Mídia controversa

Jornalismo policial: sangue encadernado

Artigo de Lúcio Flávio Pinto gera opiniões divergentes

 

editor Jornal Pessoal
Lúcio Flávio Pinto: excessos na reportagem policial

 O noticiário policial dos três jornais diários de Belém é motivo de críticas crescentes por seu descompromisso ético e mesmo profissional. Nas páginas do caderno de polícia o que interessa é atender a morbidez do leitor por sangue e tragédia e ajudar a vender mais. Por isso, foi com muito interesse que li a entrevista de Dilson Pimentel ao último Troppo, o suplemento dominical de amenidades de O Liberal. Dilson, de 40 anos, está há mais de 10 na reportagem policial. É um repórter aplicado e uma pessoa atenciosa. Mas não consegui associar suas declarações ao objeto das suas considerações. Questionado sobre o “caráter de espetacularização da violência” nos cadernos de polícia, “principalmente em termos de imagens”, ele opina: Acho que os jornais têm, sim, que noticiar a violência, mas fazer isso sem estardalhaço, sem sensacionalismo. Devemos nos limitar a noticiar o que está acontecendo, que é o que fazemos no jornal O Liberal, sempre tendo muito cuidado na apuração das informações. Há notícias que falam por si só. São chocantes e fortes em sua essência. Não precisamos realçar isso”.

Provocado a estabelecer o limite entre “a reportagem que denuncia” e a “condenação antecipada”, pondera que esse limite está no bom senso: “É preciso ter muito cuidado na hora de divulgar certas informações (…). É melhor deixar de divulgar certas coisas a publicar uma matéria que poderá destruir reputações”.

Em tese, Dilson tem razão. Essa razão, contudo, não existe na edição do material que O Liberal tem publicado. O paroxismo, em sentido completamente contrário ao das ponderações do repórter, foi alcançado na cobertura do acidente de carro que vitimou cinco jovens no veraneio deste ano em Salinas, aqui já comentada (JP 423). A imagem da cabeça desgarrada do esqueleto de uma delas contradisse, em grau absoluto, a teorização de Dilson, tornando-a vazia.

Durante toda a semana anterior à edição dominical do jornal, que trouxe a entrevista, o caderno policial desmentia as declarações do repórter. Na segunda-feira, 29 de setembro, o caderno, com seis páginas em formato standard, exibia três fotografias de cadáveres. Na terça-feira, quatro “presuntos” (sendo três fotos de um único morto). Na quarta, só um. Na quinta, quatro. Na sexta, nenhum (a vendagem caiu?). No sábado, três.

Deve-se dizer, em benefício de O Liberal, que a cobertura do Diário do Pará, embora ocupando metade do espaço (oito páginas em formato tablóide, equivalentes a quatro páginas standard), consegue ser mais sangrenta. Ambas, porém, não respeitam a imagem das pessoas mortas, não são rigorosas na apuração das informações, falseiam dados, algumas vezes inventam e, em quase todas as matérias, não escondem o propósito comercial de explorar o que consideram o leitor-padrão desse tipo de jornalismo. Se ele é assim, atraído pela face mórbida da vida, esses jornais sensacionalistas fazem tudo para que continue assim. Não lhe oferecem qualquer opção para mudar, ou tentar algo novo. Na apuração final, querem que a violência persista – ou até aumente. Para que vendam mais jornais.

Pode ser que jornalistas como Dilson Pimentel estejam tentando mudar essa situação, cada vez mais escrachada. Quem lê o seu jornal, porém, não pode deixar de constatar que seu esforço tem sido em vão, ou só consegue efeito residual. A imprensa paraense, como vampiro midiático, quer sangue. Mais sangue. Não indistintamente, entretanto: do “povão”, aquele que lê esses “bancos de sangue encadernados”, como dizia o tropicalista Gilberto Gil, e que fornece o próprio sangue sem reclamar da exploração de sua imagem. É só assim que a família pode anunciar para a vizinhança: o morto, afinal, virou notícia de jornal.

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