Falta indignação

Os “Mãos Limpas”, os eufemismos e as verdades absolutas

Emanoel Reis

Com base na revista Veja desta semana, seção Carta ao Leitor, adaptei o primeiro parágrafo do excelente texto intitulado “Falta Indignação” para a realidade do Estado do Amapá. Então, começo assim: O pessoal preso pela Polícia Federal na Operação Mãos Limpas, deflagrada na sexta-feira, 10 de setembro, já está solto, lépido, pimpão e fagueiro. E até desfilando em carreatas pelas ruas de Macapá, acompanhado de um séquito de fazer inveja a qualquer sultanato.

Os “Mãos Limpas” já seguem o roteiro previsto. Estão jurando inocência apesar de todas as provas materiais em contrário. Também afirmam que foram vítimas de uma terrível conspiração, com certeza orquestrada por um certo “maquiaveliano” senador que quer beneficiar candidato ao governo. E, obedecendo à CARTILHA DA IMPUNIDADE, começaram a construir verdades absolutas usando como argamassa todo o repertório de eufemismos. Mesmo os mal-ajambrados.

As principais estrelas da operação da Polícia Federal no Amapá foram ovacionadas no Aeroporto Internacional de Macapá, após quase duas semanas de prisão em Brasília. Como os espartanos celebravam o retorno de seus heróis, assim foram saudados como caraíbas advindos de terras distantes, onde enfrentaram terríveis feras e derrotaram demônios poderosos.

Foram festejados, paparicados, laureados e endeusados.

O povo a tudo acredita. Suficiente manter acesa nele a esperança de que um dia poderá ser que nem os caraíbas: fortes, destemidos, astutos e intocáveis. Enfrentaram terríveis inimigos como a Polícia Federal e o Supremo Tribunal de Justiça – e venceram. Retornaram em grande estilo, num belo pássaro de prata fretado especialmente para transportar os novos seres mitológicos do Amapá.

Se inocentes ou culpados, são OUTROS 500. O fato é que o Amapá naufraga nos mais elementares índices de desenvolvimento humano em todos os setores, da saúde pública ao agronegócio, da educação à segurança pública. No setor produtivo, continua em patamares vexatórios apesar do lançamento espalhafatoso de planos mirabolantes, a exemplo do Amapá Produtivo que até hoje não passou de manobra eleitoreira. Bem como o tal Plano de Prioridades de Desenvolvimento Humano (PPDH).

E como diziam nossos avós, não adianta tapar o sol com a peneira. Ao longo dos últimos dez anos, o Amapá regrediu. Empobreceu. Perdeu a excelência em áreas antes nacionalmente reconhecidas, como na Educação, na Saúde Pública, na Segurança.

Quem ama realmente o Amapá recordará antanho em que os estudantes amapaenses saíam de Macapá para prestar o vestibular em outras capitais e eram vistos com temor pelos demais concorrentes. Isso porque devido à qualidade do ensino público no Estado eram reconhecidos como fortes candidatos às vagas disponíveis nas faculdades e universidades.

Nos esportes, então, o Amapá tinha projeção nacional. Principalmente no futebol, berço de craques cujos feitos estão hoje registrados na história dos campeonatos estaduais e brasileiros. Na música, grandes artistas formados na Escola Walquíria Lima e que também passaram pelas mãos de consagrados mestres, como Oscar Santos, ainda hoje atuam em outros Estados, na regência de orquestras, na solidificação de carreiras solos no âmbito da MPB, em bandas de renome.

Sem esquecer o carnaval amapaense, antes entre os três mais originais, organizados e animados do Brasil. Carnaval de grandes sambistas, músicos de projeção intra e extramuros, de agremiações carnavalescas criadas apenas pelo prazer de ver extravasar a ginga dos passistas, a malemolência anima da mulher amapaense, o brilho da cultura popular nas avenidas.

O que restou de tudo isso? Quase nada. No futebol e no carnaval, politicagem. Na música, politicagem. Enfim, tudo virou e termina em politicagem no Amapá. Criou-se uma dependência tão grande dos governos que para se realizar uma simples quermesse de comunidade, acorre-se a eles (municipal ou estadual), aos poderes legislativos, às instituições. E a dependência é demasiada abrangente pois atinge, nos níveis atuais, a vida de milhares de pessoas, abrigadas na máquina pública por conta dos malfadados contratos administrativos. Perigosos instrumentos de barganha nas mãos de políticos cujo amor pelo vil metal é maior do que por sua terra natal.

Senhoras e senhores, o momento é de profunda reflexão sobre o Amapá que todo amapaense honrado deseja para seus filhos e netos. Pensem nisso.

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2 comentários em “Falta indignação

  1. Parabéns pelo excelente artigo. Retrata a realidade de um povo doente e abandonado à própria sorte e, de um estado onde a carreira político significa possibilidade de se tornar rico às custas das mazelas sociais.

  2. Parabéns pela profunda reflexão!Espero o mesmo do povo do Amapá.Faça reflexão sobre a inexistência de imprensa no Amapá.Algumas pessoas, como você, é que exercem esse papel pela internet, ainda de pouco acesso pelo povo, que vergonha!

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