Os meandros e as malandrangens na política

Ao longo da vida pública, o ex-presidente Getúlio Vargas manteve um princípio basilar: fidelidade aos amigos. Embora em muitas ocasiões, os amigos tenham optado pelo iscariotismo político contra ele. Mas isso é outra história. Getúlio foi um político inigualável (deixando de lado seus anacronismos e vicissitudes) pelo legado deixado ao povo brasileiro, em especial no concernente às leis trabalhistas. Mais do que qualquer outro, Getúlio sabia que no mundo em que pontificava “amigos e inimigos” são nomenclaturas meramente decorativas. E que em política “não existem amizades nem inimizades eternas” (Lula levou isso ao extremo com José Sarney).
Isso é verdade aqui no Amapá, e nos demais Estados brasileiros. Prevalecem os interesses individuais, para perpetuação de projetos políticos familiares, e poucos se beneficiam. Uns menos, outros mais. Alguns se locupletam às escondidas, porque evitam questionamentos de militantes mais puristas – por isso, mais ingênuos. Aliás, militante é igual marido traído: é sempre o último a saber. E quando sabe, fica magoado, mas invariavelmente perdoa.
Getúlio Vargas foi um grande líder político. Mas como todo ser humano, passível dos mais comezinhos sentimentos. “(…) Vargas era uma dessas personalidades ‘líquidas’, moldáveis, que cedem às pressões e às circunstâncias, tomando a cada passo a forma do vaso que as contém”. Essa descrição do redator-chefe Paulo Mendonça se funde ao perfil de quase todos os políticos, assombrando os neófitos (aqueles que ainda acreditam em Papai Noel e Saci Pererê), e confirmando dissertações e teses de  “mestres” e “doutores” na arte de fazer política.
É como disse Gilberto Freire: “O Brasil é o país das possibilidades impossíveis”. No cenário político local as “possibilidades impossíveis” acontecem diariamente. Das menores (como a manchete do jornal Tribuna Amapaense enaltecendo João Capiberibe. Quem diria, hein?!), às mais robustas (e cabeludas), tão “robustas e cabeludas” que tornam-se impublicáveis devido ao teor explosivo das relações subterrâneas, por isso mesmo espúrias, entre os protagonistas.
Muitos não entenderiam as razões de tais acordos. Do político, que precisa dos recursos para garantir a sustentação de sua campanha. Do “benemérito”, que agindo dessa forma (entregando ao outro a dinheirama), garante livre acesso ao futuro eleito. Por isso, muita gente não entende a política, e se aborrece quando sabe que aquele/a político que ajudou a eleger recebeu ajuda financeira do “inimigo declarado”. No fundo entre eles é tudo mise-en-scène. Pura encenação só para “marcar uma posição de autonomia”.
Minha orientação aos desavisados é que evitem classificar os políticos pela visão maniqueísta. Este presta, aquele não. Fulano é bom, beltrano é mal. Vamos fugir disso. É uma visão esmaecida. Opaca. Até porque a história dos “grandes homens”, que o saber histórico nos conta, depende sempre da exploração e dominação dos “pequenos homens”. E é inócua a luta do rochedo contra o mar. Portanto, os ocasionais vislumbres de suas falhas de caráter acabam sendo minimizadas pela lógica do interesse próprio.
Na verdade, viceja entre o eleitor e o politico uma aquiescência tácita. Uma espécie de entendimento de que o malfeito cometido por vários torna-se inconsciente, ou melhor, deixa de ser malfeito e torna-se mal-entendido. É isso.

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