Guerreiros ou Guerrilheiros

A revolução brancaleone dos zelotes

Parte I

cidadão de Roma e historiador judeu
O historiador Flávio Josefo com sua obra ainda hoje consultada em todo o mundo

Por volta do ano 6 (d.C.), a crise política na Palestina ganhava contornos de rebelião popular. O aumento dos impostos, a tirania de Roma, a submissão e a corrupção deslavada dos líderes religiosos, a miséria crescente do povo eram os estopins do enorme barril de pólvora social prestes a explodir.

Como acontece hoje, no Brasil, surgiam diariamente novas seitas, religiões e grupos políticos expondo ideologias belicosas, dogmas confusos e ensinamentos propositalmente paradoxais.

Foi nesse cenário que despontou Judas, o Galileu. Pregando contra a dominação de Roma, criticando a subserviência dos governantes judeus ao Império Romano e incitando o povo a se rebelar, negando – ou se recusando – a pagar tributos, conquistou milhares de seguidores.

Percorria os vilarejos da Galiléia denunciando as arbitrariedades (e atrocidades) praticadas pelo exército romano contra homens, mulheres e crianças indefesas.

O historiador judeu Flávio Josefo, autor de “A Guerra Judaica”, escreveu sobre Judas, o Galileu. “[tratava-se de um revolucionário], pois, censurava a população por esta pagar impostos aos romanos e a incitava ao levante, à luta armada”.

O doutor da lei (advogado) Gamaliel é apresentado no livro de Atos, de autoria do médico Lucas, capítulo 5, versículo 37, discursando no Sinédrio (senado, supremo tribunal dos judeus para impor na vida nacional e cívica a obediência ao sistema mosaico da lei sagrada) em defesa de Pedro, o Pescador, e Paulo de Tarso. “(…) levantou-se Judas, o Galileu, [contra o Império Romano] nos dias do alistamento, e levou muito povo após si”.

Na ocasião, citou, resumidamente, a história desse adversário declarado de Roma.

Esse grupo guerrilheiro conhecido pelo nome de zelotes (“zelosos”) ou sicários (porque usavam um punhal chamado sica), planejou e executou diversas operações de guerrilha contra alvos previamente estabelecidos. Judas, o Galileu, e um fariseu de nome Saduc, comandaram o banho de sangue contra os “infiéis” e “traidores” publicanos (os romanos os denominavam publicani, judeus contratados por Roma para cobrar impostos, por isso eram odiados pelo povo).

O sucesso dessas ações paramilitares na Palestina de mais de dois mil anos atrás fortaleceu ainda mais os zelotes – ou sicários. Contando com a simpatia popular, seguiram praticando o terrorismo individual e a guerra de guerrilha.

Um dos recursos usados por eles para disseminar o terror era o graffiti. Em vários lugares, em especial nas muralhas e nos arcos das pontes sobre o Tiropeon, grafitavam frases provocadoras contra os romanos. A mais comum delas era “Poncio cattivo” (Pôncio o mau), parodiando o insulto que os habitantes de Cápri dirigiam ao maligno imperador então reinante: Tibério.

As demais sentenças expressas nos graffitis eram: “Pôncio, o escravo de Segano”; “Soldado (referindo-se sem dúvida aos legionários romanos), tua vida vale dez asses? (esse graffiti originou-se no reinado de Augusto, durante o qual a paga diária de um legionário romano era idêntica à fixada por Júlio César: 225 denários anuais ou o equivalente a dez asses por dia).

Judas, o Galileu, e o fariseu Sadoc disseminavam abertamente ideias beligerantes contra os romanos. Sobre o pagamento de impostos eles afirmavam que a enorme carga tributária implicava escravidão pura e simples e pressionavam a população a lutar pela liberdade política, econômica e administrativa. Se a luta armada obtivesse êxito, assim argumentavam, os judeus teriam preparado o caminho para uma situação feliz; se fossem derrotados pelo menos teriam honra e glória pelos seus elevados ideais. Além disso, Deus zelosamente ajudaria a promover o sucesso dos seus planos, especialmente se não recuassem diante da reação que certamente viria sobre eles. O povo ouvia com satisfação, e novos adeptos aderiam à causa dos zelotes.

Quando Quirino, governador da Síria, chegou à Palestina por volta do ano 5 (d.C.) para assumir o posto de governador conforme ordem direta do Imperador César Augusto, os zelotes já não eram mais um desorganizado grupo de terroristas, que agia sem aparente direcionamento. Sob o comando de Judas, o Galileu, passou a operar como um bem treinado exército guerrilheiro. Uma facção (tropa de assalto) entre os zelotes, os sicários (do grego Sikarion, homem do punhal), era encarregada das execuções (assassinatos) de autoridades romanas, de judeus ricos e conhecidos colaboradores de Roma e de publicanos (cobradores de impostos).

Da mesma forma, membros da numerosa família herodiana eram executados pelos sicários. Porém, com o acirramento das escaramuças, pessoas comuns (pequenos comerciantes, profissionais liberais, donas de casa, jovens e até crianças) também se tornaram vítimas desses assassinos. O terror ganhou força nas estradas e ruas da Palestina, sobretudo na região leste. Isso obrigava a que não se viajasse nunca à noite e muito menos sozinho.

Os espiões do oficial romano Civílis, comandante-em-chefe da Fortaleza Antônia, localizada a noroeste do pátio do Templo, em Jerusalém, não tinham muito trabalho para cumprir as missões. Os zelotes falavam abertamente das operações terroristas que praticavam contra proeminentes personagens judeus e romanos. Os relatos chegavam em profusão ao conhecimento de Civílis. Por ele, todos os rebeldes já estariam mortos. Mas, o exército – e o próprio Civílis – dependiam de ordens do governador para agir.

O comandante-em-chefe da Fortaleza Antônia era um oficial linha-dura. Usava habitualmente sua cota de malha e um fulgurante capacete prateado, rematado por uma crista ou cimeira transversal sobre a qual se destacava um penado semicircular de plumas vermelhas. Para completar o uniforme, ostentava uma capa granadina, que mantinha segura elegantemente com a mão esquerda. Com a direita sustinha o emblema do centurionato e símbolo da disciplina do exército romano: a uitis ou ramo de videira, tão temida entre os soldados.

A seu serviço permanente estava o optio, uma espécie de suboficial ou ajudante-de-ordens, homem de confiança dos centuriões e responsável pela uigiliae ou segurança. Vestia-se como os legionários, com a gladius à direita e um pequeno punhal no flanco oposto. A única diferença consistia em uma peça metálica – espécie de greba – que se adaptava à perna direita, cobrindo-a desde o joelho até o começo do pé. As caligas ou sandálias de correia, de solas fortes e cravejadas, envolviam os tornozelos e o dorso dos pés, completando o uniforme de campanha.

VOCÊ DECIDE:

A continuidade da publicação deste trabalho deve continuar?

Deixe um comentário.

Obs.: Você também pode participar postando sua contribuição na caixa de comentários.

Por exemplo:

Há indícios de que Judas Iscariotes pertencia aos zelotes. E João Zebedeu teria descoberto essa relação clandestina. Por isso, João passou a hostilizar Iscariotes.

Anúncios

Um comentário em “Guerreiros ou Guerrilheiros

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s