Saúde em perigo: aumenta o consumo de açaí de má qualidade

Revenda de Açaí
Qualidade do açaí comercializado nos municípios de Macapá e Santana é questionada por consumidores habituais do produto

REVENDEDORES DENUNCIAM IRREGULARIDADES NA COMERCIALIZAÇÃO DO PRODUTO

Boa parte do açaí consumido pela população amapaense é de baixa qualidade. A denúncia partiu dos próprios revendedores, no Porto de Santana, cujas dificuldades para adquirir um produto mais saudável começam a incomodar. Afirmam que uma fábrica de beneficiamento de polpa da fruta, localizada na Fortaleza, divisa do Distrito de Fazendinha com o município de Santana, a 20 quilômetros da capital do Estado, é a grande responsável pelo problema.
Informam, ainda, que diariamente são compradas cerca de sete toneladas para produção de polpa. Os melhores frutos, mais encorpados, são reservados para a empresa. O restante é diretamente comercializado pelos revendedores nas dezenas de amassadeiras espalhadas por Macapá e Santana. De acordo com o revendedor João Ribeiro, há mais de 30 anos na atividade, o litro do açaí poderia custar bem menos. Porém, por causa dos custos com transporte e da má qualidade dos frutos, o preço final está irritando os consumidores.
Fonte de renda
No Amapá, o açaí ainda reina absoluto e garante a sobrevivência da grande maioria dos ribeirinhos. São comerciantes, atravessadores e tantos outros. Tornou-se a principal fonte de renda para centenas de famílias amapaenses. Um exemplo é dona Raimunda Gomes dos Santos, 53 anos de idade, casada, mãe de três filhos e avó de três netos, moradora do bairro do Congós. A profissão que ela escolheu aos 15 anos de idade foi a de costureira. Relata que precisou trabalhar muito para ajudar o marido no sustento da família.
Há dois anos, dona Raimunda decidiu mudar de vida e substituiu a placa de “Costura-se em geral” por “Açaí da Ilha”. Agora, em vez de faturar os parcos R$ 450 registrados no passado, o rendimento da comerciante passou para R$ 1.300,00/mês. “Costurar só dava retorno entre outubro e dezembro. Nos outros meses, eu não ganhava nada”, comenta.
O peconheiro
Peconheiro é o profissional que apanha o açaí no cacho. Usando uma peconha nos pés, trançado feito com a palha do próprio açaizeiro, ele escala o caule da árvore que pode ultrapassar os 30 metros de altura. Precisa de agilidade, leveza e muita experiência para arrancar o cacho de açaí com as próprias mãos.
Os dois maiores desafios são a subida no açaizeiro e a descida, com o cacho nas mãos, sem desperdiçar os caroços. A altura, o vento e a falta de equilíbrio no fino caule são obstáculos constantes.
Muitas são as crianças que abraçam a vida de peconheiro como forma de sobrevivência.
Fruto abençoado
Em toda a Amazônia existem mais de 40 espécies de açaí. São 19 na Colômbia, nove no Brasil, oito na Venezuela, três na Bolívia e outras nos demais países amazônicos. O açaizeiro (Euterpe oleácea) é uma palmeira característica de áreas de várzea e das margens dos rios amazônicos. A palmeira do açaí tem tronco ou estirpe delgado e ultrapassa os 30 metros de altura. As palmas, verde escuras, chegam a dois metros de comprimento e as flores, que são polinizadas pelos besouros que carregam o pólen das masculinas para as femininas, desabrocham de setembro a dezembro. É possível obter, em uma única palmeira, até quatro cachos de açaí, de três a seis quilos de caroços cada um.
Fonte de inspiração para a música regional, como a de Joãozinho Gomes e Nilson Chaves (“Sabor Açaí”), para o cinema, a exemplo do filme “Açaí com Jabá”, de Alan Rodrigues, Walério Duarte e Marcos Daibes, o açaí nunca falta na mesa do amapaense: no café da manhã, almoço, merenda ou jantar, com açúcar, farinha de mandioca ou de tapioca. É também acompanhado de peixes, camarão, arroz, charque e outros pratos típicos.
No Maranhão, o açaí tem nome de “jussara” e é amassado de forma artesanal, ou seja, pelas mãos das “amassadeiras”, em peneiras, alguidares e caldeirões. Outra técnica empregada pelos maranhenses é socar o açaí usando uma garrafa de vidro e depois coando a polpa acrescida de água em uma peneira de guarimã.
Açaí de fora
O revendedor João Ribeiro revela, também, outro grave problema. “Metade do açaí consumido pelo amapaense vem do Pará”, revela. Conforme Ribeiro, os frutos acondicionados em paneiros levam até três dias amontoados nos barcos para chegar em Macapá; quando são desembarcados no Porto de Santana, estão em péssimas condições. “O açaí vem de localidades como Ponta de Pedras, Cotijuba, Muaná, Ilha das Onças, Ilha dos Papagaios. Só o açaí ‘daqui’ (Amapá) não daria para atender a população”, assinala.

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