“É inadmissível que (…) o nortista continue refém de quem trata a Amazônia com menosprezo”

A Amazônia pelo retrovisor de Dilma Rousseff

A presidente eleita Dilma Rousseff (PT) já concedeu incontáveis entrevistas nos últimos dias mas em nenhuma delas falou claramente sobre qual será a política de seu governo para a região amazônica. Ela tem discorrido sobre quase tudo, menos sobre os verdadeiros interesses de mais de 20 milhões de nortistas, espalhados pelos nove Estados da Amazônia Legal, cujas necessidades exigem atenção especial do governo federal.
Nos dois turnos das eleições 2010, a então candidata Dilma esteve poucas vezes na Região Norte. E permaneceu minguadas horas, o suficiente para tratar de sua campanha com os aliados, participar de um ou outro comício, para logo depois seguir novamente para o eixo Sul-Sudeste, onde concentrou o grosso de sua artilharia contra o principal adversário, o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB), derrotado na disputa em segundo turno.
Igual à Dilma, Serra também negligenciou suas propostas para a Amazônia. Dos debates de que participou, não apresentou nem o rascunho de uma plataforma de seu hipotético governo destinada ao desenvolvimento da região – isolada e atrasada nos confins do Brasil – apesar das imponentes mineradores, siderúrgicas e agroindústrias. Serra não se aprofundou na questão “delicada e complexa” da Amazônia porque, igual ao seu amigo de partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pensa a Amazônia a partir do centro dinâmico do país, sobretudo São Paulo, como mola propulsora para promoção de mudanças nas vidas dos botocudos daqui.
Em nenhum momento, Dilma se aprofundou em questões cruciais para os amazônidas, como a devastação das florestas, transformadas em pastos, o combate às queimadas, embora nos últimos dois anos tenha ocorrido leve queda no cenário antes desolador, o uso ilegal de terras da União para culturas inadequadas ao solo, a exemplo do que ocorre no Amapá. Enfim, a presidente eleita assumirá a Presidência da República, em 1º de janeiro de 2011, levando para dentro do Palácio do Planalto, a mesma visão elitista de seus antecessores sobre a Amazônia, de Fernando Henrique Cardoso a Luís Inácio Lula da Silva.
Uma visão elitista estabelecida a partir dos grandes centros urbanos, aqui referente à capital paulistana, a três mil quilômetros de distância. A visão de Lula em relação à Amazônia, um nordestino apenas no nascimento e parte exígua de sua adolescência, mas paulistano na formação e na alma, é a mesma dos bandeirantes, abridores de fronteiras, escravizadores de índios e destruidores de biomas. A dois meses de concluir oito anos à frente da república mais poderosa da América do Sul, Lula sai deixando ínfimos legados aos amazônidas.
Não é para surpresas. Afinal, essa tem sido a postura do governo federal independente de quem esteja ocupando o cargo mais importante da nação. O entendimento dos mandatários brasileiros é o de que se pode resolver os intricados problemas amazônicos através de medidas provisórias. Ou seja, à distância. Sem  sujar as mãos. A situação pode ser comparada (na escala devida, é claro) ao feito de um século antes de Karl Marx, que escreveu sobre as colônias asiáticas do capitalismo britânico sentado – por longuíssimas jornadas – nas confortáveis cadeiras do Museu Britânico, em Londres.
Sai Lula, entra Dilma. Porém, os Estados da Amazônia Legal parecem fadados ao papel secundário de fornecedores de matéria-prima e mão de obra barata para geração de riquezas transferidas para outras plagas do planeta. E tudo com a anuência criminosa de boa parte dos políticos da própria região. Querem um exemplo? Durante a realização em Macapá da “Operação Mãos Limpas”, no dia 10 de setembro, a Polícia Federal descobriu que o governador do Amapá, Pedro Paulo Dias de Carvalho (PP), pretendia cobrar 30 milhões de dólares de um grupo indonésio chamado Salim, interessado em investir no Amapá na área imobiliária. Em troca, Pedro Paulo concederia benefícios fiscais aos asiáticos e, conforme a PF, embolsaria 20 milhões de dólares.
Por essas e outras mais graves, dos nove Estados da Amazônia Legal a situação mais crítica é a do Amapá. Em abril de 2009, a FGV Projetos, unidade de negócios da Fundação Getúlio Vargas, desenvolveu o Indicador de Desenvolvimento Socioeconômico (IDSE), um índice elaborado a partir de 36 variáveis sociais e econômicas, capaz de cotejar com apuro o nível de bem-estar nas 27 unidades da federação. O resultado mais negativo apareceu no Amapá. Foi o único a regredir. O Estado partiu de um IDSE de 65,2 pontos em 2001 (semelhante ao de Minas Gerais) e recuou para 60,4 pontos. “O Amapá deu marcha a ré em praticamente todos os indicadores”, assinalou o documento.
É inadmissível que em pleno século 21, o nortista continue refém de quem trata a Amazônia com extremado menosprezo. Como um feudo – ou pasto – precisando ainda se libertar das amarras do rústico extrativismo vegetal, que demarca a vida em dias de avançada tecnologia. Para ser ouvida e respeitada, são necessários líderes regionais empenhados em promover qualidade de vida por meio da utilização sustentável de seus enormes recursos naturais, ampliando sobremaneira a oferta de emprego e renda para os milhares de jovens e adultos em desvantagens abissais com os de regiões brasileiras tratadas com esmero pelo governo federal.
O desafio se impõe a Dilma Rousseff. Embora recusando-se a assumir esse papel, ela tem por obrigação evitar que a Amazônia se “especialize” como fronteira, o sítio do saque, do atraso, da violência, da exploração brutal dos recursos naturais – e do seu povo. Como presidente do Brasil, Dilma passará a ser responsável por tudo que advir – de bom ou de ruim – aos amazônidas. Cabe a ela garantir que as boas ações suplantem as más nos próximos quatro anos.

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