Seu Graça e as duas bandas da “dente de leite”

Era o fim do segundo semestre de 1974, ano em que a Seleção Brasileira sucumbira diante do “Carrossel Holandês”, e isso havia magoado profundamente os “herdeiros do Tri”, celebrado quatro anos antes. Meu pai, seu Manoel Marques, estava entre os descontentes. Mas, o pior havia passado e o Natal aproximava-se, célere, anunciando a chegada de 1975.
O clima natalino espraiava-se, com aquele cheiro bom de mato e terra seca. Cheiro de campina no verão intenso dos idos anos 1970. Um tempo em que os vizinhos não se resumiam aos formais cumprimentos de hoje. Conviviam, se ajudavam, compartilhavam alegrias e tristezas. Eram realmente solidários.
Lembro-me de vários – vizinhos e vizinhas. Um casal, seu Aldecir e dona Mundica, continua morando até hoje no mesmo local. São mais de 35 anos sem trocar de endereço. Os filhos nasceram, cresceram, casaram, mudaram para outros bairros e cidades, e o casal sob o mesmo teto, envelhecendo e morrendo.
Passando a casa do seu Aldecir, morava seu Graça, um idoso ranzinza, sempre mal-humorado, resmungão. Um verdadeiro ermitão, o típico Urtigão, personagem do Walt Disney cuja característica é ser bastante temperamental. Seu Graça ocupava sozinho uma casa de cinco cômodos, com amplo quintal arborizado, toda murada, localizada na esquina das passagens Bom Sossego e Adão, entre as avenidas Pedro Álvares Cabral e Dalva, na antiga Marambaia.
Na época, a passagem Bom Sossego (hoje, Bom Jesus) resumia-se a dois quarteirões. Um deles, o “nosso”, era o menor e começava com a casa do seu Raimundo e dona Pedrina, donos de um comércio e de uma pequena empresa de ônibus. Tiveram 11 filhos e filhas, quase todos batizados com nomes que iniciavam com a letra “i” (Ivone, Iraneide, Ivan, Iran, Irinaldo, Isaias…).
Em seguida, vinha a casa de seu Manoel (xará do meu pai) e de dona Altair, esposa dele. Eram recém-casados, portanto, não tinham filhos. Mas seu Manoel, que era bancário e por muito tempo um solteirão convicto, já morava na casa dele desde os anos 1960. Dessa forma, era mais próximo à nossa família. Dona Altair, uma senhora muito bonita, também já conhecia meus pais por conta do prolongado noivado com seu Manoel. Ela morava com os pais no bairro do Marco, contudo, de vez em quando passava o fim de semana na Marambaia. Afinal, os tempos eram outros mas a carne sempre foi fraca.
Depois, vinha a casa de seu Aldecir com dona Mundica, e na esquina a casa que seu Graça comprara de uma família de protestantes (naqueles dias não tinha esse negócio de evangélico, era protestante, católico e os outros). Vez ou outra ele se aproximava dos vizinhos, quando reunidos na frente das casas, para trocar um dedinho de prosa, filar o lanche. Raramente passava disso. Era sozinho. Extremamente só.
Nós, meninos da rua, tínhamos muito medo de seu Graça. Um rosto sempre soturno, emoldurado por sobrancelhas espessas, lábios comprimidos, cenho fechado. Uma carranca. Caminhava com dificuldade aparente, apoiando-se numa bengala. Os adultos, como meu pai e o vizinho-amigo dele, seu Manoel, afirmavam jocosos que tudo não passava de encenação de seu Graça. Que uma vez sozinho na casa dele cantarolava, saracoteava, caminhava desenvolto, cuidava das plantas no quintal, fazia a própria comida, limpava a casa.
Ninguém nunca comprovou isso.
No Natal de 1974, ganhei do meu pai uma bola “Dente de Leite”. Um sonho de consumo de qualquer moleque da época. Reuni a galera na frente de casa, os amigos de infância que há décadas não reencontro, fizemos duas “travinhas”, três pra cada lado, e a pelada comeu no centro. Um desses, alcunhado de Zé “Chuta Forte, mandou uma “bicuda” por cima do muro da casa do seu Graça, atingindo em cheio uns vasos com plantas sob a janela de um dos cômodos.
A “pelada” parou na hora. Todo mundo correu.
Em casa, pela janela lateral, fiquei observando de esguelha a frente da casa do seu Graça. Dez minutos depois, a bola foi atirada por cima do muro dividida em duas bandas. Possesso pelo súbito “ataque” ao santuário, o vizinho indigesto meteu a faca na novíssima “Dente de Leite”. A pedido de minha mãe, não contei nada ao meu pai.
Numa noite, a três dias do Ano Novo, seu Graça apareceu na rodada dos vizinhos. Estava por lá, macambúzio, sentado numa ponta de calçada, escorado na bengala, quando minha mãe se aproximou e ofereceu uma bandeja com suculentas fatias de bolo e suco de taperebá. Os olhos dele brilharam. No momento em que começou a saborear a iguaria, minha mãe se aproximou e perguntou sem meu pai perceber: “Seu Graça, o senhor sabe quem furou a bola do meu filho?”
Na manhã de 31 de dezembro, apareceu na entrada lateral de nossa casa uma “Dente de Leite” novinha. Mais tarde, minha mãe contou que meu pai ficou zangado ao ver a bola tão à mercê e pediu a ela para me recomendar mais cuidado com as minhas coisas.
Aquela “Dente de Leite” me proporcionou as melhores férias escolares de fim de ano em Peixe-Boi, interior do Pará.

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Um comentário em “Seu Graça e as duas bandas da “dente de leite”

  1. Olá Emanoel, pela foto não te reconheci, mas acredito que nos vimos em Belém, nos tempos de Marco Soares editor, pois também fiz jornal com ele , não o Resenha , mas o Nanico!
    Ter um vizinho carrancudo e ermitão , parece ser coisa que também se extinguiu. O nosso era um crioulo, que além de tudo , por ser um negro retinto, tinha um olhar assustador, pois vislumbravamos só o branco do olho no rosto sizudo.

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