Como o Jornal Pessoal vem resistindo às perseguições da Justiça

Lúcio Flávio
O jornalista Lúcio Flávio Pinto é reconhecido mundialmente por editar sozinho um jornal quinzenal em defesa do povo e das coisas da Amazônia

Sou muito grato aos jornalistas Brenda Taketa, Fabrício de Paula (atualmente na SEPLAN-AP), Joice Santos, Rose Silveira e Tatiana Ferreira. Eles tiveram a iniciativa de criar e manter um blog para me apoiar, quando da minha condenação pelo Superior Tribunal de Justiça a indenizar o grileiro Cecílio do Rego Almeida, seguida da decisão de não recorrer da sentença e pagar o valor cobrado. Ajudaram a mobilizar centenas de pessoas, que aderiram ao propósito de transformar o pagamento da indenização em ato de protesto contra o procedimento da justiça paraense nesse caso.
Para comemorar os 25 anos deste jornal, esses jornalistas fizeram um dos melhores questionários aos quais já fui submetido. O resultado do interrogatório foi postado no blog “Somos Todos Lúcio Flávio Pinto”.
Infelizmente esta edição (jJornal Pessoal) já estava praticamente fechada quando a entrevista foi divulgada. Por isso reproduzo apenas pequena parte dela e da apresentação. Espero que sirvam de convite para acessar o blog.
O que você perguntaria a Lúcio Flávio Pinto, editor paraense do Jornal Pessoal, que completa 25 anos em setembro, para entender o que o motiva a continuar com um periódico que mal arca com os próprios custos ao mesmo tempo em que incomoda a tantos grupos e causa tanta polêmica em uma cidade como Belém?
Foi com essa intenção que o blog “Somos Todos Lúcio Flávio Pinto” reuniu perguntas de cinco jornalistas interessados em conhecer um pouco do mundo que o jornalista crê possível, ou apenas entender o que o (co)move.
O questionário foi enviado por e-mail e gentilmente devolvido da mesma forma, com respostas marcadas pela força de um homem que cansa, lamenta perdas pessoais e sente falta do fechamento das redações diárias dos jornais, mas acima de tudo acredita na possibilidade de resistência empreendida pelo trabalho que realiza.
E, em algum ponto da história, fica claro que a camisa virou pele: a pessoa, quando pressionada a fazer escolhas que envolvem a vida íntima e a profissional, opta ou prioriza com veemência o exercício do jornalismo capaz de registrar – e, por que não, confrontar – o que considera uma história única e grandiosa de ocupação da região amazônica, no mais antigo e colonial sentido que há para o termo, como explica adiante.
Como o Jornal Pessoal se sustenta? Como é possível dar conta das necessidades e despesas familiares com um jornal feito de forma quase artesanal, sem colaboradores e publicidade? Quem compra o Jornal Pessoal?
Lúcio Flávio Pinto – O Jornal Pessoal arca com seus custos. Eu, com os meus. Ambos vamos levando a vida na flauta. O jornal, ao excluir a receita de publicidade do seu universo, fez uma opção mais do que franciscana pela pobreza. Eu não tive alternativa senão partilhar a escolha. Ao menos enquanto o jornal existir. Quem o compra, em primeiro lugar, é quem pode pagar 5 reais pelo exemplar de um jornal pobre. Mas que o procura por seu conteúdo. É a classe média alta e média. Mas, felizmente, também há leitores nas camadas de renda inferior.
Para quem o assiste sem muito contato ou diverge de seus pontos de vista político, já que o jornal, como o próprio nome diz, é pessoal, fica uma pergunta: há colaboradores ou apoiadores financeiros do seu trabalho que não sejam publicamente declarados? Você omite ou omitiria informações e fontes nesse sentido?
Lúcio Flávio Pinto – Tive um colaborador que me ajudava a pagar apenas as despesas de postagem de jornais que envio como cortesia para vários lugares do Brasil e do exterior, além de Belém mesmo. Essa pessoa não pôde manter essa ajuda. Como pediu sigilo, nunca revelei seu nome. Sem sua participação, tive que reduzir o número de cortesias, mas elas persistem. Essas pessoas se dispõem a pagar assinaturas, mas como não tenho condições de organizar esse serviço, envio-lhes gratuitamente os exemplares, porque sua leitura do JP é fundamental para mim. Elas me dão um retorno nacional e internacional. Um amigo compra 20 exemplares de cada edição e os distribui entre os amigos. Nunca houve alguém que financiasse ou ajudasse o JP em suas despesas, um mecenas.
Por que a inserção do Jornal Pessoal na internet ainda é tão tímida, se a maior parte dos seus leitores está na rede e encontra lá um espaço mais democrático para debater temas como liberdade de expressão?
Lúcio Flávio Pinto – Por pura inibição minha. Tenho uma reação espontânea e quase automática a essa tecnologia. Aproximo-me dela através de amigos e do meu filho, Angelim, formado em ciência da computação. Sou um cego que ele guia pelo mundo virtual. No entanto, em todos os momentos de crise recorro intensamente à internet. Tem sido minha tábua da salvação nessas ocasiões. Seu poder de difusão e mobilização é estupendo, sem igual.
Se algo pessoal lhe acontecesse, como um escândalo familiar que de alguma forma envolvesse a cena pública, o jornalista, ou editor, seria capaz de transformar o fato em manchete do jornal? Acreditar ser possível separar o jornalista da pessoa? Se sim, a qual vínculo acreditaria ser provável manter a lealdade em um momento assim: à família ligada pelo DNA ou à reunida pela profissão no decorrer dos anos?
Lúcio Flávio Pinto – Sempre fiz a opção pela profissão, desde o início da carreira, 46 anos atrás. Na crise que envolveu meu pai, em 1967/68, quando ele era prefeito de Santarém, o jornal no qual eu trabalhava então, A Província do Pará, lhe fazia oposição sistemática e nem sempre era correto no noticiário. Em certo momento, ocupei interinamente a secretaria do jornal, com 18 anos. Podia jogar a força do meu cargo para pelo menos conseguir maior isenção, mas nada fiz. Preferi ficar fora dessa cobertura, mesmo vendo a movimentação pela redação dos inimigos dele, que viciavam o noticiário. Papai não gostou muito da minha posição, mas a respeitou. Nunca hesitei em outros momentos que se seguiram e acho que manterei essa diretriz sempre.
Quem foram e ainda são os seus principais interlocutores nos debates realizados pelo jornal?
Lúcio Flávio Pinto – Há leitores que me acompanham há décadas. Tive o privilégio de assinar coluna quando tinha três meses de profissão e mal havia completado 17 anos. Assim pude expressar minha opinião e fazer interpretações, além de noticiar fatos e relatar acontecimentos. Esses velhos leitores sempre dialogaram comigo, mesmo quando eu enviava meu material de São Paulo. Alguns nunca se manifestaram publicamente. Outros, de vez em quando, remetem suas cartas. Meu dialogo com as fontes é feito pessoalmente, o que muito me ajuda.

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