Fato consumado

Wálter Maierovitch

No curso da Segunda Guerra Mundial, o papa Pio XII, com as burras vaticanas cheias, resolveu fazer tábula rasa ao texto do evangelista Mateus sobre não se poder servir ao mesmo tempo ao Senhor e a Mamon, para usar a palavra aramaica dita por Jesus Cristo e traduzida por dinheiro, riqueza. Assim, em junho de 1942, foi fundado o Banco do Vaticano, disfarçado pelo acrônimo IOR (Instituto para as Obras Religiosas).
A meta era fazer o capital render frutos. Algo já executado pelo papa Mastai Ferretti (Pio IX), que, com Roma no caminho irreversível de integrar a Itália unificada (1870) e ser a futura capital, mandou o belga Francesco Saverio de Merode comprar, a preço de banana e para a Igreja, terrenos numa área urbanisticamente estratégica: virou a zona ferroviária central e a englobar a famosa Stazione Termini.
O papa Bento XVI, nesses últimos dias de pontificado, tenta reforçar a ideia da renúncia por ter perdido as forças e o ânimo para enquadrar a Santa Sé, ou seja, a detentora de poder soberano por representar a Igreja Católica e o Estado do Vaticano. Um detalhe: a Santa Sé, que é uma espécie de conselho de ministros (Cúria Romana) num regime laico parlamentarista, é composta de membros escolhidos pelo próprio papa, que designa um secretário de Estado (ou primeiro-ministro), no caso, o cardeal Tarcisio Bertone.
Bertone, que há pouco o papa recusou publicamente seu beija-mão e a escancarar a desconfiança, é um antigo colaborador de Ratzinger e dos tempos do Santo Ofício, repaginado em Propaganda Fide. Ao revelar a ingovernabilidade da Santa Sé, empurra a responsabilidade para o secretário de Estado e mantém a aura do magistral teólogo espiritualizado e distante das questões temporais.
Por pressão de Bertone, o papa Ratzinger engoliu o preenchimento do cargo de presidente do conselho de administração do IOR. Cargo vago há nove meses com o escandaloso afastamento do banqueiro Gotti Tedeschi, outro da turma de Bertone. Essa nomeação à undécima hora passou a ser considerada um ato de “blindagem” a Bertone. Em outras palavras, um fato consumado e a não deixar espaço para o futuro pontífice, que poderá não ser Bertone.
Na estrutura administrativa da monarquia vaticana, o IOR está atrelado à Secretaria de Estado e conta com uma comissão cardinalícia de vigilância presidida pelo próprio Bertone e da qual participa Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo. Em resumo, foi escolhido Ernst von Freyberg, por rezar na mesma cartilha de Bertone e que conseguiu, também, prorrogar os mandatos dos demais integrantes do conselho administrativo do IOR.
Von Freyberg, de 54 anos, será a garantia do silêncio e da tradição de não se punirem grandes bandidos que, aliás, contam com imunidade diplomática, a alcançar todos os membros do IOR. Só para lembrar, o mandado de prisão expedido pela Justiça italiana em fevereiro de 1987 contra o então prelado Paul Casimir Marcinkus, presidente do IOR por 19 anos (sua posse deu-se em 1971), jamais foi cumprido diante da imunidade vaticana.
Para o jornal Corriere della Sera, o cardeal Bertone, quanto ao IOR, executou a estratégia do “fato consumado”. Como brechas ficaram a gestão fraudulenta do Instituto Dermatológico (IDI) e a falência fraudulenta do Hospital São Rafael, do nada franciscano monsenhor Luigi Verzè, com rombo estimado em 1,5 bilhão de euros.
O IOR sempre foi o calcanhar de aquiles dos papas. Nas épocas de Paulo VI e João Paulo II vieram a furo os escândalos protagonizados pelo arcebispo Marcinkus, que teve como comparsas Michele Sindona, banqueiro da Máfia, Roberto Calvi, que transformou o Banco Ambrosiano em lavanderia, e Licio Gelli, mandachuva da Loja Maçônica P2. O prejuízo financeiro da Santa Sé, que mente ao afirmar não ter havido nenhum, beneficiou Gelli e Umberto Ortolani, que, por evidente, fugiu para o Brasil e se instalou em luxuoso apartamento no Morro dos Ingleses, sofisticado bairro paulistano.
Os valores desviados referiam-se a pacotes acionários do Vaticano. O objetivo era evitar pagar as taxações estabelecidas pelo governo italiano e referentes a dividendos acionários: Marcinkus foi dado como membro da Loja Maçônica e se descobriu que outro membro, de carteirinha número 1.816, era Silvio Berlusconi.
Marcinkus ficou protegido no interior dos muros leoninos que cercam o Vaticano até 1989. Tempo suficiente para preparar seu sucessor, o bispo Donato De Bonis. Ele transformou o IOR numa offshore secreta e usava como laranja para depósitos em conta corrente o cardeal-arcebispo de Nova York, Francis Spelman.
Pelo Banco do Vaticano, presidido por De Bonis, passaram as propinas pagas no escândalo da Enimont, da qual a estatal italiana ENI detinha 80% do capital acionário. De Bonis, depois de afastado sem sanções por Wojtyla, virou diretor espiritual da Soberana Ordem Militar de Malta. Por coincidência, o novo presidente do IOR pertence a essa ordem fundada em 1048.

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