Excesso de caridade

Frei Genebro: do (quase) Paraíso ao Purgatório

Conto de Eça de Queirós – Interpretação de Emanoel Reis

Escritor português
Eça: crítico feroz da Igreja Católica

A história pessoal de Frei Genebro, discípulo do “divino Francisco de Assis”, é uma criação do escritor Eça de Queirós e integra uma coletânea de 12 contos de autoria do português, publicados no Brasil pela Ediouro, na década de 1990, sob o título de “Contos de Eça de Queirós”. Como religioso, segundo Queirós, Genebro “(…) completara a perfeição em todas as virtudes evangélicas. Pela abundância e perpetuidade da oração, ele arrancava da sua alma as raízes mais miúdas do pecado, e tornava-a limpa e cândida como um desses jardins em que o solo anda regado pelo Senhor, e onde só podem brotar açucenas”.

 

 

O bom frade não titubeava em ajudar os necessitados. “(…) Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas igrejas, arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando, jovialmente, que mais praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa./ Cercado de viúvas, de crianças famintas, invadia as padarias, os açougues, até as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em nome de Deus, a parte dos deserdados”. Por conta dessa disposição pelo bem, Genebro vislumbrava – post mortem – o galardão que receberia das mãos dos próprios anjos do Senhor.

Certa ocasião, pronto para iniciar mais uma de suas peregrinações, veio à mente a lembrança de um amigo muito querido. Frei Egídio, “(…) antigo noviço como ele [Genebro] no mosteiro de Santa Maria dos Anjos”. Há três anos não conversavam. Egídio vivia retirado “(…) para se avizinhar mais de Deus, [habitando] uma cabana, cantando e regando as alfaces do seu horto, porque a sua virtude era amena”. Tocado pela saudade, Genebro decidiu reencontrar o velho amigo.

Após horas de caminhada initerrupta, Frei Genebro quedou de cansaço e sede às margens de um córrego, de onde “(…) sussurrava e luzia um fio de água”. Enquanto se fartava, observou “(…) Estendido ao lado, nas ervas úmidas (…), ressonando consoladamente, um homem, que decerto por ali guardava porcos, porque vestia um grosso surrão de couro e trazia, pendurada da cinta, uma buzina de porqueiro”.

Queirós conta que o “(…) frade bebeu de leve”, afugentou as moscas, e prosseguiu a jornada, avistando mais adiante “(…) o rebanho de porcos, espalhado sob as frondes, roncando e fossando as raízes (…)”.

Não demorou para localizar a rústica cabana do ermitão. Mas, estranhou o silêncio àquela hora da tarde. Egídio deveria estar cuidando de sua horta. Então, pôs-se a chamá-lo. Do fundo da morada pré-histórica ouviu profundo gemido. Genebro acorreu e, para seu espanto, Egídio jazia “(…) estirado num monte de folhas secas, encolhido em farrapos (…)”. Cheio de comiseração pelo antigo companheiro de noviciado, Genebro perguntou o que poderia fazer para aliviar-lhe o corpo.

Egídio voltou a face, “(…) outrora farta e rosada [mas, agora], um pedacinho de velho pergaminho muito enrugado (…)”, e balbuciou no ouvido de Genebro: “(…) Toda esta noite, vos confesso, me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de porco assado…. Mas será pecado?(…)”. Sem pestanejar, Frei Genebro lembrou-se do rebanho de porcos. Armando-se com uma pequena faca de cortar hortaliças, esgueirou-se por entre o matagal até encontrar, solitário, um bacorinho às margens do córrego. Saltou sobre o animal, e de um golpe, decepou-lhe uma das pernas.

Cheio de gula, em poucos minutos Egídio devorou a iguaria preparada por Genebro. Logo depois, morreu.

Anos mais tarde, chegou a vez de Genebro voltar ao pó. No Paraíso Celestial, foi recebido com honras de chefe de Estado. Porém, antes de ser compensado por toda uma vida de amor ao próximo, precisava passar por um teste. Então, a alma do frei viu surgir à sua frente “(…) dous imensos pratos de uma Balança, um brilhando como diamante; o outro, negrejado”. Tenso, a princípio, Genebro começou a festejar quando viu o prato diamantino descer lentamente, carregado com as suas boas obras. Era a glória, afinal. No entanto, “(…) Subitamente, o prato negro oscilou e (…) tão pesado vinha, que suas grossas cordas se retesavam, rangiam (…)”. O frade estremeceu de pavor. Que terrível má ação havia cometido?

Para surpresa de Genebro, no fundo do assombroso prato negro jazia “(…) um pobre proquinho com uma perna barbaramente cortada, arquejando, a morrer numa poça de sangue”.

“Então o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou cair, na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genenbro.”

Moral: você pode fazer 99,9% certo. Mas, é aquele 0,001% que você fez a mais ou a menos que realmente importa.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s