O governo e a Imprensa

A história do “mensalinho” da Comunicação no AP – Parte 1

Mecanismo empregado pelo governo Waldez Góes foi concebido em 2003

lista de beneficiados
Relação parcial dos pagamentos realizados em 2003

Realmente, parece que foi ontem. Em 2003, primeiro ano do governo Waldez Góes (PDT), a Imprensa amapaense – com algumas raras exceções – era regiamente paga (prática consolidada nos dois mandatos do pedetista) para “divulgar as ações positivas” da recém-instalada administração estadual. O dinheiro saía da Secretaria de Estado da Comunicação (SECOM), na época sob a titularidade do economista Olympio Guarany, caía na conta da novíssima agência de publicidade do carioca Paracy Negreiros, a Amazoom – Sistema de Comunicação, até hoje localizada na rua Hildemar Maia, entre as avenidas Procópio Rola e Raimundo Álvares da Costa, e era distribuído entre os jornais, emissoras de rádio e televisão e “radialistas e jornalistas”. O mais surpreendente disso tudo é que na “folha de pagamento” da Amazoom, leia-se Governo do Estado, estavam inclusos os nomes de deputados estaduais que recebiam polpudas quantias porque, nos fins de semana, também exerciam a nobre profissão de “radialistas”. Ou seja, além dos volumosos recursos que ganhavam – e ainda ganham – na Assembleia Legislativa do Estado do Amapá, esses parlamentares garantiam consideráveis quantias, dinheiro do povo amapaense, ocupando os espaços de pessoas que realmente sobreviviam da ocupação de radialista. Lamentavelmente, nos dias atuais esta ainda é uma prática comum nas emissoras de rádio do Amapá. Principalmente tratando-se de ano eleitoral. Políticos (homens e mulheres) de todos os matizes partidários, ideológicos e religiosos costumam comprar horários nas grades de programação das emissoras de rádio para veicularem programas de cunho social altamente duvidoso. E o mais deplorável dessa “iniciativa” é que ainda utilizam recursos públicos – recebem dinheiro do governo do Estado – para a realização desses “projetos” pessoais.

Mas em 2003, estimulados mais ainda pela facilidade do acesso ao dinheiro público promovido pela chamada “política de boa relação com os setores da Comunicação no Amapá”, os dublês de deputados e radialistas não amenizaram nas faturas. Os valores variavam de R$ 5 mil a R$ 20 mil/mês, como se pode observar nas tabelas acima publicadas. Os demais favorecidos pelo governo Waldez Góes no chamado esquema do “jaraqui oficial” (donos de jornais, de emissoras de rádio e televisão, de revistas, e alguns jornalistas contemplados) recebiam diretamente na “boca do caixa”. Em bom português, todo dia 30 do mês faziam fila na frente da Amazoom para receber os caraminguás provenientes dos cofres públicos.

Legalmente, qualquer governo pode e deve fazer a divulgação de suas ações. A questão que muito se discutiu na época girou no entorno do modelo adotado pelo governo Waldez Góes para fazer o repasse dessas verbas publicitárias. Um instrumento legal, constitucionalmente estabelecido, que ganhou contornos de algo sub-reptício, como se realizado por baixo do pano, sob as luzes bruxuleantes da ilegalidade. Enfim, como se todos estivessem praticando algo terrivelmente escuso. Deputados, empresários de comunicação, jornalistas, radialistas, agências de publicidade e produtoras. Todos personagens de uma peça de teatro burlesca e surrealista.

Diante da acessibilidade aos recursos públicos, pulularam nas bancas os mais diversos títulos de jornais e revistas. Entre 2003 e 2004, circularam em Macapá tablóides com os títulos mais prosaicos: Jornal do Norte, Folha Popular, O Popular, A Verdade, Cabo Norte, etc. Foi uma avalanche de títulos de jornais cuja periodicidade não ultrapassava a segunda edição. Inclusive, jornais cuja circulação não passou da edição 0 (zero). Isso mesmo. Edição zero. Apenas para justificar a fatura.

Um deles, o Cabo Norte, tinha como “patronesse” o deputado estadual Jorge Amanajás (PSDB), atual presidente da Assembleia Legislativa do Amapá. Sob a responsabilidade do professor Marco Antônio, funcionário do Curso Pré-Vestibular “Desafio”, também pertencente à Amanajás, o periódico garantiu longevidade mediana devido aos repasses feitos pelo governo Waldez Góes no total de R$ 8 mil/mês. Além dessa verba, o tablóide recebia, ainda, recursos da AL, Prefeitura de Macapá, gestão João Henrique Pimentel, e Câmara de Vereadores de Macapá. Para um semanário igual a dezenas de outros em circulação na época tratava-se de uma receita considerável. Apesar de todo esse suporte oficial, igualmente cerrou as portas sem qualquer explicação ao “distinto” público.

A fórmula adotada pelo governo Waldez Góes na aplicação do recurso publicitário gerou desconfortos entre os próprios beneficiários porque nas derradeiras semanas de 2003 as retaliações contra quem recebia o “mensalinho” e não cumpria condignamente o papel de porta-voz unilateral do Palácio do Setentrião passou a ser considerado “persona non grata” pela SECOM. Outro agravante emergente nesse cenário resultou em conflitos internos que em determinadas circunstâncias escaparam ao controle estatal. Alguns aliados, alegando desprestígio, passaram a exigir cotas maiores. A relutância no atendimento aos insistentes apelos ocasionou estremecimentos na relação governo/imprensa.

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3 comentários em “O governo e a Imprensa

  1. É uma situação vexatória, essa “orgia” institucionalizada entre o Poder e a pseudo-imprensa amapaense. Uma verdadeira promiscuidade! Onde está o jornalismo responsável e isento que tanto se prega nas aulas da faculdade? Morreu com a Folha do Amapá? E o que o Sindicato dos Jornalistas fez – ou faz – para combater essa corrupção editorial? Assina convênio de R$ 40 mil com esse mesmo governo e só serve para perseguir quem quer sobreviver de jornalismo e não tem ligação podre com o poder, sob a alegação da falta de um diploma. Isso é uma vergonha. Vou ali, pingar meu colírio alucinógeno…

    1. Amigo Gabriel:
      Em 1998, realizei um antigo sonho: ter o meu próprio jornal. Gastei uma boa soma para legalizar o empreendimento. Tanto a empresa publicadora, quanto o título do impresso. A primeira, na Junta Comercial do Pará; o segundo, no 2o Ofício de Registro de Títulos e Documentos e Pessoas Jurídicas, cujo oficial era (ou ainda é) o bacharel Carlos Alberto do Valle e Silva Chermont. O jornal chamava-se O CABANO e começou a circular em agosto de 1998. Na quinta edição, já estabelecida a periodicidade dele (quinzenal), preparei uma proposta conforme determinações jurídicas e protocolei na Griffo – Comunicação e Jornalismo Ltda, do jornalista e publicitário Orly Bezerra, agência de publicidade gestora das verbas de publicidade do governo Almir Gabriel (PSDB-PA). Em duas semanas recebi comunicado avisando da aprovação de minha proposta. Era o tempo que a Griffo usava para checar a idoneidade da empresa, do proprietário do impresso, endereço da redação e administração. Enfim, procedimentos normais em qualquer negócio sério. Assim, meu jornal passou a integrar a relação oficial de periódicos (semanários e quinzenários), com periodicidade regular, que circulavam na época em todo o Estado do Pará. Tudo dentro da maior legalidade. A cada edição, a agência entregava a peça a ser veiculada. Uma página formato 27 cm x 40 cm. O CABANO circulou por três anos e meio sem que em nenhum momento a Griffo tenha feito alguma exigência ou interferido no conteúdo editorial. E nunca atrasou o pagamento da fatura. Quando saí de Belém para cumprir contrato de trabalho no Amapá, Estado em que já havia residido anteriormente e que no qual nasceram meus filhos e netos, meu amigo Nemézio Filho ficou “tocando” o jornal. O projeto inicial era para eu passar três meses em Macapá e retornar para Belém. Já vou completar 10 anos residindo nesta cidade e neste Estado que tanto quero bem. Por isso, O CABANO parou. Porém, outros jornais estão até hoje em evidência na capital paraense. E jornais de bairro como O CORREIO JURUNENSE, do meu amigo Jorge Mesquita, GAZETA DO PARÁ, do Antônio Sérgio Teixeira, o Serginho, e outros que surgiram depois. Creio que você, amigo Gabriel, entende o que quero dizer com essa minha história pessoal que agora torno pública.

  2. Gabriel, parece que resolveu colocar na pratica parte do que já tinhamos conversado sobre, profissional, profissionalismo e oportunismo. Foi sempre assim amigo, o tempo passa e o filme vai ser sempre o mesmo, só vai mudar os artista. Esse Estado jamais vai da oportunidade a quem realmente deseja trabalhar, pensa bem nos teus filhos e netos, hj. a saudade bate devido minha familia e meus amigos, mas prefiro esta longe como profissional.

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