Crônica acachapante

O dia em que Zé Bolão vendeu o voto

Emanoel Reis

O sorriso de Zé Bolão foi de orelha a orelha quando o cabo eleitoral estendeu a nota de R$ 20,00 em sua direção. Dinheiro fácil, pensou ele. Era só apertar umas teclas e pronto. Por pelo menos algumas horas garantia o que comer no barraco de dois cômodos, construído em madeira numa área de ressaca, em Macapá. A mulher e os cinco filhos ficariam felizes.
Desempregado há sete meses, e sobrevivendo de serviços esporádicos de capina e faxina em casas no centro da cidade, Zé Bolão era só desespero. Para garantir uns trocados nos fins de semana preparava uma espécie de bolão com os jogos do Campeonato Brasileiro. O pessoal apostava só para ajudar o Zé, que por conta dessa atividade nada regular, passou a ser conhecido pelo vulgo de Zé Bolão.
Nos dias em que não tinha capina e nem faxina, Zé Bolão amanhecia na Feira do Produtor. Faturava alguns reais transportando mercadorias nos ombros, limpando quiosques ou lavando carros. Além de conseguir com um ou outro comerciante algumas hortaliças, umas cabeças de peixe, uns quilos de ossada.
Por isso, quando embolsou aqueles R$ 20,00, Zé Bolão festejou tomando uns tragos de “duelo” numa birosca mal-afamada. Consumiu duas garrafinhas da “mardita” e, embrigado, descangotou sobre o balcão rústico, em sono profundo.
Sonhou um sonho estranho. Na verdade, um pesadelo. Era metade homem, metade cervo. Tinha duas patas com cascos e chifres enormes. Corria numa mata densa, por veredas sombrias e sobre folhas secas. Estava apavorado. Fugia de algo que o perseguia. Um estranho pronto para abatê-lo. Ele não entendia nada. Esbaforido, resolveu parar à sombra de uma samaumeira. Olhou para trás. Viu a silhueta de um homem alto, meio obeso, armado com um rifle de caça, vindo em sua direção. Então, entendeu tudo. Ele era a caça.
Lentamente, o desconhecido foi se aproximando com a arma engatilhada. Zé Bolão queria gritar. A voz embargou. Aflito, quis fugir mas as duas patinhas bambolearam, como se estivesse embriagado. O suor em profusão empapava a camiseta puída. Zé Bolão quis movimentar os braços. Não adiantou. Era o fim.
Quando o “caçador” aplumou a mira para dar o tiro fatal, um fiapo de vento bateu nas folhagens da samaumeira e deixou varar uma réstia do sol . Zé Bolão deu um grito de pavor. Reconheceu seu algoz. Era o mesmo que estava no “santinho” que recebera do cabo eleitoral para quem vendera o voto.
Zé Bolão acordou aos sacolejos pelo dono da birosca. Abriu os olhos embaciados bem devagar. Com certa dificuldade, se ergueu do tamborete. Escorou as duas mãos no balcão. Quando olhou em volta, apontou para um cartaz e soltou um grito estridente. Como se tivesse recuperado toda a sobriedade de um vez, saiu correndo, vociferando: É ele! É ele! Não me mate! Não me mate! Eu voto no senhor, com certeza!
Abismados, frequentadores do bar viram-no desaparecer na esquina. Em seguida, olharam para o cartaz que tanto o assustara. Lá estava a imagem do candidato, olhando um olhar de peixe morto, esperando pela próxima vítima.

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