É uma possibilidade

Caim ainda vive entre nós

 Emanoel Reis

 Em 1513 a.C., o hebreu-egípcio chamado Moisés completou a escrita do primeiro livro da Bíblia Sagrada intitulado Gênesis, significa “origem”. O feito aconteceu no deserto do Sinai. A obra, no entanto, foi principiada por Adão, o primeiro homem, criado por Deus à sua imagem e semelhança que, por iniciativa do próprio Todo-poderoso, recebeu o relato das criações do Universo e da Terra. Adão teria produzido os dois primeiros documentos (concluídos em Gênesis 2:4 e 5:1 e 2). Em seguida, Noé assumiu a incumbência, acrescentando outras narrativas neles, inclusive o dilúvio (Gênesis 6:9). Outros oito sábios igualmente foram escolhidos por Deus para participarem do projeto como co-autores. Os registros do Gênesis abrangem um longo período, de 4026 a 1728 a.C., e retratam os mais variados cenários, do Jardim do Éden aos Montes Ararate; da Mesopotâmia à Palestina antiga. Mas, é importante conhecer o Gênesis, sobretudo os primeiros capítulos e versículos, onde estão descritas em minúncias a ascensão e a queda do Homem, segundo a Teoria do Criacionismo, pois, a partir desse entendimento alguns mistérios começam a ser desvendados, isso é, desde que os estudos se aprofundem em caminhos subsequentes. Um desses intricados casos tem como protagonista o agricultor Caim. Segundo consta no Gênesis 3: 1 a 24, após o entrevero com Lúcifer, transmutado em serpente na árvore do “conhecimento do bem e do mal”, Adão e Eva passaram a coabitar como homem e mulher, resultando desse relacionamento dois filhos: Caim e Abel. Caim era o primogênito, investido de todos os privilégios somente concedidos aos varões. Por ser muito vigoroso, de uma compleição física avantajada, tornou-se produtor agrícola. Escolheu uma área muito rica em calcário, às proximidades da entrada no lado oriental do Éden, para iniciar as atividades. De personalidade complexa, dado a arroubos e impetuosidades, Caim não demonstrava temer as feras que antes conviviam harmoniosamente com os seres humanos no Jardim do Éden e que, devido a consumação do “pecado original”, tornaram-se em animais selvagens. Além de lavrar a terra com grande energia, Caim também transformara-se em exímio caçador, às vezes agindo com indisfarçável crueldade na perseguição e abate dos animais. Abel não possuía o mesmo vigor físico do irmão mais velho. De constituição mais franzina, cresceu ouvindo as extraordinárias histórias narradas por seu pai sobre as longas conversas que mantinha com Deus, em passeios memoráveis pelo aprazível Jardim do Éden. Aqueles relatos tocaram fundo no coração de Abel e contribuíram sobremaneira para que ele optasse por uma vida mais contemplativa, de respeito e adoração contínua ao Senhor Deus por meio de suas oferendas e orações. Pastor de ovelhas nas pradarias ocidentais do Éden, Abel logo conquistou o reconhecimento de Deus por suas ações benevolentes e respeitosas para com os elementos da Natureza. Além de agradar-se muito do modelo de adoração adotado pelo caçula do primeiro casal, Deus passou a abençoar todas as obras de suas mãos, concedendo ao jovem pastor o sopro benfazejo de ser bem-aventurado em todas as iniciativas. Vendo Caim que seu irmão crescia em sabedoria e agradava consideravelmente a Deus, deixou-se dominar por um sentimento de contrariedade. Primeiro, percebeu que apesar de esforçar-se muito no ornamento de suas oferendas, não conseguia obter de Deus nenhuma manifestação de apoio. Em vez disso, era rispidamente admoestado a afastar do coração toda insensatez e arrebatamento. E principalmente, a desistir da busca pela árvore da Vida Eterna. Segundo, indignou-se ao descobrir-se preterido na primazia de Deus embora como primogênito naturalmente deveria ser o melhor aquinhoado em quantidade de bênçãos e premiado com maior fortuna. Há alguns anos Caim, que ouvira repetidas vezes a história narrada por Adão, buscava encontrar a árvore da vida localizada exatamente no lado oriental do Jardim do Éden, onde propositalmente o agricultor escolhera para plantar e cultivar. O objetivo intrínseco era localizar a árvore, apropriar-se de seus frutos, comê-los e tornar-se imortal. Essa era a ambição cultivada no recôndito de sua alma. E quanto mais procurava, menos chance tinha de encontrá-la. Com tantos insucessos contabilizados, Caim tornou-se um jovem despeitado. Por conta de suas atividades clandestinas, Caim excursionara por áreas do jardim inexploradas e habitadas por criaturas medonhas. Enfrentara perigos espantosos e suplantara dificuldades aterradoras. Tanto empenho em esquadrinhar o Jardim do Éden visava a satisfação de uma vaidade maligna, o desejo incontido de tornar-se um “deus”, conhecedor do bem e do mal e dotado de vida eterna. Conforme a Bíblia, do Éden saía um rio que se dividia em quatro cabeceiras. “(…) O nome do primeiro é Pisom; este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há obdélio, e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe. E o nome do terceiro rio é Tigre; este é o que vai para o lado oriental da Assíria; e o quarto rio é o Eufrates.” Gênesis 2.10 a 14. Revela que o Jardim deveria compor uma extensão considerável, talvez abrangendo centenas de quilômetros. Portanto, não era apenas um “quintal”. Dentro desse habitat, Adão pôde desempenhar sua primeira missão, dar nomes a todos os animais (Gênesis 2.19). Esse lugar de deleite não excluía o trabalho, antes, o trabalho era edificante e trazia seus frutos. É interessante notar que alguns estudiosos têm afirmado que a palavra “Éden” teria sua origem do acádico edinu, que significa “campo aberto”. Contudo, o consenso geral é de que a palavra tem sua origem no hebraico Éden, isto é “deleite”. Se onde há fumaça pode haver uma clareira, então talvez o reflexo acadiano compartilha a ideia de um lugar amplo e de verdadeiro deleite. Isso foi antes do declínio. No tempo de Caim, boa parte do Éden estava em amplo processo de desintegração. Ganhara aspecto de selva densa, com pântanos, crateras abissais, espessos nevoeiros, chuvas prolongadas e relâmpagos ensurdecedores, e extensas regiões sombrias. Somente as áreas habitadas pela família de Adão mantinham os aspectos originais da criação. Dominado por desejo tão ardente e profundo, Caim só tinha em mente um propósito: encontrar a árvore da vida eterna para livrar-se – pensava ele – da tutela de Deus. Por isso, ao tramar a morte do irmão não o fizera por simples inveja. Em sua mente atormentada construiu a seguinte hipótese: ao eleger Abel seu preferido, Deus poderia revelar a ele o segredo da localização da árvore. Por isso, passou a espreitar Abel. Acompanhar todos os movimentos do irmão. Observá-lo à distância. Numa tarde, enquanto Abel apresentava-se a Deus por meio de suas oferendas, percebeu uma grande luminosidade envolvendo o rapaz. Naquele instante deduziu que o segredo avidamente buscado por ele acabava de ser revelado a outro. Então, decidiu obtê-lo a qualquer preço. Na manhã seguinte, utilizando-se de um ardil convenceu o irmão a acompanhá-lo em um passeio por suas áreas agricultáveis. Alegara pretender mostrar a Abel o quanto havia progredido na lavoura das terras. Ao alcançarem considerável distância, Caim abordou Abel com extrema violência, subjugando-o com uma chave de braço e derrubando-o no chão. Atordoado com o inesperado ataque, o pastor pedia para ser liberado. Ignorando o sofrimento do irmão, Caim exigia que lhe fosse revelada a exata localização da árvore da vida eterna. Mas, alheio ao assunto, Abel não sabia o que responder. Apenas implorava para ser deixado em paz, para voltar às suas ovelhas, para o aconchego da família. Tomado pela ira, Caim imobilizou Abel mais uma vez e o golpeou várias vezes na cabeça. Completamente transtornado, ainda escondeu o cadáver no vão de uma rocha. Caminhando de volta à casa dos pais, foi paralisado por uma súbita energia cósmica. Mesmo imobilizado, reagiu com desdém quando inquirido sob o paradeiro de Abel. “Não sei! Por acaso sou eu guardador do meu irmão?” Caim sabia que o interlocutor era Deus. Ainda assim, portou-se com arrogância. Somente ao ouvir do próprio Senhor que a “(…) a voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra” e de sentir o impacto da maldição divina (…E agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão./Quando lavrares a terra, não te dará mais a sua força; fugitivo e vagabundo serás na terra.) é que percebeu a dimensão do mal que havia cometido. Estraçalhado pelo remorso, Caim bradou: “É maior a minha maldade que a que possa ser perdoada./Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua face me esconderei; e serei fugitivo e vagabundo na terra, e será que todo aquele que me achar me matará”. Pensando em livrar-se de tão grave culpa com a própria vida, Caim não imaginava que uma praga mais dura o atingiria brutalmente. Seria muito fácil derramar o sangue do próprio irmão, arrepender-se, dar-se em holocausto numa tentativa sub-reptícia de expiar esse crime, mesmo que custasse uma eternidade de tormentos indescritíveis num inferno sequer existente, e quem sabe milhares de anos mais tarde obter o abrandamento dessa pena. Não, mesmo! Caim merecia algo diferente. Ora, por muito tempo dedicou-se ele a encontrar a árvore da vida eterna. Palmilhou grandes áreas do Jardim do Éden, onde vivera seus pais antes da queda. Vasculhou vales, veredas, depressões e superfícies, montes e montanhas, lagos, lagoas e rios. Então, esse será o castigo de Caim. A vida eterna como fugitivo e vagabundo na terra. Afinal, existe castigo mais terrível do que jamais poder morrer? De perambular pelas eras terrestres indefinidamente. De testemunhar, milhões e milhões de vezes, o cometimento de tantas atrocidades. De ver, milênio após milênio, os entes queridos esvaírem-se no tempo. Que castigo mais terrível recebeu Caim. O de jamais poder morrer. Portanto, qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o Senhor um sinal em Caim para que não o ferisse qualquer que o achasse”. (Gênesis 4:8 a 15). E Caim está até hoje entre nós, fugitivo e vagabundo. Sobrevivendo às maiores tragédias já vividas pela humanidade. A começar pelo dilúvio, quando conseguiu esconder-se na Arca de Noé porque Deus o permitiu. E dessa forma, arrasta-se pelo mundo sem que ao menos possa ferir-se (cometer suicídio) ou ser morto porque está marcado por Deus.

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