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O livro de David Nasser: um presente inesquecível

 Nos primórdios anos 1980, quando ainda nos primeiros passos do Jornalismo militante, fui “apresentado” ao jornalista e compositor David Nasser por meio do livro “A revolução que se perdeu a si mesma – Diário de um repórter” (NASSER, David. Edições O Cruzeiro. Rio de Janeiro. 1965). Para um estudante de Comunicação com recursos esquálidos essa edição do livro de Nasser foi o presente do ano. Aliás, o presente de uma vida. No total, ela completa este mês 45 anos, 26 dos quais nas minhas estantes, acompanhando-me em contínuo périplo profissional. O benfeitor foi o jornalista Marcos Moraes de Lima, com quem aprimorei técnicas jornalísticas na construção de textos (reportagens, artigos e crônicas), artes gráficas (diagramação e paginação, na época) e fotografia (essa também devo ao engenheiro eletrotécnico e talentoso fotógrafo Miguel Chikaoka). Moraes de Lima ganhou o livro de um professor muito querido, na Universidade Federal do Ceará (UFC), dias antes da festa de formatura em Jornalismo. Isso, em plena década de 1970.

Mais tarde, no Bar e Restaurante Hakata, localizado no Ver-o-Peso, reunidos em volta de uma mesa estrategicamente posicionada de frente para a Baía do Guajará, Marcos comentaria que ao receber o livro das mãos do professor dele também sentiu emoções idênticas às minhas. E arrematou, em tom profético: “Esse livro é uma porrada! Tu vai gostar dele!”

E tanto gostei que até hoje o guardo com muito carinho. Já perdi as contas das releituras que fiz de “A revolução que se perdeu a si mesma – Diário de um repórter”. Trata-se de uma volumosa coletânea de artigos produzidos por Nasser e publicados por anos na revista o Cruzeiro, de Assis Chateaubriand. O estilo é inconfundível. Nasser fora brilhante. O mais famoso repórter do seu tempo. Cada um dos artigos, distribuídos nas 424 páginas do livro, revela uma faceta do “espadachim da palavra”, alcunha que o também jornalista José Cândido de Carvalho (1914 – 1989) pôs em Nasser.

Da revista de Chateaubriand, David Nasser coordenou ácidas campanhas contra os mandachuvas da época, personagens proeminentes da política nacional como JK, Jânio Quadros, João Goulard, Leonel Brizola. Denunciou violências, violações dos direitos civis, arbitrariedades, corrupções, malversações, etc. Fez de sua pena a mais letal das armas. Fora brilhante e ao mesmo tempo sombrio. Devido a acidez de seus artigos atraiu uma gama de sentimentos contraditórios. No entanto, jamais bateu em gente de meio metro. Sua artilharia era direcionada aos donos do poder no Brasil, contra os quais travou memoráveis batalhas campais.

Admirador mais comedido de Nasser, o ex-professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto escolheu, como fonte motivadora um nome além mar, o do norte-americano Izzy F. Stone. Foi inspirado no jornal de Stone que há 23 anos Pinto fundou o Jornal Pessoal. A iniciativa rendeu ao jornalista inúmeros prêmios nacionais e internacionais. Quanto a David Nasser, Lúcio F. Pinto garante ter sido ele excelente jornalista, mas, em vários momentos da carreira afeito ao sensacionalismo e à amoralidade conforme os interesses político-financeiros de de Assis Chateubriand.

Nunca tirei as razões de Lúcio, às vezes Nasser carregava na tinta e cometia verdadeiros massacres. Também sou favorável ao conceito defendido por I. F. Stone, o de que o papel de um jornalista livre numa sociedade livre não é o de somente expor as sujeiras. Na verdade “(…) Isso é apenas parte do trabalho. O verdadeiro problema é fornecer uma compreensão maior das complexidades em que seu país, seu povo e sua época estão envolvidos. Nosso trabalho é traduzir essas questões, estudá-las. O trabalho principal [do jornalista] não é desgraçar ninguém, nem difamar ninguém, e sim fornecer [uma ampla] compreensão [dos fatos].”

Porém, não resta nenhuma dúvida de que o livro de Nasser é uma verdadeira aula de construção de textos vigorosos e altamente corrosivos. Por isso, tornei-me fã dele. Mais tarde também passei a admirar outros jornalistas com igual habilidade vernacular: Carlos Lacerda, Paulo Maranhão, Lúcio Flávio Pinto, Paulo Carvalho, Nemézio Filho, Paulo Jordão, Carlos Mendes, Marcos Moraes de Lima e demais profissionais de alta cabotagem, exímios esgrimistas da palavra, que conheci e com quem convivi.

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