Cantares Tucujus

Rambolde Campos: 30 anos de sonhos e muito som

  

   

compositor do Amapá
Rambolde Campos celebra 30 anos de carreira com projeto inédito

Aos 46 anos de idade, o cantor e compositor Rambolde Cavalcante Campos, ou Rambolde Campos, decidiu resenhar a própria carreira com um projeto ousado. Trata-se do “Rambolde 30 anos”, uma coletânea de 30 músicas, dez delas inéditas, que farão parte de um álbum duplo especialmente produzido para celebrar a trajetória desse potiguar que aportou em terras tucujus no comecinho dos anos 1980. Desembarcou em Macapá trazendo na bagagem muitas ideias, toneladas de sonhos e sons, e um violão pendurado no ombro. Afirma que foi amor à primeira vista. Um amor por Macapá que em 2010 completa 31 anos. Desse relacionamento, segundo ele, resultaram dezenas de composições, boa parte sucesso em outros Estados, a exemplo da canção “Os passa vida”, feita em parceria com o também cantor e compositor Osmar Júnior, e regravada pela banda paraense Sayonara. Nascido no sertão rio-grandense-do-norte, mais precisamente lá pelas bandas do Cabugi, alguns quilômetros do município de Lages Pintadas, Rambolde cresceu ouvindo o pai dele interpretar no assovio um clássico de Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”. Apesar de muito jovem, Rambolde já entendia o que o “véio Lua” queria dizer com “(…) terra ardendo qual fogueira de São João/ (…)”. Era a seca castigando o povo nordestino. E a desolação era tamanha que até mesmo a Asa Branca, não suportando o braseiro, tinha batidos asas do sertão. 

 

Foram as canções de Luiz Gonzaga as primeiras musas inspiradoras do jovem Rambolde. No entanto, nessa mesma época outro “cabra” também fazia levantar a poeira nos bailes de forró de João Pessoa. Era o paraibano Jackson do Pandeiro. Artista notoriamente carismático, Jackson fez sucesso realçando um estilo próprio de interpretar suas próprias obras. Duas delas, tantas vezes regravadas por artistas igualmente talentosos, “Sebastiana” e “Na base da chinela”, são exemplos típicos dessa característica de Jackson. 

Outro paraibano elevado à condição de referência na carreira de Rambolde Campos foi Sivuca. Nascido em Itabaina, Sivuca ganhou projeção nacional e internacional como instrumentista, arranjador, compositor e produtor. Campos relembra que ao encontrar-se com o afamado maestro, ouviu dele a seguinte recomendação: “Se você quer ser universal, antes de tudo seja regional”. O ensinamento ganhou dimensões de oráculo a ponto de ser incluído numa das inéditas recentemente produzidas para o álbum duplo em fase de conclusão. 

Contudo, a música só penetrou fundo na alma de Rambolde Campos aos 16 anos. Era fim dos anos 1970, rememora. O movimento jovem nas igrejas católicas ganhava volume e congregava uma profusão de pensares, de todas as tendências ideológicas e artísticas. No meio de tanta energia juvenil, um frequentador do templo, conhecido no lugar pelo vulgo de “Antônio Parrudo”, chamava atenção pela habilidade com que dedilhava o violão no acompanhamento aos hinos entoados pelos fiéis. 

Alguns jovens ansiavam aprender a manejar o tal instrumento musical mas naquela altura somente “Antônio Parrudo” poderia ensiná-los. Além disso, o único violão disponível era o de “Parrudo”, e lógico que ele não emprestaria àquele “bando” de fedelhos um bem tão precioso. A única solução era convencer o vigário da localidade a investir os minguados caraminguás amealhados com os dízimos e ofertas na compra de cinco violões. Parecia uma ideia tão absurda que se o sacerdote a rechaçasse ninguém ficaria nem um pouquinho triste com ele. 

Mas, para surpresa geral o padre topou investir no talento musical dos jovens paroquianos. Comprou os instrumentos, nomeou “Parrudo” professor de música e ainda disponibilizou a nave do templo para ser transformada em sala de aula, onde o violeiro passou a transferir seus conhecimentos aos alunos. Rambolde estava no meio deles. Lampeiro e pimpão. 

Os ensinamentos do “mestre Antônio Parrudo” foram bem aproveitados. Um princípio que, segundo Rambolde, foi útil para dirimir qualquer dúvida sobre a decisão que mais tarde tomaria.”Com a continuação do aprendizado, e com a influência das músicas do movimento nordestino, que eu classifico como uma escola muito importante na minha formação, decidi seguir carreira iniciando minha caminhada como fizeram boa parte dos artistas de minha época: comecei cantando em barzinho. Fiz barzinho por quatro anos seguidos, tocando na orla de Natal, onde encontrei muita gente boa, fiz grandes amizades, e, principalmente, ganhei experiência”.  

Estimulado pela família para que aprofundasse os conhecimentos, Rambolde Campos matriculou-se no Conservatório de Natal (RN). Como na ocasião as vagas para o curso de Música já estavam todas preenchidas, o jeito foi iniciar os estudos pelo curso de Canto, um imprevisto que ele soube converter em dividendos para sua carreira. “Eu lembro que ao participar do Festival Sesc de Música, acho que em 1988, passei por uma experiência única, que acontece com todo cantor. Ao pisar no palco, minhas pernas tremiam. Acredito que o público tenha percebido meu nervosismo que, logo de entrada, me aplaudiu bastante. Percebi naquelas palmas uma sinceridade muito grande. Então, iniciei minha apresentação com a voz firme. Nesse instante, lancei mão do que aprendi nas aulas de canto. Ao concluir, fui mais aplaudido”, recorda ele. 

Os aplausos sempre foram o combustível do artista. Nos palcos da vida, seja em barzinhos ou nos grandes festivais, o artistas, seja ele músico ou ator de teatro, percebe pela intensidade das palmas se seu trabalho agradou aquele público. Para o músico potiguar-amapaense Rambolde Campos, no palco do festival Sesc de 1988, na distante Natal, nasceu o artista popular. “Foi ali, naquele momento, em que nasceu o Rambolde artista”, afirma ele, quase 30 anos depois, acrescentando que relembrar esses momentos é como fazer uma viagem no tempo, é como enxergar-se no espelho da vida e ver o refletir de sua história. “Como músico ganhei – e ainda estou ganhando – o melhor que a vida pode proporcionar a um ser humano: felicidade. Sou muito feliz com a família que tenho, com os amigos que fiz e com a cidade que me acolheu há 30 anos”. 

Atendendo a covites de parentes que já moravam em Macapá, aos 20 anos de idade, Rambolde Campos desembarcou em terras tucujus “para passar alguns dias” apenas para rever tios e primos e conhecer a terra em que eles moravam há bastante tempo. “Meu tio foi pioneiro aqui [Macapá]. Então, lá, em Natal, ouvia muito falar de Macapá, do povo bom e hospitaleiro, e das riquezas naturais que aqui, segundo afirmavam, existiam em abundância. E ainda existem, como a gente pode ver.  

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3 comentários em “Cantares Tucujus

  1. Fiz parte da mema turma estudantil de Rambolde Campos, na “Escola polivalente Dr. Manoel Villaça”, em Natal/RN, nos anos de 1973 a 1975. Naquela época já demostrava seus dotes artísticos. É bom saber que um amigo de velhos tempos tem feito concretizar seus sonhos de adolescência.
    Um grande abraço para Rambolde!

  2. Não se vexe companheiro, não se dê por vencida essa força, que nasce dentro de você, alimentando o seu sonho de ser feliz um dia, de ser poeta ou poesia…( Rambolde). Eu estava lá, camarada, no Teatro Alberto Maranhão, fazendo a luz do festival, nunca esqueci desses versos, parabens pela carreira.
    Um grande abraço, Castelo Casado.
    Natal, RN

  3. Rambolde: Quanta saudade! Há anos, muitos anos que não tenho notícias do dileto amigo. Consegui contato com você casualmente, quando, de repente, você me veio inesperadamente à memória. Pelo que percebo, você hoje é uma estrela no norte deste nosso Brasil. Você foi para seu paraíso amazônico no início da década dos anos 80; para ser mais ou menos preciso, em meados de 1981. Não foi assim? Continuo no mesmo endereço, sempre à sua disposição. Já seu estimado.irmão e grande amigo meu, Humberto, cheguei a vê-lo há uns 6 ou 7 anos, durante uma passagem por Natal, onde fui matar a saudade. Fica para você, Rambolde amigo, um forte e saudoso abraço! “Vamos nessa”, como você costumava dizer. Gilberto Gonçalves de Assis – lonelypbpe@gmail.com. Obs.: Cheguei a ouvi-lo através de um clipe, acompanhado de uma bela senhora, talvezsua esposa. Ou não?,.

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