Vida de ribeirinho

Ribeirinhos: os desbravadores da Amazônia

As alegrias e as tristezas de quem usa rios e igarapés do AP

Gabriel Penha – Especial para o Amapá Em Dia

 

amazônidas
Milhares de pessoas sobrevivem dos rios e igarapés

 Existe uma parte do Estado do Pará, ao norte do Amapá, pouco conhecida ou desconhecida de muitos paraenses. São as centenas de comunidades ribeirinhas, localizadas na divisa com o Estado do Amapá, muito mais próximas de Macapá do que de Belém. São localidades pouco habitadas, pertencentes a municípios paraenses como Chaves, Gurupá, Breves e Afuá. A única via de acesso a elas são os caminhos naturais da Amazônia: os rios. As viagens, quase sempre são arriscadas, feitas em pequenas embarcações com pouca segurança e assusta quem é marinheiro de primeira viagem. Pessoas viajam em redes, ou espremidas entre mochilas e cargas. O que dá noção de distância não são quilômetros, mas sim o tempo que a embarcação leva da saída ao destino. Como um paradoxo, o cenário durante o percurso é compensador. A Capitania dos Portos de Macapá, com sede no município de Santana, possui pouco contingente e material logístico para fiscalizar o trânsito desses barcos. Daí, naufrágios em regiões ribeirinhas são comuns. A delegacia da Capitania em Macapá é responsável pela fiscalização dos 16 municípios do Amapá, além de toda a área das cidades paraenses de Afuá, Chaves, Gurupá, Breves, Portel e Porto de Moz.A vida dura nas embarcações

Aos 36 anos de idade, Lindomar Nascimento Brito navega desde menino pelos rios da Amazônia, numa dura rotina de buscar produtos como melancia, camarão e madeira no interior paraense para vender em Macapá. Ele conhece muito bem os perigos escondidos ao longo dos rios, como as “pororocas” (fortes maresias, capazes de levar uma embarcação a pique) ou bancos de areia. “É uma rotina muito dura. É uma vida trabalhosa, mas já estamos acostumados, mesmo quando ‘tem’ chuvas fortes ou marés lançantes”, conta o embarcadiço.
Na companhia da esposa Elizângela Romana Baía, 33, e dos quatro filhos (o maior com 15 e menor com quatro anos), quase toda semana Brito faz, na pequena embarcação Hino do Brasil, o trajeto entre Macapá e a bucólica vila de Rio Arrozal, pertencente ao município de Chaves (PA). Lá, também vivem os pais dele, Mário, 60, e Ana Brito, de 52 anos. “Eles nunca falaram em sair de lá para morar na cidade”, conta Lindomar.

Isolamento e dificuldade
Com a grande distância dos centros urbanos de Macapá e Belém, as comunidades ribeirinhas da fronteira Pará/Amapá também sofrem com a ausência do poder público. Na maioria delas não há energia elétrica (a não ser de pequenos geradores), água encanada, saneamento básico, hospitais, delegacias e o ensino geralmente é até a 4ª série. “Se quiser concluir o ensino fundamental ou médio, é preciso ir para Macapá”, relata Elivaldo Corrêa da Costa, líder comunitário de Ipixuna Miranda, comunidade a cerca de três horas e meia de barco da sede de Macapá.

A sobrevivência é garantida pela agricultura de subsistência, pesca e caça. Alguns chegam a cultivar pequenas produções de hortaliças para a venda em Macapá, o mesmo acontecendo com o peixe, o camarão e o açaí, que abastecem pontos do comércio macapaense, como a Feira do Pescado e Doca do Santa Inês. “É uma vida difícil. Não queremos o mesmo pros nossos filhos, por isso a gente aconselha eles a estudar (sic)”, diz o pescador Rogério Amaral da Silva, de 42 anos. “Tem que vencer a maré brava, ficar com o barco ancorado durante alguns dias, em condições ruins e encarar a viagem de volta ao menos três vezes por mês”, conta, enquanto habilmente cortava um filhote, numa barraquinha na Feira do Pescado.

Trocou a cidade pelo interior
Essa dura realidade e a esperança de dias melhores geralmente incentivam o êxodo rural. No entanto, o movimento contrário também acontece. Na pequena localidade de Rio dos Alegres, pertencente ao município de Gurupá, por exemplo, encontramos Pedro Rodrigues da Silva, de 49 anos. Ele mora ali há pelo menos 17 anos. Pedrinho, como é conhecido na comunidade, deixou Macapá, onde vendia pão caseiro, para tentar ganhar dinheiro e mudar de vida com o que a floresta oferece. “Tentei fazer uma criação de camarão aqui, mas não deu certo. Junto com um sobrinho, plantei mais de mil pés de açaí, que garantem o sustento em certa época do ano”, conta.
Mesmo com as dificuldades enfrentadas no dia-a-dia, Pedro é firme ao dizer: “Não voltaria a morara na cidade. Sinceramente”.

A linguagem da floresta no rádio
O isolamento das localidades ribeirinhas é físico e estrutural. No entanto, isso não quer dizer que eles não estejam antenados com o que está acontecendo no mundo e com os parentes que estão em Macapá ou em outras localidades, mesmo que ainda não haja internet ou TV. O canal para isso é a Rádio Difusora de Macapá, a mais antiga do Amapá, que completou 62 anos no último dia 11 de setembro. O sinal da emissora, que é estatal, alcança todo o Amapá e grande parte do Pará.
Um dos programas mais usados para essa comunicação é o “Alô, Alô Amazônia”, no ar há mais de 50 anos, apresentado de segunda a sábado, das 13 às 14h30min. Pela manhã, a recepção da RDM recebe as mensagens que serão lidas no decorrer do programa, geralmente recado para familiares, amigos, notas de falecimento, felicitações de aniversário, dentre outras, as quais se transformam num calhamaço nas mãos dos locutores. Na verdade, são falas e extratos de diferentes lugares.

O programa é tema do livro “Alô, Alô Amazônia, a Linguagem da Floresta no Rádio” (editora Limiar). A publicação é resultado da tese de mestrado em Comunicação do autor, Bendito Rostan Martins, defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O cineasta canadense Gavin Andrews também embarcou (literalmente) na idéia e visitou várias comunidades ribeirinhas para a produção do filme longa-metragem homônimo ao programa de rádio, lançado ano passado. O projeto foi o vencedor da edição amapaense de 2006 do DOCTV, prêmio para fomentar a produção audiovisual no Brasil, através de instituições como a Fundação Padre Anchieta e Ministério da Cultura (MinC).

A radialista Janete Carvalho apresentou o “Alô, Alô Amazônia” durante cinco anos, até o fim de 2006. Em setembro daquele ano, quando a Rádio Difusora completou seis décadas, ela organizou o sorteio de sessenta rádios para comemorar a data. A promoção recebeu cerca de 25 mil cartas, dos aficionados ouvintes das localidades ribeirinhas. “É uma prova inconteste do poder que o rádio exerce nessas comunidades”, pondera Janete.

Tem festa no coração da floresta

Quem pensa que a rotina dos ribeirinhos se resume a garantir a sobrevivência, através da agricultura, caça e pesca se engana. Eles também sabem se divertir. E muito. Na maioria desses lugarejos, há uma sede para a realização de animadas festas.

Uma das mais tradicionais acoteceu na noite 21 de junho, em Rio Arrozal. A festa de São João é realizada anualmente pela comunidade. A cena é comum das festas no interior: pela parte da tarde, as embarcações já começam a trazer as pessoas; gente de longe, de dezenas de comunidades próximas. Geralmente, a diversão noturna é precedida de torneios de futebol, em improvisados campos de moinha.

À noite, (cumpridas as obrigações religiosas, quando é o caso), as sedes ficam pequenas para as festanças no meio da floresta. A Sede Vitória, em Rio dos Alegres, por exemplo, tem capacidade para cerca de três mil pessoas. “Apesar de estarmos no interior, procuramos sempre zelar pela segurança e conservação do local”, conta o proprietário Pedro Silva. “A cada ano que passa, as festas no interior atraem mais gente. Isso é muito bom”, endossa Lindomar Brito, ao falar da festa de Arrozal. A animação fica por conta do brega que toca nas chamadas “aparelhagens”.

Mesmo com semblante cansado, mas sem deixar de sorrir, os moradores dessas regiões, que parecem ter parado no tempo, buscam dias melhores e a chegada dos benefícios do poder público. Mas sem deixar de cantar, dançar e se divertir. E assim, a vida à margem do rio continua.

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9 comentários em “Vida de ribeirinho

  1. eu ja fui ribeirinho hoje morro em belem .
    mas sei todas essas dificuldades que essas pessoas passam vivendo em uma amazonia tao rica e ao mesmo tempo tao pobre…
    mas com todas as dificuldades eles tentam ser feliz..

  2. e muito importante esta pagina porque, ajuda muitas pessoas a saber mais sobre os povos ribeirinhos e como eles viver

  3. VIAGEI COM O SITE!POIS ALEM DE AJUDAR PARA CONSTRUÇÃO DE UMA EXPOSIÇÃO PARA ESCOLA ONDE TRABALHO, APREDIR COISAS MUITO INTERESSANTE SOBRE A VIDA RIBEIRINHA,LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO O ESTADO DO AMAPA.PARABENS!

    1. Conversa essa de o povo ribeirinho ser sofrido sofrido e esse povo da cidade q vive no meio das bostas comendo porcaria sobras iguais a porcos e ainda se acham sao idiotas ignorantes hipocritas isso sim manipulados por uma corja de engravatados que so pensam em hiates avioes e muitas putas em suas mansoes viver em meio a natureza e se libertar do podre e essa e a verdade eo resto e lezura fui.

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