas para o transporte da droga – as “mulas” – cresceu muito. Esse fenômeno da feminização do narcotráfico tem pelo menos três explicações. A primeira é a de que os traficantes acreditam que as jovens de boa aparência contam com maior condescendência da polícia durante batidas policiais nas estradas. Outra é a forte expansão, no Brasil, da máfia nigeriana. O grupo atua em associação com os produtores de cocaína na Colômbia. Seus integrantes se especializaram em recrutar belas brasileiras para, daqui, levarem cocaína para a Europa e, de lá, voltarem com comprimidos de ecstasy.
É neste ponto que se encontra o terceiro motivo. Com a “Lei do Abate”, que permite ao governo atacar aviões suspeitos de ilegalidades, os grandes traficantes resolveram pulverizar suas remessas de drogas. Tanto na entrada quanto na saída do País, os bandidos optaram por espalhar sua mercadoria entre viajantes que usam estradas e aeroportos, em lugar de lotar pequenos aviões com a droga. A ONU estima em US$ 100 bilhões/ano o movimento financeiro do tráfico de drogas no mundo.

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