A execução do mecânico no “calor da ocorrência”

No domingo, 27 de fevereiro, três policiais militares foram à casa do  mecânico Ivanei dos Santos Castro, 33 anos, que residia na rua Laranjeira, Brasil Novo, para atender uma simples ocorrência de desentendimento conjugal. Santos Castro, pai de um filho ainda em tenra idade, discutia em voz alta com a mulher, Izonete Costa. A briga do casal chamou a atenção de vizinhos que, supostamente preocupados com o desfecho do bate-boca, entraram em contato com o CIOSP e relataram o ocorrido.
Três policiais militares chegaram à casa do mecânico. Ivanei estava alterado, ficou mais descontrolado quando viu os policiais à porta de sua casa, um imóvel humilde, igual aos milhares construídos com muita dificuldade, localizados na periferia de Macapá. Levantou a voz e quis saber quem tinha acionado a polícia, pois, no entendimento dele, tratava-se de uma “simples” briga entre marido e mulher e ninguém tinha o direito de “meter a colher”.
Um PM abordou Izonete querendo saber dela se poderia conduzir Ivanei até o CIOSP. E se a mulher, vítima das agressões verbais, formularia a denúncia. A dona de casa confirmou e se deixou conduzir à VTR, ocupando o banco do carona, enquanto dois policiais davam “voz de prisão” ao mecânico, àquela altura, completamente descontrolado. Ivanei gritava que estava em sua casa, e que não havia cometido nenhum crime, tratava-se de uma discussão entre marido e mulher, e que não entraria no “carro da ‘poliça’” porque “não era bandido”.
E começou a saracotear na frente dos policiais, esquivando-se dos ataques. Toda a cena, nessa ocasião, era assistida por dezenas de testemunhas, inclusive por duas cunhadas do mecânico que, a princípio, estavam contra ele, mas, após a PM agir com violência, passaram a defender o parente. Uma delas, Izoneide Costa, relata que Ivanei estava, realmente, perturbado, e não pretendia “acompanhar” os policiais porque julgava-se inocente, um cidadão acima de qualquer suspeita. Então, lembra ela, foi quando um dos policiais militares tentou imobilizar o mecânico com uma chave de braço. Ivanei mordeu um dos dedos do policial, libertando-se do golpe.
Com uma careta de dor e raiva, o PM fitou o mecânico, levou a mão ao coldre, preso no cós da calça da farda, segurou firme o cabo da arma e sacou. Fez oito disparos à queima-roupa. Três atingiram o mecânico em pontos vitais. Dois projeteis alvejaram as duas irmãs de Izonete, feridas nas pernas. Ivanei, executado na frente de sua casa, e diante de familiares e vizinhos, tombou às proximidades de uma valeta. Não adiantou reagir à truculência do trio de policiais militares. Resultaram em nada seus protestos de cidadão comum.
O coronel Sérgio Leitão, coordenador de Comunicação da PM, tentou amenizar o impacto do crime. Disse que “é muito fácil jugar no estúdio” a reação de um policial no “calor da ocorrência”. Ora, um policial militar é treinado para, exatamente, saber o que fazer – e como reagir – no “calor da ocorrência”. E que executar um homem comum, com três tiros à queima-roupa, não é necessariamente o “trabalho” de um policial militar.
Quando reforçou a ideia do PM ter agido no “calor da ocorrência”, o coronel PM Leitão quis dizer entrelinhas que o policial militar “apenas” reagiu às agressões – uma mordida no dedo, alguns safanões desferidos pelo mecânico, as esquivas… Mas um PM, certamente treinado em artes marciais, poderia ter reagido aplicando um golpe no oponente e imobilizando-o. Sem a necessidade de armas letais. Afinal, tratava-se de um homem de 33 anos,  transtornado, desarmado, e com certeza, sem nenhum conhecimento em artes  marciais. Mas o PM optou pelo mais fácil e trágico: sacou a arma e atirou oito vezes contra um desafeto emocionalmente descontrolado.
Oito  disparos na direção de um cidadão comum. Essa execução suscita um debate muito sério: que tipo de treinamento é ofertado pela PM aos candidatos a policiais? Quais critérios são adotados na seleção desses candidatos? Existe algum método científico para identificar os portadores de transtornos mentais, como a bipolaridade, por exemplo?
A sociedade está assombrada com tanto despreparo.

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4 comentários em “A execução do mecânico no “calor da ocorrência”

  1. Sou parente da mulher do falecido Ivanei, faço faculdade de direito, e sei que a lei que deveria ser igual para todos, mais uma vez mostrou-se falha e a favor da corrupção.

    Uma briga conjugal foi motivo suficiente para dar voz de Prisão a Ivanei, cidadão de bem e trabalhador, mas matar uma pessoa a queima roupa e a sangue frio por um motivo futio, levando em consideração que houve requinte de crueldade, nao foi motivo sulficiente para prender os policiais que continuam em liberdade.
    Isso mostra mais uma vez o a total falta de compromisso da lei com aqueles que mais precisam dela.

  2. Sou estudante de direito, e diante de uma brutalidade imensa como essa, me pergunto: qual o verdadeiro papel da PM? será que podemos confiar na PM? que formação e preparo teve esse policial? até quando teremos que chorar em virtude de atos cometidos por pessoas q dizem fazer nossa segurança?
    Cabe-me aqui, suscitar à luz da racionalidade, o que o PM não fez, pois agiu em perfeito estado de emoção, tomando por cunho de sua ação, uma “mordida de dedo”.
    A PM alega que “é treinada e tem preparo para agir em situações como essa, no calor da violência”.
    Ora, argumentos como esses não merecem prosperar, posto que se tem preparo, não pode diferir oito disparos em um cidadão, independentemente de sua conduta social, pois isso demonstra claramente a raiva e o descontrole emocional que um profissional tem, razão pela qual não há qualquer argumento que descreva essa situação, senão a “falta de preparo”.
    Por fim urge gizar que, a lei embora falha, não admite e nem tolera “abusos”, motivo pelo qual pessoas sem qualificação alguma, não merecem ingressar na segurança pública.

  3. Vocês jornalistas, sim, são despreparados pois não possuem curso que habilitem o exercício da profissão, só falam devaneios e fazem sensacionalismo em fatos que ainda não foram totalmente apurados. Vão, por um dia, acompanhar o trabalho da polícia e ver a dificuldades que são enfrentadas, vocês são nefelibatas de intelecto limitado e ampla ignorância.

  4. Estes canalhas policiais,agem dessa forma com brutalidade, o rapaz era um cidadão de bem como eu e vc; poderia ocorrer com qualquer um de nós e poderíamos ser morto por estes bandidos de farda; não quero jamais generalizar a policia que na sua maioria com certeza tem homens de bem que buscam fazer seu trabalho com base na lei. Mas, infelismente existem bandidos infiltrado na policia como estes calhordas que realizaram esta ação de morte, a justiça tem que investigar por intermédio do MP com rigor e se possível expulsa-lo da policia que na prisão esses bandidos já são merecedores de já estarem.

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