Os focas

O desabafo do jornalista Paulo Silva

Contra o desempenho bisonho dos novatos

os focas de hoje
Novatos saem das redações totalmente perdidos

Perdidos: Quarta-feira [3 de fevereiro], na coletiva do vice-governador Pedro Paulo e do deputado Jorge Amanajás, havia um grupo de jovens repórteres sem saber o que estavam fazendo ali e o que perguntar aos dois. Estagiárias, elas saem da redação sem nenhuma orientação de seus editores. É do tipo vai e te vira”. Este é o conteúdo do desabafo do jornalista Paulo Silva, expresso em sua coluna “Informe…”, no jornal A Gazeta, edição de sexta-feira, 5 de fevereiro. Infelizmente, o Paulão está certíssimo quanto ao desleixo de editores – e principalmente dos próprios donos de jornais – em relação aos jovens repórteres, antigamente alcunhados de “focas” (“Jornalistas novatos…” – Bras. Gír. – N. Dic. Aurélio). Saem das redações às escuras, sem nenhuma orientação sobre o cumprimento das pautas. Aliás, às vezes nem recebem uma pauta formal. Realmente, é na base do “te vira” e seja lá “o que Deus quiser”.

Todavia, esse desempenho bisonho é resultado de uma avalanche de equívocos cujas origens remontam à formação acadêmica. A começar pelos professores – evidente, há exceções – que se tornam professores sem sequer ter exercido cotidianamente a profissão de jornalista. Concluíram a graduação, fizeram uma pós “relâmpago”, dessas de fim de semana, mais uma ou outra especialização inexpressiva, pronto: tornam-se “professores” sedimentados unicamente no conhecimento especulativo. Práxis, pouca ou nenhuma. Ainda assim, as empresas-faculdade os contratam às carradas.

E os alunos desses “professores”, mais tarde formados e no mercado de trabalho, tornam-se editores, produtores de TV, de agência de publicidade ou assessores de Imprensa. Então, se no decorrer do curso apenas vivenciaram muita teoria e pouca prática, como poderão desenvolver um bom trabalho no exercício dessas funções? E ainda há um agravante a registrar: a completa inabilidade de alguns para o exercício do jornalismo. São jornalistas de direito, porque formados, mas, enfrentam muita dificuldade para se tornarem jornalistas de fato.

Existem jornalistas que jamais escreveram uma boa (nem mesmo uma razoável) reportagem, porém, são editores de jornais. E pior: tremiam ante a possibilidade do cumprimento de uma pauta. Mas, com um mercado editorial tão insípido acabam se tornando um bom negócio para os donos das empresas. Aí está o problema testemunhado por Paulo Silva.

Nos anos 1980/1990, existiam os repórteres A, B e C. O “A” era o iniciante, aquele que ainda engatinhava na profissão. O “foca”. A ele, o chefe de reportagem passava as pautas mais brandas, o chamado “rami-rami” do dia-a-dia. Aquelas pautas que os repórteres mais experientes abominavam. Somente após um ano “de muita ralação”, e com avaliação positiva do chefe de reportagem, do editor de caderno e do diretor de jornalismo, é que ele ascendia à repórter “B”. Era uma festa. Além do salário aumentar “pouca coisa”, o “B” “ganhava” uma equipe completa, com repórter fotográfico e motorista.

Passados mais 12 meses, e com nova aprovação geral, aí sim, ele era promovido a repórter “C”. “Pegava” as pautas mais pesadas, que requeriam muito tirocínio, uma agenda alentada e um considerável leque de fontes. Os mais talentosos, logo galgavam mais um degrau e tornavam-se “repórteres especiais”, com direito a um bom salário e outras regalias. Eram responsáveis pelas, digamos, reportagens de fundo, as investigativas, as que rendiam nome no alto da página e manchete de capa. As matérias de interesse do dono da empresa.

Nessa época, todo repórter aspirava ter o nome “brilhando” no alto da página. Não era muito fácil, não. O jornalista precisava demonstrar alguns atributos. Por exemplo, ter um excelente texto, um faro incomum para a notícia, espírito competitivo para “furar” o concorrente, etc. Dependendo dos resultados e de suas aptidões, ele poderia permanecer como repórter “C” ou “especial” por alguns anos. Três, cinco, dez anos. Ou então ascender ao cargo de redator, editor, editor executivo, e nesses casos, acaba virando um burocrata. Ou ser contratado por outra empresa jornalística, pedir demissão ou ser demitido.

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