Profissão de Fé

O DIA DO JORNALISTA

Por volta das 11 da matina da quarta-feira, 7 de abril, o Douglas Lima, editor-chefe do Diário do Amapá, me ligou pedindo para eu ajudar uma colega em comum, recém-contratada pela empresa para exercer o sagrado ofício de repórter. Trata-se da Natália Campos. Ela está produzindo reportagem especial para veicular domingo, 11 de abril, sobre a migração na Amazônia. Claro, com enfoque no Amapá. E como tempos atrás produzi amplo trabalho sobre o assunto, o Douglas considerou que poderia ajudar a Natália, jornalista profissional que veio recentemente do Ceará e está encantada com Macapá. Que bom!

Contudo, indubitavelmente acabamos falando sobre o Dia do Jornalista. O Douglas comentou que minutos antes da ligação para mim, também conversara com a Natália sobre o assunto: o Dia do Jornalista. E segundo ele, a nova funcionária do Luiz Melo polemizara afirmando que não havia muito o que comemorar nesse dia. O Lima discordou. Também divergi da opinião da Natália. Temos, sim, muito o que comemorar. Principalmente após a promulgação da chamada “Constituição Cidadã”. Apesar de que ultimamente os atentados contra a plena liberdade de expressão tenham se tornado constantes. Mas, creio, estamos resistindo bravamente.

Tenho 49 anos de idade. Há 26 exerço o Jornalismo como profissão de fé. Por isso, faço minhas as palavras do grande Samuel Wainer: o jornalismo me faz viver. E literalmente. Nunca me arrependi de ser Jornalista. Foi uma opção minha. Uma opção de vida. Tanto que recentemente, em visita à minha mãe que reside em Belém, andei externando alguns queixumes sobre o “ser” Jornalista hoje em dia. E ela, após me ouvir, resumiu sucinta e sábia: Foi ‘isso’ que tu escolheu ‘prá’ ti! O “isso” a que dona Rosa se referiu é o Jornalismo. Ela tem razão. Não pedi conselho a ninguém quando, no fim dos anos 1970, decidi trocar o curso de Psicologia para o então recém-implantado curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Como dizem (jargão ou “velho deitado”), comi o pão que o Diabo amassou para me formar. Perdi as contas de quantas vezes saí de casa, no bairro da Marambaia, avenida Pedro Álvares Cabral, às proximidades da avenida Dalva, para seguir a pé pela avenida Almirante Barroso, até São Brás, travessa Castelo Branco, para tentar uma carona até o campus do Guamá. E em muitas ocasiões, confesso isso a vocês, com apenas um café preto, daqueles bem esquálidos. Nem sei de quantas aulas assisti com a barriga roncando. Diante de tamanha dificuldade, é claro que pensei em abandonar os estudos, arranjar um emprego qualquer para ajudar minha mãe. Mas, logo eu exorcizava tais pensamentos e, como todo bom brasileiro, sempre dava um jeitinho para garantir a sobrevivência.

Histórias de vida iguais a minha existem muitas. Por exemplo, gosto de contar a do meu amigo Nemézio Filho: “Negro, pobre, estudante de Comunicação; porém, um vencedor”. Quando escrevi isso, numa crônica publicada na Folha do Norte, em dezembro de 1991, o jornalista Paulo Jordão, que era o editor de Polícia da FN dos Maiorana, explodiu numa gargalhada canalha. “Puta que o pariu, Emanoel Reis! Tu sacaneaste com o cara, porra! Chamaste ele de preto e pobre, e ‘prá’ fechar, disseste que ele não passa de um ‘fudido’ de um estudante de Comunicação! E com tudo isso, ainda é um vencedor! Quaááá!… Quá! Quá! Quá!”

Realmente, como bom canalha o Jordão não perdia uma para sacanear a rapaziada do baixo clero da redação. E eu cometera o deslize. Não tinha jeito. Pensei em “homenagear” o Nemézio, então com 18 anos e no quarto semestre de Jornalismo, na UFPA, estagiário na Editoria de Polícia da FN, acabei, mesmo, foi escrachando o sujeito. Antes do Jordão inocular a peçonha na mente da moçada, o Negão até agradeceu a “homenagem”. E eu fiquei feliz da vida porque considerava aquele aspirante a “foca” um dos talentos mais promissores do jornalismo paraense.. E realmente, o Nemézio arrebentou nos anos sequentes. Jornalista na essência. Um texto primoroso. Faro para a notícia. Sempre atento aos mínimos detalhes. Cético até a medula. Apesar de todas essas qualidades, o Nemézio não queria envelhecer nas redações dos jornais. Era ambicioso. Queria mais.

O Nemézio era o primeiro dos três filhos de um casal de negros que morava numa área de altíssimo risco social localizada no Tapanã, Vila de Icoaraci. Oriundo de família carente, iniciou os estudos em escolas do próprio bairro. Mesmo com tantas dificuldades, e como eu, no passado, às vezes sem ter o que comer, concluiu o então 2º Grau no renomado “Paes de Carvalho” aos 16 anos, imediatamente foi aprovado no vestibular sem precisar de cursinho, optou pelo curso de Jornalismo. Aos trancos foi concluindo a graduação. Formou-se aos 21 anos. Mais tarde, concluiu o Mestrado na UFPA. E, cerca de quatro anos atrás tornou-se doutor em Comunicação Cultural pela UFRJ. Há dez anos mora no RJ. Atualmente, é professor da Universidade Estácio e candidato a uma bolsa para pós-doutorado numa universidade dos EUA.

Por causa dessas e de outras histórias que eu vivi é que o Dia do Jornalista representa muito para mim. E eu tenho, sim, muito o que comemorar.

POR ISSO, UM FELIZ DIA DO JORNALISTA PARA TODOS OS JORNALISTAS DO AMAPÁ!

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Um comentário em “Profissão de Fé

  1. Prezados(as),

    A matéria, sem dúvida foi muito boa e merece uma continuidade. O papel do jornalista, sem dúvida, é fundamental para para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e econsciente. À jornalista Natália, uma excelente e longínqua carreira, e que a “verdade” e simplicidade de produzir uma mat’eria seja como o inicar das primeiras palavras de uma crançaa… Longa vida. Ao Emanoel Reis, que seja sempre um “acelerador” dos estáticos…

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