Crimes e Criminosos

Os assassinos estão à solta e bem perto de nós

Durante seis anos e meio, exerci a função de repórter de polícia em Belém (PA). Primeiro, no jornal Folha do Norte. Depois, em O Liberal, ao lado do experiente Ítalo Gouvêa, hoje aposentado muito contra a vontade dele. No decorrer desse tempo, testemunhei coisas terríveis. Crimes os mais cruéis cometidos por pessoas “aparentemente normais”, benquistas na sociedade, que não fumavam , não bebiam, frequentavam a igreja assiduamente, tinham muitos amigos “de posição”, trabalhavam com afinco. Enfim, eram cidadãos comuns, “(…) como esses que se vê todos os dias nas ruas”. E que, não se sabe porque cargas d’água, se transformaram em assassinos implacáveis de pessoas com as quais mantinham estreitas relações familiares e sociais.

Naquela época (de 1990 a 1998), quando fatos dessa monta repercutiam, as pessoas se quedavam, paralisadas, diante do inexplicável mais do que hoje, com a violência em assombrosa espiral crescente no mundo todo. Ainda vislumbrava-se na capital paraense um certo ar provinciano, por isso tais crimes eram comentados com mais frequência.

Confesso que demorei a me acostumar com o trabalho. Meu primeiro editor, o advogado e jornalista Walter Pinho, virou meu “confessor” e “orientador”. Quando eu exagerava nos queixumes sobre a sordidez da função, ele resumia sem nenhuma comiseração: “alguém tinha de fazer o trabalho sujo”. Ou seja, o de cobrir os bastidores da Polícia e manter a população informada, se possível, à frente dos demais concorrentes. Pinho era um ardoroso defensor do chamado “furo de reportagem”, que hoje se tornou raridade nas redações. Porém, não compartilhava do “vale tudo” para se conseguir tal “furo”. Era um sujeito mais polido.

A coisa degringolou mesmo foi com a chegada do falecido jornalista Antônio Gouvêa, irmão mais velho do Ítalo, que à época contava quase 40 anos de atividades na reportagem policial. Um verdadeiro “monstro sagrado” no assunto. “Gouveão”, como era conhecido na redação da Folha, era um “carniceiro”. Mais “policial” do que repórter. Para ele, qualquer assunto na área poderia ser convertido numa boa matéria. Foi dele que ouvi pela primeira vez o “sagrado mandamento do repórter de polícia”: são dos pequenos dramas familiares que surgem as grandes tragédias.

Tanto naquela época quanto hoje, apesar da experiência que julgo ter no assunto, crimes “com requintes de crueldade” (lançando mão de um velho – e batido – jargão da reportagem policial) comovem, impressionam, surpreendem, revoltam, indignam e deprimem. E sempre ressurge a velha pergunta: por que tanta violência, meu Deus?

O que levou esse rapaz, o Wellington Costa, um universitário de 19 anos, com toda uma vida pela frente, a cometer crimes tão “bárbaros” (outro jargão necessário…)? Ele confessou, afirma a polícia, contudo existem perguntas que precisam ser respondidas. Por exemplo, essa. O motivo de tamanha crueldade praticada contra pessoas que, certamente jamais sequer conjeturaram, seria praticada contra elas exatamente por quem convivia, como suposto amigo, no cotidiano daquela casa.

E o que todo mundo sempre quer saber quando fatos iguais acontecem é como se prevenir contra esses loucos que orbitam no entorno. Pessoas “aparentemente normais”, de boa aparência, simpáticas, solícitas, às vezes ostentando certo verniz cultural. Sinceramente, pelo que eu testemunhei e o que vejo nos noticiários mundo afora, não existe nenhuma proteção disponível. Isso porque o demônio pode emergir em qualquer um. De dentro de um (a) filho (a) transtornado (a), de um tio vivendo um dia de fúria, de um empregado frustrado, de um pai ou mãe descontrolados, de um amigo de anos que embriagado mata “por motivos banais” (mais um jargão), de um veterano de guerra mentalmente comprometido, de um líder religioso fanático – ou não.

Como a advogada Caroline Camargo Rocha Passos, mãe de Marcelo e Vithória Konishi, poderia adivinhar que aquele sujeitinho simpaticão, conversador, que de tanto frequentar sua casa ganhara status de “membro” da família, viria a se tornar seu algoz e o de sua filha e filho? É isso o que eu quero dizer. E a sociedade, embasbacada, pergunta: como se prevenir contra esses assassinos e assassinas que vivem perto de nós como membros da família ou como amigos íntimos?

Isso me fez lembrar a composição de Herbert Viana, “O Calibre” (que considero apropriada para uma profunda reflexão). Ela resume bem essa dúvida: “Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo”…

Sem saber o calibre do perigo

Eu não sei d’aonde vem o tiro

Por que caminhos você vai e volta?

Aonde você nunca vai?

Em que esquinas você nunca pára?

A que horas você nunca sai?

Há quanto tempo você sente medo?

Quantos amigos você já perdeu?

Entrincheirado, vivendo em segredo

E ainda diz que não é problema seu

E a vida já não é mais vida

No caos ninguém é cidadão

As promessas foram esquecidas

Não há estado, não há mais nação

Perdido em números de guerra

Rezando por dias de paz

Não vê que a sua vida aqui se encerra

Com uma nota curta nos jornais

Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo

Sem saber o calibre do perigo

Eu não sei d’aonde vem o tiro.

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Um comentário em “Crimes e Criminosos

  1. Essa questão que voce coloca e complementa com a música dos Paralamas é enigmática! São tantas situações inquietantes… Acho que o demônio se apossa dos espíritos fracos para cometerem essas tragédias.

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