Batista: verdadeiramente socialista

Com o assassinato do então deputado estadual João Carlos Batista (PSB-PA), em dezembro de 1988, a esquerda paraense ficou destroçada. Era o segundo parlamentar executado pela pistolagem em 15 meses (o primeiro foi o deputado Paulo Fontelles), sendo a última execução ocorrida dentro da capital do Estado, comprovando de vez que mesmo às proximidades dos poderes constituídos nenhum militante de esquerda – com ou sem mandato – estava seguro.
Os encontros, antes abertos a qualquer pessoa, foram restringidos a reuniões iguais às realizadas nos tempos de chumbo grosso no País, com a retomada do “patrulhamento” exacerbado feito por companheiros e camaradas “a beira de um ataque de nervos”. Voltaram as senhas esdrúxulas (e hilárias), os “códigos secretos”, as mensagens cifradas deixadas em locais estranhos, os disfarces.  Uma paranoia geral tomou conta dos militantes de esquerda em Belém no fim dos anos 1980.
Acompanhei vários desses encontros. Dos realizados às “escondidas” na sede do DCE, dentro do “Vadião”, na UFPA, aos mais elaborados no auditório do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, ou no auditório da Fetagri, ou na sede do Sindicato dos Rodoviários. Outros locais também eram bem utilizados: sede da SDDH, gráfica Suiá, do Daniel, onde rodaram jornais antológicos, como o editado pelo Humberto Cunha, sempre vigiado de perto pelo delegado Paulo Tamer, diretor da DOPS Pará.
No começo de novembro fiz nova visita ao amigo Marcos Moraes de Lima, jornalista cearense radicado em Belém há mais de 30 anos, mas acima de tudo um dos petistas mais renitentes que conheço. Defensor intransigente do ex-governo Ana Júlia Carepa, amigo e parceiro comercial de exponenciais da esquerda paraense, militante de esquerda por opção. Daqueles cujo coração é do mais puro vermelho. Vermelhão, mesmo.
Sempre quando revejo o Marcos Moraes, recordo aquele período efervescente e ao mesmo tempo tenebroso que compartilhamos. Foi o MM que me apresentou ao Batista, na Assembleia Legislativa do Estado do Pará. Logo passei a colaborar na confecção do informativo de gabinete do deputado, o “Trincheira Socialista”, e mais tarde me tornei assessor de Imprensa do polêmico parlamentar. O acompanhei em várias viagens, inclusive para municípios onde latifúndio e pistolagem tramavam o extermínio dos opositores sob os olhos complacentes da Justiça.
E Batista ocupava o topo da lista dos marcados para morrer desde quando era somente advogado de posseiros e trabalhadores rurais. Foi vítima de vários atentados. Um deles durante discurso de campanha em Paragominas, nas eleições de 1986, com pistoleiro atirando várias vezes. Uma bala atingiu o braço do candidato e outra acertou uma religiosa, que se encontrava perto dele no palanque. A multidão se dispersou em polvorosa, resultando em mais vítimas.
Numa dessas tentativas de assassinato contra o Batista eu estava ao lado dele. Nós voltávamos de madrugada, de um vilarejo na época conhecido por “Tucuruízinho”, a alguns quilômetros do município de Dom Elizeu, com destino a Paragominas. Dois carros passaram a nos seguir em alta velocidade. O Osmar, motorista do Batista, viu pelo retrovisor que os ocupantes dos veículos estavam com os braços para fora. E armados. E baixou o pé no Passat novinho – e “envenenado” – o  mesmo ocupado pelo Batista quando ele foi morto.
Batista, que usava uma pistola 7,65 e um revólver 38, empunhou as armas, seguido pelos “assessores-seguranças” Mauro e Joãozinho, ambos com velhas espingardas. Eu fiquei apavorado. Lancei mão da única “arma” disponível: uma máquina fotográfica Pentax. Foi uma ação instintiva. O Mauro ainda brincou: “Se a gente não se livrar dessa, o Pará vai ganhar cinco novas viúvas”. O Osmar rebateu na bucha: “Não se depender mim”, e botou 170 no velocímetro.
A perseguição continuou até a entrada de Paragominas, com o nosso carro varando a rua principal em altíssima velocidade. Só parando em frente à casa do pré-candidato a prefeito pelo PSB do município. Demorou bom tempo para esquecer essa experiência traumática. Se não fosse a extraordinária habilidade do Osmar e as boas condições do automóvel do Batista, teríamos sidos fuzilados ao estilo “cosa nostra” numa rodovia deserta do Pará.
Na última visita ao MM, relembramos esse e outros episódios que marcaram profundamente nossa relação profissional e pessoal com o Batista. Dia 8 de dezembro Batista completa 23 anos de morto. Até hoje não conheci outro socialista igual a ele. Foi desse ponto que teve início nosso debate e reminiscências, com o MM se autodenominando “verdadeiramente socialista”. Mais do que muitos. No que eu retruquei: “Não igual ao Batista”. E o MM: “Ah, o Batista foi único!”

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