Para repensar

‘Temos que noticiar a violência, mas sem estardalhaço’

Essa afirmativa suscitou debates em vários veículos do mass-media

 

jornalista o liberal
Dilson Pimentel, repórter de polícia em O Liberal

 O jornalista Dilson Pimentel, 40 anos, trabalha há mais de dez anos como repórter na editoria de Polícia do jornal O LIBERAL, mas antes passou pelos cadernos de Educação e Atualidades. No jornalismo policial, ele tem a missão nada agradável de retratar a violência do dia-a-dia e suas vítimas. Nessa entrevista, Dilson conta mais sobre as peculiaridades desta profissão. Confira.

Troppo – Qual foi sua primeira reportagem policial e como você reagiu?

Dílson – Foi sobre um preso que morreu (ou foi morto, segundo suspeitava-se naquele momento) dentro da cela de uma delegacia do interior do Estado. Eu me lembro desse episódio (ocorrido em novembro de 1995) porque, na época, ajudei a retirar o caixão de dentro do carro, para que o repórter-fotográfico registrasse a imagem do morto. Foi uma demonstração clara de que, a partir daquele momento, eu estava entrando em outro mundo no jornalismo, bem diferente da área educacional.

Troppo – Você observa diferenças entre o jornalista policial e os de outras editorias?

Dílson – Talvez a principal diferença seja a imprevisibilidade da editoria de Polícia. Nas demais, o repórter geralmente já sai com as pautas do jornal. Na de Polícia também, mas, no nosso caso, o grande pauteiro é a rua. Por isso, tudo é muito imprevisível. Está tudo calmo e, de repente, ocorre um fato de grandes proporções – um assalto, um incêndio, um acidente, um homicídio, uma rebelião. Ou tudo isso ao mesmo tempo.

Troppo –O que mudou no jornalismo policial ao longo do tempo?

Dílson – Acho que o perfil dos jornalistas que atuam nessa área. São oriundos de outras editorias, o que lhes dá uma visão mais arejada na cobertura dos fatos policiais. Outra mudança é que hoje é mais fácil obter informações sobre os assuntos. Todas as Polícias (Civil, Militar, Federal, Rodoviária Federal, e a Guarda Municipal de Belém) têm assessoria de imprensa que abastecem as redações e os repórteres com notícias. Todos os jornalistas têm acesso às mesmas informações, portanto, o desafio é ir além e conseguir fazer algo exclusivo, novo, e aí também conta a credibilidade e o respeito que cada profissional constrói ao longo dos anos.

Troppo –Muitos imaginam que ser repórter policial é viver em constante perigo. É assim mesmo?

Dílson – A atividade jornalística é arriscada por sua própria natureza. Somos bem-vindos apenas para divulgar notícias do interesse de quem entrou em contato conosco. Até mesmo na hora de fazer matéria sobre um acidente de trânsito, pode haver uma reação violenta dos motoristas envolvidos. Na cobertura da área policial os riscos aumentam à medida em que os jornalistas, para tentarem obter as melhores informações e as melhores imagens, aproximam-se muito dos locais onde estão ocorrendo os fatos, como perseguições policiais que podem resultar em troca de tiros. Os jornalistas devem tomar muito cuidado e ter bom senso, afinal, o que é mais importante: obter uma notícia ou preservar a integridade física? Devemos refletir sobre esse tema, e envolver as redações nesse debate, o que, aliás, já está acontecendo.

Troppo –No passado, o repórter policial era visto como algo menos importante em relação aos de outras editorias dos jornais. Ainda é assim?

Dílson – Acredito que essa mentalidade tenha mudado, pois, em um jornal, não há profissionais menos importantes que os demais. No entanto, já ouvi muito esse comentário: ‘Olha, você está sendo mal aproveitado. Poderias estar em outra editoria’. Discordo. A editoria de Polícia é uma grande experiência. Nela, você aprende a conviver com situações inesperadas, a pensar rápido, a tomar decisões importantes em poucos minutos, além de aprender como as coisas funcionam na prática, sobretudo nos bastidores.

Troppo –Depois de se deparar com tantos casos de violência no dia-a-dia, ainda dá para se indignar com os casos?

Dílson – Se a gente perder a capacidade de se indignar, a gente deixa de ser humano. É claro que, depois de tanto tempo de profissão, você encara algumas situações com uma certa normalidade, como ocorre em toda e qualquer profissão. Mas sou feito de carne e osso e me emociono, sim, com determinadas situações. Chamou-me a atenção o caso do rapaz de 18 anos, preso no Jurunas, que confessou ter matado várias pessoas e não demonstrar arrependimento. A vida, para ele, não tem valor algum, provavelmente por, ele próprio, ter sido tratado pela sociedade com tamanha indiferença. Violências praticadas contra crianças também me chocam bastante.

Troppo – Há quem defenda que não deveria mais existir cadernos específicos de polícia, até pelo caráter de espetacularização da violência, principalmente em termos de imagens. O que pensa sobre isso?

Dílson – Acho que os jornais têm, sim, que noticiar a violência, mas fazer isso sem estardalhaço, sem sensacionalismo. Devemos nos limitar a noticiar o que está acontecendo, que é o que fazemos no jornal O LIBERAL, sempre tendo muito cuidado na apuração das informações. Há notícias que falam por si só. São chocantes e fortes em sua essência. Não precisamos realçar isso.

Troppo – Qual o limite para a reportagem que denuncia não resvalar na condenação antecipada?

Dílson – O bom senso. É preciso ter muito cuidado na hora de divulgar certas informações. É como se fosse no trânsito. Na dúvida, não ultrapasse. É melhor deixar de divulgar certas coisas a publicar uma matéria que poderá destruir reputações. Esse cuidado deve, sempre, estar presente em todas as Editorias do jornal e na pauta diária da imprensa como um todo.

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