Reencontro com Belchior no Bar do Garrincha (o passado, nunca mais)

Hoje, acordei com saudades de mim. E principalmente saudoso de outras sextas-feiras. Dos encontros vespertinos com a rapaziada, no Bar do Garrincha, no Reduto. Intermináveis bate-papos com Marcos Moraes, Nemézio Filho, Arnaldo Torres, o A. Torres, Ary Souza, Ronaldo Bandeira (habitando outra dimensão), Astrogildo Soares, Walter Bandeira (também em outra dimensão), Alessandra, Paulinho do SINDJOR, Andréa, Jeferson Santa Brígida, Adauto Rodrigues, Paulo Jordão. Invariavelmente, com Belchior rolando a meio tom na caixa sobre o balcão. Parece que “Há tempo, muito tempo/Que eu estou/Longe de casa/E nessas ilhas/Cheias de distância/O meu blusão de couro/Se estragou”.
Não tive dúvida, comecei a manhã ouvindo Belchior. Acho que todos têm lá suas preferências musicais. Tenho muitas também, e bem ecléticas: Beatles, The Credence Clearwater Revival, Luiz Gonzaga, Bob Marley… Mas destas guardo a sensação de que compartilho com outras milhares de pessoas. Com o Belchior é diferente. Ele não é tão popular quanto minhas predileções citadas. E por isso penso sempre que posso ser seu fã nº 1. Acho – como todo fã que se pensa o nº 1 – que entendo suas mensagens melhor que ninguém. Somos cúmplices em muitas delas.
Nesse mundo de solidão e solidões, tenho Belchior como bom amigo. É como se vivêssemos os mesmos problemas e algumas poucas alegrias. Somos parecidos. Sempre, nesses dias mofados de cotidiano, em que o tempo se alonga por horas congeladas, sem ninguém para ver, onde os acasos se mostram apenas nos quarteirões ao longe, sinto saudades do Belchior. E ele, como se entendesse minha agonia de rotinas arrastadas, diz: “Por força desse destino um tango argentino vai bem melhor que um blues”.
Comovido com minha crise saudosista, o amigo quis passar alguma alegria: “Você não sente e nem vê, mas não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança, em breve, vai acontecer”. Desta vez discordei. Já não guardo o mesmo entusiasmo de outrora. Os tempos são outros e a estrela vermelha está desbotada. Continuamos como nossos pais. Ele concordou, e acrescentou: “O passado é uma roupa que não nos serve mais”.
Belchior gosta de exaltar o passado, os bons momentos vividos na juventude. Ele traz um saudosismo doído em sua voz; uma melancolia infinda. O conheço bem. Ele sempre se lamenta dizendo: “O passado, nunca mais”, ou “O tempo andou mexendo com a gente, sim”. Em outro instante, quase em prantos, quis desabafar: “O que é que eu posso fazer com a minha juventude, eu um simples cantador das coisas do porão? Olho diferente a cara do presente, mas sei que vou ouvir a mesma história porca. Não há motivos para festa: ora esta! Eu não sei rir à toa”.
Já ousei tentar consolá-lo com ilusórias promessas de felicidade. Mas meu amigo Belchior também se mostra desiludido das coisas do presente: “Fique você com a mente positiva. Eu quero é a voz ativa. Ela é que é uma boa”, respondeu-me. Em comentários sobre John – um outro amigo íntimo nosso – Belchior disse, como quem estivesse cansado destas frases imperativas dos outdoors, dessas leis morais desgastadas, do cárcere da vida moderna: “Saia do meu caminho. Eu prefiro andar sozinho. Deixem que eu decida minha vida. Não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração”.
E, sabedor das armadilhas destas propagandas que prometem o sucesso da vida, completou: “A felicidade é uma arma quente!”. Então, relembrei uma frase que havia me dito ainda no começo de nossa amizade e que nunca mais esqueci: “Graças a Deus, perco sempre o juízo”. E para me animar, aconselhou meu amigo, cantador das coisas do porão: “É, Emanoel, viver é melhor que sonhar”.

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