O princípio da fé

Entre tantas dúvidas, uma certeza: Deus é a base de tudo

Há um mês, participando de uma reunião espiritualista, ouvi o relato de uma jovem sobre alguém que passava na frente de um templo católico e, ao aproximar-se da porta principal, levantou o braço direito e fez o “sinal da cruz” de forma muito rápida. Automática, segundo afirmou. Para ela, a pessoa não conseguiu expressar nenhuma fé no ritual de desenhar a cruz no ar. Foi uma ação inútil “porque não deve ter agradado a Deus”. “Ou Deus, mesmo nessas circunstâncias, pode levar em consideração essas manifestações”?

Surpreendido pelas perguntas, o coordenador do encontro tergiversou. Ele não estava preparado para esse tipo de abordagem. Questões milenares condensadas numa única palavra: dúvida. Uma espada de infinitos gumes a permear fé e razão desde tempos imemoriais. Talvez mesmo antes da existência do Princípio.

Podia-se ver nas expressões daquela mulher a ânsia em encontrar respostas satisfatórias para dissipar essas e quem sabe outras tantas dúvidas que a consumiam. Naquele momento, observando-a à distância, me veio à lembrança um querido amigo e professor dos meus tempos de seminarista, pastor Ezequiel José de Freitas. Certa vez, ao abordá-lo sobre a natureza humana de Jesus Cristo, o religioso sapecou: “A dúvida é o princípio da fé, meu caro Emanoel”.

Mesmo após concluir meu curso de bacharelado em Teologia, no Seminário Teológico Batista Equatorial, não consegui me livrar daquelas dúvidas. Com o tempo, outras centenas se juntaram às antigas e formaram uma avalanche que avançou célere para soterrar minha microscópica fé. Então, antes que virasse pedra no caminho de inocentes, distanciei-me dos púlpitos sagrados para dedicar meus dons e conhecimentos às atividades mundanas. Não me regozijo disso.

Creio, sem parecer demasiado presunçoso, que naquela sala talvez eu tenha sido o único a realmente compreender o que se passava nas profundezas espirituais daquela mulher. Não considero um privilégio. Antes, um fardo de dimensões imensuráveis.

Dentre os muitos relatos bíblicos enraizados em minh’alma há um em especial que deixou marcas indeléveis. Imaginemos um sujeito que desde a meninice cumpre rigorosamente todas as leis da Torá. Um homem acima de qualquer suspeita. Herdeiro de imensa fortuna, benquisto pela sociedade, excelente patrão, mais ainda como filho, marido e pai. Ocupa lugar de destaque no Sinédrio. Participa ativamente das atividades religiosas de sua sinagoga. Enfim, um homem com tudo para ser feliz.

No entanto, apesar de bafejado pela sorte, carregava dentro de si profunda tristeza ocasionada por uma terrível dúvida: o que precisaria ele ainda fazer para herdar a vida eterna? Esta pergunta aquele homem fizera aos sábios mais conceituados de seu tempo. E nenhum deles conseguira dar uma resposta regular.

Um dia ouviu falar de um certo Yeshua, profeta de feitos extraordinários que vinha em direção à sua cidade, arrastando atrás de si multidão de peregrinos. Logo, estaria ao seu alcance e quem sabe poderia, enfim, esclarecer a dúvida que tanto o atormentava.

Agora, imaginemos a seguinte cena: um homem rico atravessando a turba a cotoveladas. Pisando nos pés de uns e outros. Dando e levando safanões involuntários. Pedindo licença aqui, desculpas acolá. Tudo isso para se aproximar de um galileu com fama de curador de cegos e ressuscitador de mortos.

E Yeshua sentiu a proximidade daquele homem. Era uma energia muito forte, muito boa. Voltou-se para recebê-lo com extremado afeto.

– Bom Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?

Yeshua o ouviu. Enxergou dentre dele a Luz. Todavia, como um candeeiro sob o alpendre, não iluminava toda a casa.

Domingo, 16 de maio, uma reportagem muito bem elaborada exibida no Globo Rural me comoveu sobremaneira. Era sobre um tal “encantador de cavalos”, o americano Monty Roberts, e os resultados surpreendentes da equinoterapia. Na sequência, o repórter entrevistou um jovem cujo tratamento resultou tão bem-sucedido que atualmente ele cursa Teologia numa faculdade.

A pergunta do repórter da TV Globo:

  • Você acredita em Deus?
  • Aaaaaaaaaacreeeedito!!
  • Por que?
  • Pooooorqueee EEEEEllllleee éééé aaaaa baaase deeee tuuuudo!

Atualmente esta, também, é a minha única certeza.

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