Complexo é subutilizado por agremiações carnavalescas

Os cinco barracões ficaram 11 meses sem nenhuma utilidade

“Fazer” o carnaval amapaense sem depender totalmente do dinheiro público repassado todos os anos pelos governos estadual e municipal era o sonho de boa parte dos dirigentes das escolas de samba e blocos em atividade no Estado. Mas, para sair desse patamar meramente onírico faltava às agremiações a infraestrutura necessária para a promoção de eventos (shows com atrações locais e nacionais, encontros semanais reunindo brincantes e simpatizantes em rodas de samba, com muito pagode e feijoada), objetivando angariar recursos para incrementar a apresentação no desfile do carnaval.
Muito antes da gestão da falecida Maria José Silva, a Marjô, na Liga das Escolas de Samba do Amapá (Liesa), essa era uma das duas principais reivindicações dos carnavalescos. Nos anos 1990, o então governo João Alberto Capiberibe atendeu a primeira delas: construiu e inaugurou o “Sambódromo Ivaldo Veras”. Antes, os desfiles eram realizados na avenida FAB. Com a materialização do sambódromo, as escolas ganharam um local especialmente reservado para suas apresentações.
A segunda petição apresentada na época referia-se a um local onde as agremiações pudessem construir alegorias e fantasias conforme o samba de enredo evidenciado por cada uma. Ou seja, faltava ao carnaval amapaense amplo espaço com equipamentos adequados para atender as entidades e seus representantes. Em 2009, o então governo Waldez Góes (PDT) deu início às obras de construção da Cidade do Samba, sem, contudo, concluí-las alegando falta de dinheiro. Uma inverdade comprovada. Nos meses seguintes, o projeto dormitou nas gavetas estatais, sendo lembrado ocasionalmente quando algum desavisado o mencionava em reuniões informais.

Escolas transformam Cidade do Samba em lixeira de luxo
Somente em dezembro de 2011, a Cidade do Samba foi finalmente inaugurada. Na ocasião, o governo Camilo Capiberibe (PSB) oficializou a transferência dos cinco barracões à Liesa para uso das escolas na confecção de alegorias e fantasias no período pré-carnavalesco. Cada um deles medindo 25 X 60 metros é dotado de setor administrativo refrigerado, banheiros, iluminação, água, caixa d’água, área externa, estacionamento, bar, cozinha e ventilação. Foram investidos R$ 9.418.473,36, incluindo o aditivo de R$ 419.633,94. Desse total, R$ 5.265.585,40 saíram do tesouro estadual.
Onze meses após a inauguração, a Liga das Escolas de Samba do Amapá não organizou nenhum evento no local. Pelo contrário, concluído o carnaval 2012 os associados da Liesa repetiram o que faziam nos anos anteriores: abandonaram carros alegóricos e restos de fantasias nos barracões, convertendo-os em “luxuosos” depósitos de lixo. O desinteresse pela Cidade do Samba ficou evidenciado semanas antes da realização do Amazontech, com a retirada de toneladas de detritos acumulados nas áreas interna e externa do complexo.
O que era para ser “o maior centro de atividades carnavalescas já visto no Amapá” passou a maior parte do tempo com as portas fechadas, sem qualquer utilidade, sofrendo as ações do tempo. O próprio presidente da Liesa, Orles Braga, fez recente denúncia sobre o descaso dos dirigentes das dez escolas de samba integrantes da entidade. “O governo investiu alto nos galpões e infelizmente eles [os dirigentes das agremiações carnavalescas] não fizeram nenhuma programação. Se não fosse o Amazontech,  continuariam abandonados.”  (E.R.)

Presidente da Liesa continua sob intenso fogo cruzado
Aliás, a Liga das Escolas de Samba do Amapá está mergulhada num mar de intrigas sem precedentes em sua história. O policial civil Orles Braga é alvo de denúncias de supostas irregularidades encontradas na prestação de contas do carnaval deste ano. Tanto que o Conselho Fiscal e de Representantes da Liesa cassaram o mandato dele com base no artigo 50 do estatuto da entidade e elegeram Luiz Mota, o “Geleia”, para exercer o cargo até maio de 2013. Braga contestou a decisão, foi à Justiça, e obteve parecer favorável assinado pela juíza Keila Utzig. Conforme a magistrada, o processo eleitoral regido pelo edital estava “em nítido descompasso com o Estatuto da Liesa”.
Braga retomou a presidência, reconduziu sua equipe aos respectivos cargos, mas continua sob intenso fogo cruzado. Rejeitado pela maioria, o policial civil optou pelo confronto aberto, sinalizando estar disposto, inclusive, a sacrificar a realização do Carnaval 2013 na impossibilidade de um acordo. E se depender de “Geleia” e demais dirigentes, Braga jamais terá carta branca para comandar a Liesa até o fim de sua gestão.
Dizendo-se vítima de “complô” orquestrado nos subterrâneos da Liesa, Orles Braga é visto por seus opositores como um camicaze. Ignorando a comparação pejorativa, destrava a metralhadora e não economiza munição contra os adversários. “Tudo começou com um desentendimento político, agora virou contenda pessoal. Quem está contra essas pessoas, que eu prefiro não citar nomes, é boicotado. Não consegue trabalhar”, revela, acrescentando que das dez escolas, apenas duas estão aptas a firmar convênio com os governos estadual e municipal. “O resto está tudo irregular e os dirigentes delas não têm idoneidade moral para me julgar”, vocifera. (E.R.)

Fórum propõe entendimento comum para o carnaval 2013
Realizado no Centro de Difusão Cultural João Batista de Azevedo Picanço, entre os dias 30 e 31 de outubro e 1º de novembro, o Fórum “Carnavalizando o Amapá: um Rio de Alegria – II Edição/ano 2013”, debateu o planejamento do Carnaval 2013. Com o objetivo de “(…) propor um espaço de construção e planejamento das políticas e ações voltadas ao tema; estabelecendo como um dos principais focos as discussões acerca das estratégias de desenvolvimento cultural, turístico e econômico”, o evento também tratou da gestão da Cidade do Samba, incluindo “a Escola Sambódromo como espaço de discussão e construção do conhecimento voltado para a sustentabilidade”.
Quem participou dos workshops, oficinas, painéis, seminários e rodadas de discussão não teve dúvidas sobre as boas intenções do fórum, no entanto, saiu do Centro de Difusão convencido de que a relação entre os representantes das escolas e os dirigentes da Liesa está mais para samba de enredo interpretado por dinamarquês em sambódromo construído no Polo Norte. O frio alcança níveis de fazer esquimó tremer dentro da roupa de pele de foca. Enquanto um falava em aramaico, outro respondia em latim.
Apesar das opiniões divergentes, ficou claro para os participantes a necessidade de um entendimento comum sobre o futuro do carnaval amapaense. E a Secretaria de Estado da Cultura pretende implementar esses princípios para viabilizar o próximo carnaval, de preferência em parceria com uma Liesa pacificada. A proposta basilar da Secult é seguir o recomendado pela Carta de Compromissos e Propostas, produzida pelo Fórum “Carnavalizando o Amapá: um Rio de Alegria”. Se conseguir, o próximo carnaval estará a salvo dos beligerantes. (E.R.)

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