Jorge x Waldez: duelo à vista

Orçamento 2010 vira instrumento de manobra política

anúncio experimental
Meta Jornalismo e Publicidade

Não foi apenas se referindo à necessidade de “(…) ajustes na lei orçamentária” que o deputado Jorge Amanajás (PSDB), presidente da Assembleia Legislativa do Amapá, assinalou “(…) que a partir de janeiro será indispensável haver sintonia maior entre o Executivo e o Legislativo”. Na verdade, o que o tucano pretende, embora não tenha deixado isso tão claro, é maior proximidade com o Palácio do Setentrião logo nas primeiras semanas de 2010. E as mudanças no Orçamento, além do cumprimento constitucional, propiciaram esse estreitamento no fosso que já começava a se tornar abissal entre AL, leia-se o próprio Amanajás, e GEA. Desde 23 de dezembro passado, quando o Orçamento para 2010 foi aprovado a toque de caixa por 22 dos 24 deputados, conforme afirmações do próprio presidente da AL, em votação relâmpago e a portas fechas, que a manobra vem suscitando uma enxurrada de interpretações. As alterações promovidas no texto original enviado pelo governador Waldez Góes foram tão extensas que até mesmo Jorge Amanajás concordou que “(…) o Estado pode iniciar o ano sem orçamento”. Nesse caso, a questão deixa de ser meramente técnica, como tenta fazer crer o social-democrata, e ganha claros contornos políticos-eleitoreiros.

Há pelo menos cinco meses, o presidente da AL, que é pré-candidato ao governo do Estado, vem manifestando, em conversas reservadas, seu descontentamento com as atitudes de Waldez Góes em relação às eleições vindouras, em especial no concernente à sucessão governamental. Amanajás contava com o apoio irrestrito do grupo político nominalmente liderado pelo governador para pavimentar sua campanha, resultado de um acordo fechado no comecinho de 2008, quando ficou decidido que o ex-deputado estadual Roberto Góes seria o candidato oficial para disputar a Prefeitura de Macapá.

Jorge Amanajás se predispôs encampar o projeto político da família Góes desde que no ano seguinte – 2010 – igualmente recebesse idêntico amparo na construção de seu projeto pessoal de concorrer e eleger-se governador do Amapá. A bem-sucedida eleição de Roberto, mesmo que amplamente questionada na justiça eleitoral, foi interpretada por Amanajás como um sinal de que em 2010 ele seria ungido como o candidato oficial do governo Waldez.

No transcorrer de 2009, no entanto, o que seu viu foi o crescimento da imagem do vice-governador e secretário de Estado da Saúde, médico Pedro Paulo Dias de Carvalho, como legal substituto de Waldez a partir de abril e possível pré-candidato à reeleição, e com chances consideráveis de sagrar-se vencedor. E o que deixou Amanajás mais ressabiado ao observar alterações sub-reptícias no acordo anteriormente selado foi notar que Waldez estava tratando Pedro Paulo como sucessor e preferido do Palácio do Setentrião.

Destacados “oficiais” da tropa de choque a serviço da pré-candidatura de Jorge Amanajás, os médicos e deputados estaduais Manoel Brasil e Dalto Martins (PMDB) não economizaram munição nos ataques desfechados da tribuna do plenário da Assembleia Legislativa contra Pedro Paulo. Cada um mais virulento que o outro, renovados diariamente, por um período milimetricamente calculado, minaram lentamente os alicerces do vice-governador e secretário de Estado. Esse era o objetivo. Porém, os projeteis não atingiram somente o alvo pretendido. Resvalaram nos pilares do Palácio do Setentrião, e chamuscaram pessoas diretamente ligadas ao governador.

Esse foi o reverso da moeda. Waldez Góes considerou a artilharia contra seu vice e secretário da Saúde um tanto exagerada para o momento. Em conversa com auxiliares próximos, ouviu a seguinte observação: Como estrategista-mor, Jorge Amanajás coordenava os bombardeios sem puxar o gatilho. Assim, evitava confrontos diretos. No entanto, tratava-se de uma mensagem cujo objetivo era lembrar do acordo sobre sua pré-candidatura ao governo. Mas, se ele (Amanajás) indiretamente estava concordando que o governo Waldez fosse colocado em xeque, então, não poderia ser um parceiro tão confiável.

Quem garantiria que Amanajás, ao obter a vitória nas urnas, não abriria a caixa de ferramentas contra o antecessor revelando, numa primeira oportunidade, as mazelas e os senões herdados da administração anterior? Para evitar futuros contratempos, melhor seria trabalhar uma pré-candidatura caseira aproveitando nomes familiares bem cotados na mídia chapa-branca para contrapor às pretensões do presidente da AL e, ao mesmo, arrefecer os ímpetos sucessórios do vice, igualmente inconfiável.

Então, como parte inicial dessa estratégia os nomes do secretário especial de Desenvolvimento da Infra-estrutura, Alberto Góes, e o do prefeito de Macapá, Roberto Góes (ambos primos do governador), passaram a ser ventilados na imprensa oficial como possíveis pré-candidatos do governo à sucessão. Nesse caso, Waldez não se desincompatibilizara em abril, mantendo-se no cargo até 31 de dezembro de 2010 para dar total suporte a uma das duas pré-candidaturas, e impediria – ou pelo menos dificultaria – a ascensão de “aliados” insatisfeitos.

Foi essa a leitura que Jorge Amanajás fez enquanto analisava o Orçamento do Estado para 2010 estimado em quase R$ 2,5 bilhões. “(…) O projeto inicial, enviado pelo Executivo, previa R$ 93 milhões para a Assembleia, R$ 46,7 milhões para o Tribunal de Contas, R$ 122,8 milhões para o Tribunal de Justiça e R$ 65,4 milhões ao Ministério Público. Esses [valores] foram alterados para mais” (Fonte: matéria publicado em A Gazeta, edição de 31/12/2009, intitulada “Polêmica – Jorge Amanajás fala pela primeira vez sobre mudanças no Orçamento do Estado para 2010”, de autoria do jornalista Paulo Silva).

Ao avalizar as alterações no “projeto inicial” do Orçamento 2010, Jorge Amanajás botou o governo Waldez numa tremenda saía justa. Além das invertidas nos valores originais que seriam alocados para TCE, TJAP, MP e AL, o tucano alvejou gravemente a Secretaria de Estado da Comunicação (Secom), ao reduzir pela metade a fatia orçamentária do órgão, antes estabelecia em R$ 14 milhões. Depois, reduzida para pouco mais de R$ 7 milhões. Sem os recursos primitivos, a Secom, responsável direta pelo pagamento das cotas destinadas à imprensa, agências de publicidade e produtoras, ficou com o poder de barganha seriamente comprometido.

Mas, o plano era exatamente esse: obrigar o governo a uma aproximação – mesmo que forçada – do legislativo estadual, leia-se deputado Jorge Amanajás. O tema, previamente pautado, certamente tratará das alterações no Orçamento e do veto do governador. Dessa forma, como bem explicou Amanajás, “(…) o governador sanciona o projeto com as emendas ou veta integralmente. Caberá aos deputados acatarem o veto integralmente ou derrubarem o veto. Caso o veto seja derrubado, a lei passa a valer automaticamente a partir da sanção (pelo governador) ou promulgação (pelo presidente da Assembleia)”.

Esse é o trunfo de Jorge Amanajás. Se o governador vetar e o parlamento derrubar o veto Waldez Góes começa 2010 com menos recurso em caixa. E em se tratando de um ano eleitoral isso pode ter um peso considerável na balança. O estratagema em andamento sob a coordenação do presidente da AL também atinge em cheio o vice-governador Pedro Paulo Dias de Carvalho. Se Waldez deixar o cargo em abril, Pedro Paulo assume com o poder de fogo combalido e, consequentemente, com a pré-candidatura enfraquecida.

Nesse mesmo período, em 2008, Jorge Amanajás celebrou o réveillon acreditando que seria o único pré-candidato do governo, em 2010. Planejou uma candidatura de consenso, abalizada por todas as forças políticas atualmente em evidência no Estado. Iniciou 2009 com essa perspectiva. Meses depois, Amanajás protagonizou outro réveillon, dessa vez, em se tratando de seus projetos políticos pessoais, foi comedido nas comemorações.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s